Nancy e Francisco se revezam com os filhos e a casa para conseguir trabalhar
Nancy e Francisco se revezam com os filhos e a casa para conseguir trabalhar. Crédito: Ricardo Medeiros

Missão dupla: pais voltam ao trabalho sem ter com quem deixar filhos

Após se adaptar ao home office por causa da pandemia, quem tem criança começa novamente a ter que mudar a organização do dia a dia para atender ao chamado das corporações que estão reduzindo as atividades remotas

Publicado em 15/08/2020 às 05h01
Atualizado em 15/08/2020 às 20h19

De repente, tudo mudou nas famílias e nos empregos. Os pais que saíam para trabalhar e deixavam seus filhos na escola ou na creche precisaram aprender a conviver com as crianças e a cuidar da casa ao mesmo tempo em que mantinham suas atividades profissionais. Essas transformações ocorreram por causa da pandemia do novo coronavírus, que obrigou as instituições de ensino a fecharem e levou uma massa de trabalhadores para o home office.

Após conseguir adaptar a rotina a esse cenário, quem tem filhos começa novamente a ter que mudar a organização do dia a dia para atender ao chamado das corporações que estão voltando com o trabalho presencial. A modificação, no entanto, tem sido ainda mais desafiadora.

Com as instituições de ensino ainda fechadas e com apenas uma previsão de retorno gradual em setembro, muitos pais estão tendo que revezar e até mudar o horário de trabalho para que haja alguém em casa disponível para cuidar dos pequenos. Se os dois trabalhavam de manhã, pelo menos um deles fica em casa, indo para o serviço apenas depois que o outro voltar.

E diferentemente de outras situações, aquela ajuda que vovôs e vovós sempre davam, ao cuidar dos netos enquanto os pais das crianças estavam trabalhando, deixou de ser uma opção, já que os idosos são grupo de risco da Covid-19.

Algumas empresas estão mantendo as flexibilizações e passam a mensagem de que entendem a necessidade dos empregados. Reduzem ou trocam a jornada de trabalho para não abrir mão do profissional. No entanto, nem todas as companhias têm adotado medidas semelhantes, o que pode ter um impacto principalmente na vida profissional das mulheres.

DIVISÃO DE TAREFAS

Desde o início da pandemia, o cenário complexo provocou reflexões sobre como as famílias precisam se organizar para dividir melhor as tarefas domésticas e ainda dar conta das questões profissionais.

Em alguns lares, enquanto o pai auxilia nas atividades escolares, a mãe aproveita para fazer o almoço. E na hora de cumprir as obrigações profissionais, a solução encontrada entre marido e mulher foi a parceria: uma trabalha e outro dá atenção à criança e vice-versa.

“No começo, tudo foi meio que uma loucura. O grande desafio foi fazer meus filhos entenderem que nós não estávamos em casa de férias. Estabelecemos uma rotina de trabalho e organização com as atividades escolares, eu com um filho e meu marido com o outro. A empresa onde trabalho determinou uma jornada flexível, com dias alternados de trabalho presencial. Quando necessário,  vou para a organização e o meu marido, Francisco, fica em casa com as crianças”, conta a supervisora administrativa da Sankhya, empresa que atua no ramo da tecnologia, Nancy Lúcia Devincei Sagóvia Russo, de 41 anos.

O casal veio de São Paulo há quase dois anos para trabalhar no Estado e eles precisam se virar sozinhos para dar conta de tudo. Eles têm dois filhos, Tiago (8) e Rafaela (6), e, mesmo antes da pandemia, era Francisco quem ficava com as crianças pela manhã, até por já ter uma rotina de trabalho mais flexível.

Nancy comenta que trabalhar em casa e ter que cuidar de dois filhos não é tarefa fácil e que, algumas vezes, aconteceu de ela estar em reunião com a equipe e uma das crianças aparecer gritando.

“Neste momento, todo mundo está mais compreensivo quanto a esse tipo de situação”, comenta. Para ela, o casal precisa se dividir nas tarefas domésticas, porque não são só as crianças, ainda tem o preparo do almoço, os cuidados com a casa, entre outras atividades.

