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'A angústia é grande entre os PMs', diz médico

"A angústia é grande entre os PMs", diz médico

Médico relata os atendimentos prestados aos militares após o desgaste vivido durante a greve do ano passado

Publicado em 1 de fevereiro de 2018 às 01:33

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A tensão dos dias de greve desencadeou uma série de problemas de saúde e levou policiais a buscar tratamento fora dos limites do quartel. Entre os profissionais que realizam o atendimento de militares, o psiquiatra Bernardo Santos Carmo diz que as punições estão piorando o quadro de saúde desses policiais, que vivem sob o estresse da demissão iminente.

Qual a situação entre os PMs?

Não tem ninguém bem, não. Se alguém disser que está, já é um problema. Não tem como uma pessoa ficar bem sendo apontada na rua, alguns até apedrejados em ocorrência. O cotidiano deles é terrível e, quando chegam a me procurar, é porque está insuportável. Atendo hoje 150 policiais por mês, um número expressivo. Estão angustiados e muito irritados.

Como o senhor iniciou o trabalho de atendimento aos militares? 

Após duas semanas do início do movimento, me chamaram para prestar atendimento na Associação de Cabos e Soldados (ACS). Mas, na entidade, só comecei mesmo em junho. Até lá, atendia nas clínicas. Em um dia, recebi 34 militares, no outro 123. Houve um dia com mais de 200, e tivemos que fechar a clínica porque não havia mais espaço para acomodar e não iria conseguir realizar todos os atendimentos.

Qual era a condição desses policiais? 

Uma angústia existencial grande e a irritabilidade nessa ocasião era de uma magnitude tremenda. Mas isso não aconteceu de um dia para o outro.

E como era feito o atendimento?

Tinha que dar prioridade a sintomas de determinadas pessoas. Alguns pediam ajuda em um grau de desespero que não podiam ser negligenciados. Houve um grupo que chegou à clínica e não conseguia nem ficar em pé. Estavam aquartelados havia 10 dias, exaustos, em uma situação degradante e estado de tensão permanente. O clima de paranoia também era grande.

Do que mais se queixavam?

Era uma demanda grande, mas não ficou limitada ao período da paralisação. O movimento levou à tona questões existenciais: “o que sou perante a sociedade”, “para que sirvo”? Eles não se sentem valorizados e essa política de perseguição só piora o quadro. Além de suicídio, querem mais o quê?

Mas os policiais têm regras a cumprir.

Sim, mas por que condená-los quase que, literalmente, à morte? Por que tirar o prato de comida de pais de família? A solução razoável não é punição nesse grau.

ANÁLISE

PMS não ficaram doentes de um dia para o outro

 Por Dayse Miranda - Coordenadora de grupo de estudo e pesquisa em suicídio e prevenção na UERJ 

“A instituição militar tem suas peculiaridades, tem sua trajetória institucional diferente, mas tem também elementos comuns, como a condição de trabalho. E o que é comum? A falta de política pública eficaz, de compromisso com a saúde e com a valorização do profissional militar.

Fizemos um estudo com todas as polícias militares, aplicando um questionário nacional, para entender o comportamento suicida. Infelizmente, os problemas são similares, embora em Estados diferentes.

Será possível ouvir, de um Estado a outro, os policiais reclamando que não têm condições de trabalho, não têm reconhecimento interno e, na hierarquia militar (em alguns lugares mais que em outros), a relação de superiores e subordinados é baseada em rigidez e autoritarismo grandes. Um relacionamento humanizado faz parte da política de valorização.

Policiais também fazem bico em sua hora de folga e desconhecem a necessidade do descanso para a saúde e, no Espírito Santo, não é diferente. Por aí, os policiais ainda se sentem altamente desvalorizados e o comando não entendia, pelo menos até recentemente, a saúde como política indispensável.

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A greve emergiu desse cenário. Policiais quebraram a hierarquia militar mas, do ponto de vista da humanidade, tentavam garantir a sobrevivência. Tudo o que aconteceu é reflexo de negligência em segurança pública. Os policiais não ficaram doentes da noite para o dia.”

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