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Pais abandonam lares no ES ao saber que filho terá zika

Levantamento de pesquisadora da Ufes mostra que maioria dos parceiros deixou mães

Publicado em 14/11/2018 às 21h50
 . Crédito: Divulgação | Santa Casa de Misericórdia do Pará
. Crédito: Divulgação | Santa Casa de Misericórdia do Pará

A maioria das mulheres que tiveram filhos doentes por conta do vírus da zika foi abandonada pelos parceiros. Os dados foram coletados pela a doutora em Saúde Coletiva Paula de Souza Silva Freitas que conversou com 25 das 39 mães que foram afetadas pela epidemia de zika entre os anos 2016 e 2017.

“A maior parte é preta ou parda e vive em periferias. Mais de 70% foram abandonadas pelos maridos no momento do diagnóstico ou após o nascimento da criança”, afirma.

A enfermeira e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) constatou que, desde a gestação, as mães que tiveram contato com o vírus da zika sofrem com o abandono de todas as formas, tanto por parte dos maridos quanto do poder público.

A pesquisadora explica que, diferente do que foi divulgado à época, a microcefalia é apenas uma das manifestações da Síndrome Congênita do Zika Vírus, como hoje é conhecida a doença. “Hoje a gente sabe que o bebê pode ter muitos outros problemas, como atraso de fala, surdez, perda de visão, atraso cognitivo ou até problemas motores”, esclarece.

Entrevistas realizadas com essas mães revelaram uma situação de muita vulnerabilidade, e até relatos de violência doméstica. “Alguns abandonaram assim que descobriram que o filho tinha a doença, outros ficaram, mas com violência no lar”, diz.

Ela esclarece ainda que as crianças doentes têm algumas particularidades e exigem mais dos pais. “Todos os bebês dão trabalho e exigem uma relação harmoniosa entre casal. Mas o bebê que tem a síndrome tem algumas diferenças. Ele que chora o tempo inteiro. Até isso ser descoberto, até as medicações serem ajustadas, ele chora 24 horas por dia. Aí o marido vai embora”, afirma.

Rafaela Moreira

Não tenho como trabalhar, não tenho como deixar ela. Espero que ela se desenvolva

DEMISSÃO

Além de desamparadas pelos parceiros, a maioria das mulheres foi demitida ou forçada a deixar o trabalho por conta dos cuidados constantes que os filhos exigem. Metade delas ainda não recebeu o benefício de prestação continuada, oferecido pelo governo federal. “Estudos mostram que essas famílias são empurradas para a situação de extrema pobreza por conta desse bebê doente”, diz.

Ainda de acordo com a pesquisa, por falta de uma rede multidisciplinar para cuidar dessas crianças, muito do tratamento delas é feito em Apaes ou Pestalozzis. Para isso, essas mulheres acabam pagando aluguéis mais caros para poder morar mais próximo dessas instituições.

No entanto, a pesquisadora afirma que apenas esse tratamento não é suficiente. “As crianças precisam de estimulação precoce, tratamento intensivo e não três idas à Apae por semana. Muitas mães saíram do Estado em busca de tratamento mais completo em São Paulo ou Belo Horizonte”, diz.

GESTORES

A pesquisa de doutorado da professora contou com a participação de mais cinco pesquisadores. Parte dos achados será publicada em forma de artigo em na revista da Organização Panamericana de Saúde Pública.

O estudo analisou também as perspectivas dos gestores públicos de saúde do Estado quanto à crise do vírus da zika.

Paula relata que eles salientaram que a forma que combatemos o mosquito Aedes Aegypti – que transmite zika, dengue e outras doenças – é ineficiente e cara. “Fumacê e larvicida não resolvem o problema da população. O que resolveria é coleta de lixo, moradia adequada, educação. Isso resolveria para não ter o mosquito e não ficar tentando matá-lo de forma química. A gente faz a mesma coisa há 60 anos e sabe que isso não funciona mais”, afirmou.

"PASSEI A VIVER PARA ELA", DIZ MÃE

Rafaela e a filha, Valentina, 2, que tem a síndrome. Crédito: Marcelo Prest
Rafaela e a filha, Valentina, 2, que tem a síndrome. Crédito: Marcelo Prest

Rafaela Moreira, 23 anos, descobriu ainda na gestação que teria uma filha especial por conta do vírus da zika. Desde então, ela conta que se dedica exclusivamente a Valentina, que está com 2 anos. “Como mãe de uma criança especial, a gente não pensa na gente, pensa nos filhos. Desde que eu descobri que ela tinha a síndrome, parei de viver para mim e passei a viver para ela. Ela conseguindo se desenvolver, eu consigo ‘andar’ também”, diz.

Diferentemente da maioria das mães que têm crianças com a síndrome congênita do zika vírus, Rafaela tem o apoio da família e do marido na criação da menina. No entanto, relata que percebe o preconceito de outras pessoas. “Desde que ela nasceu tudo mudou, até o olhar das pessoas em volta. A gente percebe um olhar diferente ao andar nas ruas”, afirma.

A família mora no bairro São Diogo 3, na Serra, e precisa se deslocar com a criança várias vezes por semana até Laranjeiras para fazer fisioterapia e outros procedimentos na Apae.

TRABALHO

Rafaela não trabalhava quando teve a filha e, agora, com os cuidados especiais que a menina exige, não tem perspectiva para arrumar emprego. Como o marido dela também está desempregado, os dois vivem com a ajuda dos pais e do benefício continuado fornecido pela governo federal, que é de um salário mínimo, desde agosto do ano passado.

“Ela precisa de muitos cuidados. Então, não tenho como trabalhar, não tenho como deixar ela. Espero que ela possa ser mais independente um dia e, quem sabe, eu possa pensar em trabalhar”, conta.

No momento, a maior dificuldade da família é a falta de uma cadeira de rodas. “Até para dar banho está complicado pois ela não cabe na banheira mais. Para sair com ela preciso sempre da minha mãe comigo. Já demos entrada no pedido, mas o processo para conseguir a cadeira está atrasado”, diz.

Para o futuro da menina, a mãe é esperançosa. “Espero que ela consiga se desenvolver, falar, andar sozinha. Mas a gente deixa tudo no tempo de Deus”, conclui.

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