Anne Jardim, de 24 anos, tem um filho de 2 anos e volta ao trabalho com jornada reduzida
Anne Jardim, de 24 anos, tem um filho de 2 anos e volta ao trabalho com jornada reduzida. Crédito: Vitor Jubini

Ser mãe e profissional é ainda mais desafiador na pandemia

Trabalhar, dar conta das tarefas domésticas e cuidar dos filhos. A extensa jornada sempre fez parte da rotina de muitas mulheres que são profissionais e donas de casa. Mas a situação ficou mais difícil com o coronavírus

Publicado em 16/08/2020 às 21h02
Atualizado em 16/08/2020 às 21h04

Trabalhar, dar conta das tarefas domésticas e cuidar dos filhos. A dupla ou mesmo tripla jornada sempre fez parte da rotina de muitas mulheres que são profissionais e donas de casa. No entanto, a pandemia do novo coronavírus mostrou que, para elas, ter filho e um emprego, ao mesmo tempo, é ainda mais desafiador.

Com o isolamento social, o escritório foi transferido para casa, as escolas ficaram sem funcionar e o que era feito no final do dia e nos finais de semanas ficou concentrado em um só lugar. Segundo especialistas, as mães devem ser as mais prejudicadas no mercado de trabalho, inclusive com a possibilidade de ter que se desligar da empresa, por não terem com quem deixar as crianças.

Na avaliação de Cynthia Molina, diretora de diversidade da Associação Brasileira de Recursos Humanos, seccional Espírito Santo (ABRH-ES),  a pandemia elevou ainda mais a disparidade entre homens e mulheres na sociedade e no mercado de trabalho, pois atingiu diretamente a mãe que é profissional.

MÃES, PROFISSIONAIS E AGORA PROFESSORAS DOS FILHOS

De acordo com relatos da executiva, com a retomada das atividades presenciais, algumas podem ter que sair do trabalho para cuidar dos filhos pequenos, enquanto outras podem ter que trabalhar com jornada diferenciada para dar segurança à família.

“Durante a quarentena, elas tiveram que assumir o papel que era dos professores, organizando toda a logística entre as atividades da criança e obrigações do trabalho. Recebi relatos de algumas mães que trabalhavam de madrugada, quando todos estavam dormindo, para dar conta de suas entregas. Com toda essa dificuldade, algumas delas chegaram a pedir demissão por não conseguirem dar conta de tudo. O problema é que, mesmo com acordo familiar, a volta para o mercado de trabalho fica ainda mais difícil se elas forem esperar os filhos crescerem”, observa Cynthia.

21,4 horas

Tempo que as mulheres gastam com as atividades domésticos por semana

Antes mesmo do novo coronavírus, as mulheres dedicavam mais tempo que os homens aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas. Em 2019, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou que a dedicação feminina era de 21,4 horas semanais, ante as 11 horas do público masculino. Conforme o estudo, de 2016 para 2019, essa diferença aumentou de 9,9 para 10,4 horas semanais.

A pesquisa ainda concluiu que 146,7 milhões de pessoas, com 14 anos ou mais de idade, realizaram afazeres domésticos, o equivalente a 85,7% desta população. O IBGE concluiu que o percentual de mulheres que realizam essas atividades (92,1%) ainda é bem mais alto que o dos homens (78,6%). Para se ter uma ideia, em 2018, esses indicadores eram 85,6% (total), 92,2% (mulheres) e 78,2% (homens), com variação de 0,4 pontos percentuais na taxa masculina.

Ainda de acordo com a Pnad, entre as sete atividades que integram os afazeres domésticos, a única em que a taxa de realização masculina supera a feminina é a de pequenos reparos no domicílio: 58,1% para homens e 30,6% para mulheres.

Cynthia Molina

Associação Brasileira de Recursos Humanos, seccional Espírito Santo (ABRH-ES)

"O preconceito contra as mulheres no mercado de trabalho ainda é grande. Por incrível que pareça, ainda perguntam, durante uma entrevista, se elas têm filhos ou se desejam ter. Acredito que, a longo prazo, essa situação será revertida. Aquelas organizações com diálogos mais abertos, com certa flexibilidade, demonstram compaixão para acolher problemas como cuidados com os filhos que ainda não voltaram para escola"

A diretora reforça a necessidade de programas de diversidade estruturados dentro das organizações para que problemas como o cuidado com as crianças sejam encarados de forma mais leve.

A vendedora Fabíola Torres Nascimento, de 37 anos, é mãe do Murilo, de apenas 4 anos. Ela passou dois meses trabalhando em home office e, há 30 dias, voltou a trabalhar presencialmente em uma distribuidora de autopeças. Ela ficou viúva quando o menino tinha cinco meses e não tem com quem dividir as tarefas de cuidado com o filho. Com o retorno ao trabalho presencial, Fabíola se viu diante de um impasse.

“Trabalhar em casa foi um transtorno, pois meu filho demandava a minha atenção o tempo todo. Logo quando voltei a trabalhar presencialmente, deixava meu filho com a minha tia, mas não deu muito certo. Consegui um cuidadora de meio período, mas ela também não pode ficar com ele. Antes da pandemia, ele ficava na creche e eu ia trabalhar tranquila. Como as atividades escolares ainda não retornaram, agora consegui uma moça para ficar com o Murilo em tempo integral”, relata.

Fabíola sentiu que, durante o período em home office, não estava produzindo o quanto deveria, pois, perdia o foco toda vez que o garoto exigia a sua atenção. Ela torcia para que as atividades voltassem ao normal.

