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Religiões afro conquistam os jovens capixabas

Motivados pela curiosidade, há aqueles que também se convertem ao Islã

Publicado em 02/06/2018 às 19h06

Há três anos, o estudante Marcos Vinicius Molino Pitanga, de 19 anos, foi chamado pelo seu pai para participar de uma sessão na Fraternidade Tabajara - o santuário de umbanda em Cariacica. O convite foi aceito pela curiosidade e nele veio a descoberta que aquele era o seu lugar.

“No primeiro momento a sensação era de medo, depois de 20 minutos comecei a me sentir bem na casa. Cheguei a frequentar outra religião, mas foi na umbanda que senti Deus e meus primeiros dons mediúnicos. Decidi ficar na casa porque via que fazia muita caridade sem cobrar e julgar o próximo.”

Os estudantes Anne Caroliny e Marcos Vinicius são fiéis da religião Umbanda. Crédito: Fernando Madeira
Os estudantes Anne Caroliny e Marcos Vinicius são fiéis da religião Umbanda. Crédito: Fernando Madeira

Seja pela curiosidade ou por seguir os passos da família, é cada vez mais comum encontrar jovens frequentando religiões de matriz africana e árabe. Dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2010, 471 jovens, de 15 a 24 anos, frequentavam o candomblé e a umbanda no Espírito Santo.

DIVINO

 

O professor de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Gerson Moraes, explica que os jovens estão mais voltados para a religiosidade do que na geração anterior, o que faz com que, na maioria das vezes, eles não se conectem a uma determinada religião e transitem por diferentes segmentos.

“Eles tendem a não ter uma religião oficial, mas uma religiosidade que permite transitar em todos os segmentos que acharem interessante. Alguns vão experimentar e outros vão se descobrir e criar laços. A internet e outros diferentes meios de comunicação foram importantes para que pudessem descobrir as diferentes religiões que existem”, explica.

O auxiliar administrativo Fabrício dos Santos Ventura, 24 anos, já passou pela umbanda, mas se encontrou no candomblé há dois anos. Apesar de ambas serem religiões afro-brasileiras, carregam muitas diferenças. No candomblé, os Orixás são considerados deuses ou santos, enquanto na umbanda existe um único Deus e os orixás são considerados como divindades ancestrais que se comunicam através de guias.

“O candomblé me fez entender melhor a vida espiritual, carnal, material. Você compreende tudo que vive e encontra o porquê de coisas que se passaram. A religião trouxe muitas respostas à questionamentos pessoais que eu tinha”, afirmou Fabrício, que frequenta Nzó Musambu Riá Kukuetu, conhecido como Barracão de Mãe Neia, na Serra.

Yuri Fonseca, 27, e Fabrício dos Santos Ventura, 24, encontraram paz no candomblé. Crédito: Fernando Madeira
Yuri Fonseca, 27, e Fabrício dos Santos Ventura, 24, encontraram paz no candomblé. Crédito: Fernando Madeira

No candomblé é comum as pessoas usarem roupas de cor branca na sexta-feira e fios de contas no pescoço. Mas isso já foi motivo para que pessoas se afastassem do auxiliar administrativo na rua. Ele diz que nunca sofreu ataque físico e passou a ignorar ataques verbais.

“A questão é como você se impõe. Eu falo que eu não tenho que me diminuir para caber no mundo. As pessoas é que precisam abrir espaço para eu passar”, comenta.

O jovem é apenas mais um que sofre com a intolerância religiosa. A mídia tem dado visibilidade ao assunto na novela “Malhação”, na Rede Globo. Em abril, a personagem Talíssia (Luellem de Castro) decidiu que seria momento de iniciar a filha Valentina (Maria Alice Guedes) no candomblé, mas teve que enfrentar Jorge (Hugo Germano), tio da garota, que se mostrou preconceituoso com a religião. No dia, o terreiro de sua mãe Simone (Dani Ornellas) foi destruído pelos capangas de Jorge e a estudante ficou em choque.

