Entre março de 2020 e fevereiro de 2021, a inflação de alimentos e bebidas cresceu 17,52% na Grande Vitória - quase três vezes a inflação oficial do período, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que ficou em 6% nas principais cidades do Espírito Santo, segundo dados do IBGE. E não teve para onde fugir.
A alta atingiu, principalmente, produtos considerados a base da alimentação do brasileiro, como arroz, feijão, carnes e óleo de soja. Os preços podem continuar alto com o avanço da crise, que tem já levado a queda na produção de alguns itens e pressionado os preços dos alimentos a materiais como aço, construção civil, entre outros.
Nas últimas semanas, em que o país registrou recordes de óbitos diários pelo novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) atribuiu a alta dos alimentos à política de isolamento e distanciamento para evitar a disseminação da doença. Ele nega que tenha influência sobre a disparada dos preços no último ano. “Agora, todo mundo é responsável... agora quem está com essa política excessiva do 'fique em casa'? Não sou eu."
Entretanto, não é tão simples, e tampouco o isolamento é o único responsável pelo encarecimento dos alimentos. A alta dos preços está ligada a uma série de fatores, principalmente o aumento do dólar frente ao real e a valorização de determinadas commodities, que impactam toda a cadeia produtiva.
A depreciação do câmbio, aliás, tem relação direta com as interferências políticas na economia, como o episódio que levou a demissão do presidente da Petrobras pelas redes sociais, mostrando uma tentativa de o governo mudar a política de preços dos combustíveis. Atitudes assim levam o dólar disparar, afetando diretamente o orçamento das famílias.
O economista Mário Vasconcelos observa que, além do temor em relação à pandemia, o fortalecimento do dólar e a desvalorização do real ▬ que alcançou 22% em um ano ▬ se devem em grande parte à incerteza política, associada ao aumento do déficit e dos gastos públicos.
“Boa parte da nossa cesta de consumo é precificada pelo dólar, seja direta ou indiretamente. É o caso do arroz, do feijão, do óleo, da soja, entre tantos outros produtos. Com o dólar alto, naturalmente os produtos ficam mais caros. E o dólar tem se mantido em um patamar elevado no país justamente em função da grande incerteza econômica e política. Recentemente, a moeda quase bateu a casa dos R$ 6 por causa disso.”
A alta da moeda norte-americana foi sentida durante todo o ano. Em janeiro de 2020, o dólar era cotado a pouco mais de R$ 4. Em março daquele ano, quando veio a pandemia, saltou a R$ 4,50, logo batendo os R$ 5. Hoje, a moeda já ultrapassa os R$ 5,70.
Paralelamente, Vasconcelos chama atenção para o aumento da demanda internacional, não só por produtos agrícolas, mas também pelas commodities minerais, como o minério de ferro. Depois do baque inicial, quando a economia global desacelerou em função da primeira onda da pandemia, os países voltaram a crescer e intensificaram o volume de compras.
A economista do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) Patrícia Costa comenta que o dólar caro faz o produtor priorizar as exportações, esvaziando o mercado local. O resultado é um preço maior em razão da procura e pouca oferta.
"O empresário exporta em dólar e troca por real, ganhando muito mais. Quando isso acontece, estimula a exportação sem existir uma reserva para o mercado interno, que é uma estratégia de política nacional. No Brasil, essa reserva não ocorre."
Em certos casos, como frutas, verduras, legumes, houve também a questão da sazonalidade e fatores climáticos, que fizeram com que a produção caísse em certos momentos. Mas mesmo o encarecimento do dólar influencia, tendo em vista que muitos fertilizantes são adquiridos no mercado internacional.
O economista e professor da Fucape Felipe Storch Damasceno observa que, além desses fatores, houve aumento do consumo, com mais pessoas cozinhando em casa e com o aumento de renda em função do auxílio emergencial, mas também a escassez de insumos, principalmente para embalagens, também refletiu no preço dos alimentos.
