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Preço do imóvel novo no ES deve subir puxado pelo material de construção

Setor que mais criou empregos no ES em 2020, construção civil tem visto o preço de insumos como aço e cimento disparar. Alta no custo de produção deve se traduzir em aumento nos preços de imóveis novos

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 25/03/2021 às 02h00
Atualizado em 25/03/2021 às 02h01
Trabalhadores da construção civil
Imóveis populares e obras públicas devem ser os mais afetados. Crédito: Jcomp/ Freepik

A alta do preço do aço e de outros insumos utilizados na construção civil têm atrapalhado os planos do setor, que vinha se destacando nos últimos meses do ano passado no número de contratações e com anúncios de novos lançamentos imobiliários. O segmento foi apontado como o possível “motor” de uma retomada da economia do Espírito Santo, profundamente abalada pela crise do coronavírus.

Segundo o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), calculado e divulgado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), houve alta de quase 20% no preço do material de construção em 2020. A tendência dessa inflação continua neste ano. Em fevereiro, o custo com materiais e equipamentos cresceu 4,38%, o maior aumento mensal registrado desde novembro de 2002 (4,41%).

O maior problema tem sido com o fornecimento e preço do aço.  Levantamento recente realizado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) com construtoras de todo o país para verificar a situação apontou que em 84% delas há desabastecimento de aço, que com isso está custando mais. A CBIC propôs ao governo reduzir o imposto de importação do aço.

Além do aço, o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Espírito Santo (Sinduscon), Paulo Baraona, cita os derivados de plástico (como tubulações, por exemplo), o cimento e os materiais cerâmicos como os mais afetados. Contudo, ele afirma que, em maior ou menor grau, todos os produtos encareceram.

Fora as consequências mais amplas para a economia, como a elevação de indexadores econômicos como o IGP-M (conhecido como a inflação do aluguel), o movimento de alta nos preços afeta profundamente o setor que, em 2020 foi responsável pela criação de mais de 5 mil vagas de emprego no Estado. O resultado sustentou o saldo positivo de empregos formais no Espírito Santo no ano.

Para o setor imobiliário, esse aumento traz consequências porque faz o custo de produção dos apartamentos subirem e, com isso, certamente haverão aumentos nos preços de alguns imóveis. Baraona ainda destaca que, para a área industrial (construção civil para indústria e obras públicas), o encarecimento dos insumos traz desequilíbrio dos contratos e gera paralisação de obras.

O presidente do Sinduscon relata que, além de caros, os materiais têm demorado mais para chegar. Ele explica que, como a indústria vinha operando abaixo da capacidade até poucos meses atrás, houve um descompasso entre os pedidos e a capacidade de produção, o que tem levado a demora de até 120 dias na entrega dos pedidos.

“Essas questões estão trazendo uma sinergia ruim num período em que a construção civil estava começando a ter um início de recuperação”, diz.

DÓLAR E DEMANDA EM ALTA FAZEM SUBIR PREÇO DO AÇO

Segundo dados da CBIC, o vergalhão de aço, muito utilizado pelo setor, teve alta de 34% entre janeiro do ano passado e janeiro deste ano.

O Instituto Aço Brasil, que representa as siderúrgicas, argumenta que há, atualmente, um boom no preço de commodities que repercute nos demais elos da cadeia de produção. No caso da indústria do aço, quase todos os insumos e matérias-primas, em especial o minério de ferro e a sucata, tiveram forte elevação de preços, com impacto nos custos de produção. De acordo com a entidade, este fenômeno ocorre no mundo inteiro.

Em comunicado, a Aço Brasil aponta que, em abril do ano passado, vários pedidos de compra foram cancelados por seus principais clientes na construção civil e nos setores automotivo e de máquinas e equipamentos, que representam 82,2% do consumo de aço no país. “A siderurgia brasileira, operando naquele momento com 45% de sua capacidade instalada, foi obrigada a abafar e desligar vários equipamentos, arcando com pesados prejuízos”, diz o texto.

Atualmente, porém, a entidade diz que o setor alcançou o nível de produção desde janeiro de 2019 e que 70% do material tem sido vendido ao mercado interno.

“Não existe redução de oferta ou desabastecimento de produtos de aço no mercado interno por parte das usinas produtoras de aço, associadas ao Aço Brasil. Acreditamos que eventuais e pontuais problemas possam estar relacionados à reposição de estoques de algumas empresas de setores consumidores que, devido ao seu porte e escala, adquirem produtos siderúrgicos na rede de distribuição”, diz o texto.

IMPACTO NO BOLSO DO COMPRADOR

Quem pensa em comprar imóveis em breve ou adquiriu uma unidade na planta pode ser impactado diretamente pela alta dos preços dos insumos da construção civil.

Isso ocorre porque os contratos são indexados pelo Custo Unitário Básico (CUB) ou pelo INCC. O primeiro, mais usado nos contratos firmados no Espírito Santo, teve alta de mais de 9% em 2020. Já o segundo, registrou incremento de 11,07%, o maior para um período de 12 meses desde 2009.

As pessoas que compraram na planta, terão que arcar com esses reajustes no preço das parcelas de financiamento.

Já quem pensa em investir em algum lançamento, pode acabar encontrando os preços mais altos no mercado. Como explica o presidente da Associação Empresas do Mercado Imobiliário do Espírito Santo (Ademi), Sandro Carlesso, os incrementos de preço se concentram nos materiais mais pesados, como aço e cimento, usados principalmente nas primeiras fases das obras.

“Haverá impacto nas obras que estão iniciando. Muitos dos lançamentos já estão até vindo com valor maior porque dentro do orçamento programado já está incorporada essa alta de preço”, avalia.

Ele avalia, contudo, que essa questão não será suficiente para dissuadir as empresas de fazer os lançamentos. Isso porque, mesmo com a alta recente da Selic, que passou de 2% para 2,75%, os financiamentos imobiliários seguem atrativos.

“Além disso, as empresas estão sem produto, os estoques reduziram bastante. Lógico que o valor do imovel no lançamento vai ficar um pouco maior, mas você pode diluir isso durante a obra então o impacto, acaba ficando menor”, diz.

Sobre a alta da Selic, o estrategista-chefe da Apex Partners, Thiago Pessotti, também acredita que os financiamentos imobiliários não deixarão de ser atrativos, mesmo com o incremento de 0,75 p.p. na taxa básica de juros.

“É a taxa de juros de longo prazo que impacta os financiamentos. A previsão é de que a Selic chegue a 4,5% no fim do ano. Com a inflação a 4,5% também, o juro real continua zero. Ou seja, mesmo subindo (a Selic) vai continuar estimulando a economia”, aponta.

IMÓVEIS POPULARES E OBRAS PÚBLICAS SÃO OS MAIS AFETADOS

Dentro do setor da construção civil, os segmentos que mais serão impactados são aqueles de imóveis de baixo padrão, destinados a população com renda mais baixa, e as obras públicas.

"Imóveis como os do programa Minha Casa Minha Vida sofrem diretamente. São unidades para a população de baixa renda em que o público comprador muitas vezes não tem espaço no orçamento para pagar uma prestação maior”, diz o vice-presidente do Sinduscon, Aristóteles Costa Neto.

No caso das obras públicas, os problemas são os contratos, que têm um preço determinado e, em geral, não preveem reequilíbrio em caso de altas como as que vêm ocorrendo.

“As empresas entram em um contrato para fazer uma escola ou estrada, com duração de 12 ou 18 meses. Os preços não são ajustados e elas têm que absorver sem passar para o contratante (governo ou prefeitura)”, aponta.

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