TOLERÂNCIA

 

Apesar de tudo que enfrentam, a pregação de tolerância e de combate ao preconceito também é mais presente nessas novas gerações. A estudante Anne Caroliny Nascimento Amorim, de 16 anos, mora em Cariacica e é filha de pais umbandistas, e foi iniciada na religião desde o seu nascimento. Ela conta que o respeito entre parentes de outra religião existe, no entanto, teve que aprender a lidar com os ataques na rua.

Recentemente, ela estava na praia com o pai e a mãe conversando sobre religião e uma moça ouviu e começou a ofendê-los. “A moça disse que a gente precisava de uma igreja, deveria achar Deus, que a religião não era do bem e que nós mesmos estávamos nos destruindo”, relata.

Anne avalia que muitas pessoas não têm conhecimento e julgam. “Eu acredito que ninguém é obrigado a ter uma religião ou ir na religião do outro, mas respeitar é essencial. Para alguns eu tento explicar, mas outros, passei a ignorar”, desabafa.

ATAQUES

Marcos Vinicius Molino sofreu ataques na escola e na rua. Toda vez que falava da umbanda, objetos que representam outras religiões eram oferecidos a ele. Ele diz que tem paciência e tenta explicar o que realmente significa, só quando não tem jeito é que passa a ignorar. “Sei que é na umbanda que quero ficar, não me importo com o que dizem. Transformo a ignorância dos outros em amor”, conta.

Para o gestor de projetos Yuri Paris Fonseca, 27, o que importa é a sua visão diante da religião que escolheu, o candomblé. “Acredito que meu caminho está nessa religião. A sensação que eu sinto é de paz”, finaliza.

"O ISLÃ NÃO É SÓ RELIGIÃO, MAS UM MODO DE VIDA"

A universitária Poliana Veiga de Souza, de 23 anos, por curiosidade começou a pesquisar sobre o islã, em 2014. Dois anos depois passou a frequentar as orações na capela ecumência na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). É nesse local que seguidores do islã, em Vitória, se curvam em direção a Meca – cidade sagrada pelos muçulmanos – e oram em língua árabe.

Aluna de Direito na Ufes, ela conta que foi nessa religião que conseguiu encontrar o conforto espiritual que buscava, decidindo se converter ao islamismo em fevereiro de 2017. “O islã não é apenas uma religião, mas também um modo de vida, algo que me completa. A religião me mostrou o que precisava e me encontrei espiritualmente”, afirma.

Poliana Veiga de Sousa se converteu ao islamismo. Crédito: Ricardo Medeiros
Poliana Veiga de Sousa se converteu ao islamismo. Crédito: Ricardo Medeiros

MUDANÇA

 

Com a descoberta, chegaram as transformações no comportamento, que aconteceram naturalmente para a estudante. Ela passou a usar mais vestidos longos e calças, deixou de consumir bebida alcoólica, comer carne de porco e também passou a sentir mais empatia pelas pessoas.

Junto com a mudança também veio o preconceito. Algumas pessoas se afastaram e ela chegou até mesmo a ser agredida verbalmente e fisicamente. “Dentro de um ônibus uma mulher chegou a puxar o meu lenço. As agressões verbais são recorrentes. Finjo que não ouço, tento ignorar ao máximo porque a pessoa cansa de falar”, relata.

Ela diz que toda a mudança fortalece ainda mais sua escolha. “Eu nasci em uma religião em que não me identificava e aos 16 anos abandonei. Agora eu me encontrei e vou segui-la. Nós jovens somos o futuro da religião que, cada vez, conquista mais pessoas”, finaliza.

CANDOMBLÉ

No candomblé, os orixás são considerados deuses. As entidades oferecem energias naturais e puras, e as leituras das mensagens trazidas por elas são feitas através dos búzios.

 . Crédito: Fernando Madeira
. Crédito: Fernando Madeira

UMBANDA

Na umbanda existe um só Deus e os orixás são considerados como espíritos ancestrais que se comunicam através de guias. Os trabalhos são feitos pelo espírito ali incorporado com seus elementos rituais.

 . Crédito: Fernando Madeira
. Crédito: Fernando Madeira

ISLAMISMO

O islã é uma religião monoteísta. Segundo as narrativas islâmicas, há um único Deus, Alá. Os que seguem esta doutrina são conhecidos como muçulmanos – os que se submetem a Deus.

 . Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil
. Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil
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