Repórter de Economia / [email protected]
Publicado em 13 de maio de 2021 às 14:32
O país enfrenta hoje a maior crise hidrológica dos últimos 91 anos, segundo avaliação do Ministério de Minas e Energia (MME). Os reservatórios das hidrelétricas terminaram o período de chuvas em níveis baixíssimos. Diante da situação crítica, especialistas alertam para a necessidade de adotar medidas extraordinárias, que devem tornar a conta de energia ainda mais cara. E uma das possibilidades é a bandeira tarifária fique em nível vermelho até o final do ano.>
Esse sistema é usado para indicar, nas mesmas cores do semáforo, se as condições de energia estão favoráveis para a geração (verde); se há uma produção moderada (amarelo); se há um custo maior (vermelha 1); ou se o patamar de geração está ainda mais caro (vermelha 2).>
O peso da conta de energia deve ficar ainda pior por conta dos reajustes que são aplicados pelas operadoras todo o ano e que também levam em consideração o avanço nos gastos para transmissão da eletricidade.>
ENTENDA AS BANDEIRAS TARIFÁRIAS
♦ Verde: significa que há boas condições na geração de energia elétrica. Por causa disso, não existe cobrança extra na tarifa.
♦ Amarela: aponta um sinal de alerta na geração de energia, e há um adicional de R$ 1,34 para cada 100 kWh consumidos
♦ ,Vermelha: indica condições ruins de geração de energia elétrica, o que implica em tarifas mais caras. São dois patamares, que variam conforme o risco. No patamar 1, são acrescentados R$ 4,17 para cada 100 kWh consumidos. No patamar 2, o custo adicional é de R$ 6,24 para cada 100 kWh.
Entre setembro do ano passado a abril de 2021, o Brasil registrou o menor volume histórico de água nas represas das usinas hidrelétricas, responsáveis pela maior parte da energia gerada no país, ainda segundo dados do MME. O baixo volume de água está, principalmente nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste, responsáveis por grande parte da capacidade de armazenamento de água em território brasileiro.>
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O cenário de estiagem está em boa parte do país, embora nos últimos o Espírito Santo tenha tido momentos de chuva, o que não é suficiente para atender ao sistema elétrico, que é interligado.>
Na semana passada, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) autorizou o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a utilizar todos os recursos disponíveis para poupar água nos reservatórios das hidrelétricas, "sem limitação nos montantes e preços associados".>
A entidade, ligada ao governo federal, autorizou o acionamento das usinas termelétricas e também a importação de energia da Argentina e do Uruguai e a importação de gás natural da Bolívia, de modo a driblar a seca e evitar racionamento de energia.>
No Palácio do Planalto, é crescente a preocupação com o problema, que surge em meio à crise sanitária já enfrentada pelo país. Nesta segunda-feira (10), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) chegou a dizer a apoiadores que a situação vai dar "dor de cabeça". >
"Só avisando, a maior crise que se tem notícia hoje. Demos mais um azar, né? E a chuva geralmente (cai) até março, agora já está na fase que não tem chuva.">
O ponto foi reforçado pelo presidente da Associação Brasileira de Companhias de Energia (ABCE), Alexei Vivan, que explica que o período em que usualmente ocorrem os maiores níveis de precipitação não atendeu às expectativas, e muitos reservatórios, que já operavam com capacidade abaixo do ideal, devem enfrentar problemas mais sérios nos próximos meses, quando há menor incidência de chuva. >
“E não há muitas saídas no momento. A solução adotada é a mesma que vem sendo adotada desde 2002, que é a utilização das térmicas. Mas tanto a falta de água nos reservatórios, quanto a adoção dessas medidas excepcionais implicam em aumento de custos para o consumidor, porque embora seja uma solução para o problema, a geração de energia termelétrica gera despesas mais elevadas do que a geração hidrelétrica.”>
Como o custo de produção de energia encarece, o aumento acaba sendo diluído na conta de energia enviada ao consumidor. Desde 2015, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) antecipa parte dos custos das térmicas por meio da cobrança mensal de bandeiras tarifárias sobre a conta de luz.>
São três cores de bandeiras, que indicam se a energia custará mais ou menos em função das condições de geração. Na bandeira verde, não há custos adicionais. Na bandeira amarela, há um adicional de R$ 1,34 para cada 100 kWh consumidos. Além dessas, existe a bandeira vermelha, que tem dois patamares.>
Antecipando a previsão de novas baixas no sistema Sudeste/Centro-Oeste, principalmente, a agência acionou já no início deste mês a bandeira vermelha nível 1, que acrescenta R$ 4,17 para cada 100 kWh consumidos.>
“Acredito que há boas chances de permaneceremos na tarifa vermelha pelo resto do ano. Passamos pelo período normalmente úmido, com baixos níveis de chuva, e agora entra o período em que a precipitação é menor, o que aumenta a dependência das térmica”, frisa Vivan.>
Especialistas consideram ainda que há grandes chances de, nos próximos meses, a agência passar ao nível 2 da bandeira, elevando o custo adicional a R$ 6,24 para cada 100 kWh consumidos. O professor da unidade de Engenharia da Faesa, Leonardo Ribas, explica que não apenas a utilização das térmicas, mas também tipo de combustível utilizado pelas usinas afeta os preços.>
“Se o nível de água dos reservatórios continuar baixo, podemos ir para o patamar dois da bandeira vermelha. Isso ocorre porque, mesmo quando é preciso acionar as térmicas, busca-se uma operação econômica, tentando utilizar as alternativas com combustíveis mais baratos. Mas nem sempre é o bastante e quando as termelétricas a diesel são ligadas, os preços tendem a subir ainda mais, então para o consumidor, que já lida diariamente com uma situação de crise, o prejuízo é ainda maior.”>
O professor da área de Eletrotécnica do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) - Campus São Mateus, Adriano Nardoto, observa que a utilização das térmicas vem sendo adotada pelo país como saída padrão ao desabastecimento desde 2002, quando o país passou por uma série de apagões que levaram ao racionamento de energia.>
A medida, embora eficaz, tem maior impacto financeiro e ambiental. Nesse sentido, uma alternativa que desponta no horizonte é a utilização de energias renováveis, como eólica e solar. Mas ele frisa que o investimento ainda é baixo, e é uma dificuldade que o país ainda precisa superar.>
“É algo que têm chegado com muita força nas residências, mas isso é algo recente. Não resolve o problema de agora. Tampouco é o suficiente para impedir a utilização das térmicas, que é a alternativa que se usa quando já não há para onde correr. Investir em energias renováveis, aliviaria a pressão sobre as hidrelétricas, e teríamos capacidade de abastecimento por mais tempo.”>
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