“Todo mundo pensa só no lado dos adultos, mas as crianças também precisam de atenção, de ter contato com a professora e os coleguinhas. Para nós e para eles, o momento está sendo de muito aprendizado. Se elas se adaptam, porque a gente não vai se adaptar também? Meu marido tem bastante flexibilidade no horário de trabalho e isso me ajuda muito”, analisa.

Arlys Souza e a esposa, Amanda, se revezam nos cuidados com a pequena Alana. Crédito: Acervo pessoal/ Arlys Souza
Arlys Souza e a esposa, Amanda, se revezam nos cuidados com a pequena Alana. Crédito: Acervo pessoal/ Arlys Souza

O designer gráfico do setor de marketing da loteadora Soma Urbanismo, de São Mateus, Arlys Souza, 35 anos, está em home office desde o início da pandemia. Aos poucos, a empresa vem retomando as atividades presenciais, mas ele foi autorizado a permanecer em casa para ajudar a cuidar da filha Alana, de 2 anos. A esposa, Amanda, é contadora e já trabalhava em home office antes da pandemia.

Arlys Souza

Designer gráfico

"As equipes já voltaram para empresa, porém, para casos como o meu, com a falta de creche e sem ter com quem deixar a criança, ficou determinada a permanência em casa por tempo indeterminado. Na loteadora, fazemos reuniões semanais onde são definidas as tarefas e os prazos de entrega. Assim, fica mais fácil manter a rotina de trabalho mesmo em casa. Amanda e eu estabelecemos um revezamento de cuidado com a Alana e cada um consegue desempenhar suas obrigações profissionais sem prejuízos"

Na opinião da diretora da Lince Psicologia & Gestão, Fernanda Carvalho, as empresas foram bastante solidárias com seus funcionários durante o período de isolamento social, principalmente quanto à importância do cuidado com a saúde e de suas famílias. Segundo ela, essas iniciativas devem permanecer mesmo com o fim do isolamento social.

“Este é um momento em que todo mundo precisa de todo mundo. As organizações souberam lidar com as fragilidades das pessoas e isso se repete agora com a retomada das atividades presenciais. Há uma grande sensibilidade e solidariedade dos dois lados e não uma guerra de interesses diferentes”, opina.

Fernanda é mãe de um menino de 2 anos e descreve a relação entre trabalho e casa como um grande desafio. No início da quarentena, os momentos foram de muita tensão.

Fernanda Carvalho

Diretora da  Lince Psicologia & Gestão

"No início, não sabíamos muito bem como dividir as tarefas e o que priorizar na nova rotina. Isso foi fonte de muito estresse, ansiedade e desorganização. Depois da fase da adaptação, veio a organização. A rede de apoio em casa é muito importante seja qual for a situação. A ajuda dentro de casa, entre marido e mulher, ensina a termos tolerância um com o outro"

A sócia e assessora da Golden Investimentos, Eliana Andrade, também tem dois filhos, um rapaz de 18 anos e uma menina de 7. Além de dividir com o marido as obrigações domésticas, para dar conta da carreira, o adolescente também ganhou novas responsabilidades. A corretora onde ela trabalha já permitia flexibilidade de horário e trabalho em casa quando necessário, mesmo antes da pandemia.

O modelo de trabalho vai permanecer com a retomada das atividades presenciais, mas ela ainda não definiu quando vai retornar para o escritório e, por enquanto, continua em home office.

“No início foi bem difícil, pois, além estar em casa com meus filhos, ainda estava sem empregada, que precisou ficar em isolamento. Meu marido, Marcos Andrade, também ficou em home office, o que ajudou bastante na divisão das tarefas. Com o tempo fomos nos adaptando e um foi ajudando o outro. Minha rotina de trabalho não foi afetada durante a pandemia, mas, para isso, precisei combinar com a família a divisão das tarefas. Meu marido cuidava das aulas da minha filha pequena e eu do almoço, enquanto que meu filho adolescente fica responsável pela louça e o lixo. Essa divisão funcionou muito bem e será mantida após a quarentena”, enumera.

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