“Moro em cima da casa da minha tia que, durante a quarentena, cuidava dele para que eu pudesse trabalhar. Entretanto, ele queria ficar comigo o tempo todo. A rotina era muito louca. É muito cansativo ter que dar conta das atividades profissionais, ajeitar a casa e cuidar do meu filho pequeno”, ressalta.

Por quase quatro meses, a recepcionista da Azen Academia, Anne Jardim, de 24 anos, ficou com o contrato suspenso porque o local onde trabalha ficou proibido de funcionar, conforme decreto do governo estadual. Durante esse período, ela aproveitou para cuidar do filho de 2 anos.

Nesta segunda-feira (17), as atividades serão retomadas, porém ela voltará para o trabalho com a carga horária reduzida. Antes da crise, Anne trabalhava das 5h30 às 14h e, com o retorno, passará a trabalhar das 6h às 12h.

Para Anne, a decisão da academia vai ajudá-la muito. “Não vou precisar acordar tão cedo porque, antes da mudança de horário, precisava sair de casa às 4h30. A creche me ajudava bastante neste ponto e agora vou precisar deixá-lo com a minha sogra. Mesmo que as escolas voltem, ele só vai retornar quando houver segurança”, pondera Anne. Além de trabalhar meio período, a jovem também conta com a ajuda do marido nos cuidados com o menino.

A administradora Adriana de Jesus Notaroberto, de 35 anos, também tem um filho de 2 anos. Ela é prestadora de serviços na área de gestão administrativo-financeira e antes da pandemia fazia trabalho para duas empresas.

Adriana de Jesus Notaroberto

Administradora

"Minha mãe ficava com o meu filho enquanto eu e meu marido precisávamos trabalhar. No entanto, ela ficou 30 dias em quarentena e passei a não ter mais essa ajuda. Da noite para o dia, precisei organizar toda a rotina para conseguir atender os clientes, trabalhar em casa e dar atenção ao menino, porque a criança me vê e não entende que preciso trabalhar, solicitando a minha atenção o tempo todo"

Para conseguir desenvolver as atividades profissionais com qualidade, ela adaptou a internet, trocou o computador, entre outras melhorias. “O primeiro mês foi muito difícil, porque tinha todo o estresse dessa nova rotina. Meu filho também sofreu muito com isso. No mês seguinte, as coisas foram melhorando e nós nos adaptamos. Agora, minha mãe voltou a ficar com ele durante o dia e assim consigo desenvolver meus projetos”, afirma.

O marido de Adriana trabalhou em casa por apenas um mês, mas precisou retornar à atividade presencial logo no segundo mês de pandemia.

“Já aconteceu de eu estar em uma reunião e meu filho aparecer chorando. Quando isso acontece, a solução é deixar no mudo para não atrapalhar. Aproveito quando ele está dormindo para fazer as tarefas que precisam de uma concentração maior, e as operacionais deixo para fazer quando ele está acordado. Para dar conta dos prazos de entrega, viro a noite trabalhando”, admite.

A empresária Cibele Rigotti Calenzani de Lacerda, de 41 anos, é mãe de três filhos: Ana Carolina (19), João Pedro (15) e Miguel (7). Ela e o marido são sócios da Bakertilly, uma empresa que atua no ramo da contabilidade. Os dois trabalham em casa, mas ela precisa ir para o escritório eventualmente. Dos 40 funcionários, oito estão em trabalho presencial e os demais em home office.

Cibele Rigotti Calenzani de Lacerda

Empresária

"Todos os membros da família têm uma atividade em casa. Meu marido fica mais tempo em casa e consegue supervisionar as crianças. Assim, consigo ir para o escritório mais vezes na semana. Deixo a agenda do Miguel organizada e os dois maiores dão o apoio necessário para ele"

POTENCIAL

Para a psicóloga Lana Francischetto, não é de hoje que o mercado de trabalho percebe o potencial das mulheres em todos os setores da economia, e a capacidade que têm de usarem a seu favor as adversidades. Segundo ela, neste momento de retomada, o perfil feminino certamente será de grande valia para as empresas.

Para ela, vale a pena uma flexibilização, para que as mulheres não percam o espaço, pois certamente todos sairão ganhando com essa medida.

Lana Francischetto

Psicóloga

"É importante que as famílias estejam engajadas na missão de ajudar uns aos outros, dividindo tarefas e reajustando funções, para que os prejuízos dessa crise sanitária, que já foram muitos, não sejam tão desiguais e penalizem mais as mulheres, provocando um retrocesso no que elas conquistaram ao longo das últimas décadas. Isso é fundamental para a sociedade e para o bem-estar delas e das famílias"

Segundo a psicóloga Rubia Passamai Navarro, a força, o perfil polivalente e a capacidade de se adaptar e de se reinventar da mulher estão mais em evidência, e, justamente por desempenharem várias funções, recai sobre elas o peso de muitas consequências provocadas pela pandemia. Ela avalia que as que estão no mercado de trabalho se viram diante da necessidade de, estando em casa em tempo integral, exercerem os papéis de profissional, dona de casa, mãe e professora, para citar alguns.

“Toda essa sobrecarga é somada, ainda, às preocupações com a saúde e o bem-estar da família e às incertezas sobre o futuro profissional, em função do abalo econômico provocado pela crise sanitária. Hoje, em muitas casas, o salário da mulher é fundamental para a renda da família. É preciso ter um controle para enfrentar isso sem que a saúde mental fique abalada”, ressalta.

Rúbia afirma que a família também precisa montar uma rede de apoio, para reduzir essa sobrecarga e para permitir que as mulheres continuem desempenhando suas profissões, porque isso, além de ser importante para a saúde financeira da família, é muito importante para o bem-estar e para a autoestima delas.

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