As indústrias, de modo geral, ficaram ociosas diante das incertezas em relação à pandemia. As empresas, geralmente, trabalham com planejamento, mas com a pandemia, tudo se tornou imprevisível. Assim, reduziram a produção. Mas antes mesmo do surto da Covid-19, as indústrias já lidavam com a questão do câmbio: com o real desvalorizado e o dólar em um patamar elevado, as exportações foram estimuladas. Entretanto, esse mesmo detalhe criou complicações para quem importa matéria-prima.
Estoques foram vendidos e, com o passar dos meses e a diminuição do número de contaminações, veio a retomada – mais rápida e mais forte do que se esperava –, ancorada pelo auxílio emergencial e a liberação de crédito para as empresas. A procura aumentou, mas a oferta ainda era baixa, pois as indústrias não haviam retomado o ritmo pleno, o que levou à falta de diversos materiais, conforme já mostrou A Gazeta.
“Tivemos uma quebra na cadeia produtiva, principalmente na cadeia intermediária, que trata das embalagens. Não é só o arroz que está mais caro. A embalagem plástica em que o arroz entra está mais cara, as caixas de papelão em que esses pacotes são alocados também. Isso tudo entra no preço do produto final e é repassado ao consumidor. E isso é generalizado, não é só no Estado. A empresa hoje pega para preparar um produto e não tem certeza se vai conseguir embalagem.”
ENTENDA POR QUE OS ALIMENTOS FICARAM TÃO CAROS
Efeito auxílio emergencial
O preço da moeda americana em relação ao real subiu bastante desde o início da pandemia; a moeda, cotada abaixo de R$ 4,50 em 1º de março de 2020 - já sob efeitos do coronavírus em outros países -, passa dos R$ 5,70 atualmente. O primeiro impacto dessa alta é o aumento nos custos de produção, já que boa parte dos insumos industriais e agrícolas são cotados em dólar. É preciso considerar ainda que o transporte dos alimentos é feito principalmente por via rodoviária, o que demanda derivados do petróleo (diesel e gasolina) também cotados em dólar. O aumento nesse custo é repassado por toda a cadeia até chegar ao consumidor. Além disso, com a valorização da moeda americana, vender para outros países se torna mais vantajoso. Isso significa que é preciso que empresas brasileiras paguem mais para que o produto fique no país. Esse custo também chega aos consumidores.
Alguns alimentos tiveram alta nos preços por causa da entressafra, isto é, um período em que é esperada uma produção menor e, consequentemente, um preço mais alto. É o caso das carnes de boi e de porco. No caso do leite, a produção diminuiu por conta de fatores climáticos. Diante disso, os laticínios também subiram de preço. Já a produção do arroz diminuiu em função do encolhimento da área plantada. Ou seja, produtores rurais optaram por plantar insumos com maior rentabilidade. Para este ano, a redução prevista é de 1,9% , segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Diante das incertezas, a indústria reduziu a produção. Posteriormente, as atividades ganharam ritmo, mas a oferta pelas indústrias ainda estava abaixo do habitual, o que provocou causou escassez de produtos diversos, inclusive embalagens. A falta de plástico, papelão, entre outros utilizados para armazenamento dos produtos, contribuiu para o encarecimento de produtos industrializados de modo geral.
O consumo das famílias também influenciou na alta dos preços. No início da pandemia, esse aumento foi provocado pela corrida aos supermercados em busca de alimentos para estoque. Com as restrições a restaurantes e similares, o consumo se manteve elevado, já que as famílias passaram a cozinhar mais em casa.
De abril a dezembro de 2020, o auxílio emergencial foi pago a mais de 68,2 milhões de brasileiros, e injetou mais de R$ 290 bilhões na economia do país, segundo o Ministério da Cidadania. Segundo dados da FGV, por causa do auxílio, a renda média de um trabalhador sem escolaridade cresceu 156%. Se considerados todos os trabalhadores, o incremento foi de 24%. Com mais dinheiro nas mãos, as pessoas passaram a comprar mais comida, o que elevou a procura, principalmente pelos itens da cesta básica, contribuindo com o aumento dos preços.