Publicado em 26 de fevereiro de 2021 às 20:08
- Atualizado há 5 anos
Manhattan nunca viu nada igual. Nas primeiras horas da manhã de 3 de fevereiro, policiais federais encostaram no prédio que tem o mesmo nome da ilha de Nova York, denominado "o primeiro empreendimento de Cachoeiro de Itapemirim com o estilo de hotel cinco estrelas", que conta com pub, quadra de squash e beauty center. >
Ali no Manhattan Residence, localizado numa das regiões mais nobres de todo o Sul do Espírito Santo, agentes apreenderam a maior quantia em espécie da história da PF no combate a fraudes bancárias: R$ 7,2 milhões, separados em bolos de notas de R$ 100 e R$ 50. Também encontraram 1 kg de ouro em barras.>
Sairia algemado dali um programador de 32 anos, que só se sabe que se chama Igor pela abordagem filmada num vídeo da ação policial que vazou na internet. Segundo apurou o jornal Folha de S.Paulo, ele foi solto após pagar uma fiança de R$ 110 mil.>
De acordo com informações do jornal, Igor estava sob radar dos federais desde maio de 2015. Naquele mês, deu uma derrapada, por meio da qual a polícia conseguiu detectar o seu nome em transações virtuais criminosas, na Caixa Econômica Federal e no Banco do Brasil.>
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Para chegar até Igor, os policiais procuraram "bombas". "Havia surgido, na investigação, a possibilidade de ele estar importando anabolizantes para venda no Brasil, e precisaria de licença da Anvisa para isso", afirma o delegado regional de Combate ao Crime Organizado no Espírito Santo, Leonardo Rabello. Só por esse crime, se for condenado, ele pode pegar até 15 anos de prisão.>
A Gazeta mostrou, no dia em que foi deflagrada pela Polícia Federal a Operação Creeper – nome dado em referência ao primeiro vírus identificado no Brasil –, que Igor é suspeito de encabeçar uma organização criminosa que capturava dados para invadir celulares e computadores e roubar dinheiro de contas bancárias das vítimas. A quadrilha atua pelo menos desde 2015.>
De acordo com o delegado, o suspeito é um programador experiente e desenvolveu um malware (espécie de programa utilizado para ataques maliciosos a dispositivos eletrônicos, como um vírus) que era utilizado para phishing, que é um ataque comum, visando o roubo de informações pessoais.>
"Existe uma suspeita de que tenha sido o primeiro hacker no Brasil a desenvolver um programa malicioso, o malware, para infectar smartphone e dar acesso remoto ao atacante", disse Rabello.>
Isto é, por meio do vírus, o hacker se infiltrava no computador ou celular da vítima e conseguia o acesso a todas as informações disponíveis. De posse desses dados, ele acessava as contas bancárias dos usuários e fazia uma análise do dinheiro guardado a fim de decidir se valia a pena atacar. >
Segundo a PF, Igor recrutava laranjas para aplicar os golpes. Ele próprio não colocava a mão na massa. Após a avaliação das contas, ele passava um relatório das contas para terceiros, que eram os responsáveis por efetivamente retirar o dinheiro, e enviá-lo para outras contas – frequentemente falsas e utilizadas apenas como intermediárias – antes que as quantias fossem redistribuídas. >
A partir daí, o grupo responsável pela movimentação retinha uma parcela dos valores e a grande maioria retornava ao programador responsável pelo malware, em Cachoeiro.>
As cédulas encontradas pelos policiais no apartamento do acusado são ninharia perto do que a PF desconfia que o esquema tenha movimentado. Boa parte do dinheiro fisgado de contas teria sido lavada com a compra de criptomoedas, bem mais difíceis de serem rastreadas do que uma transação financeira regular. >
Segundo apurou a Folha, além disso, os malwares eram vendidos para outros grupos criminosos fazerem seus próprios esquemas. Essa prática, comum em outros países, vem ganhando adesão no Brasil nos últimos anos.>
Igor Rincon, engenheiro de segurança, explica que as atividades dessas quadrilhas se dão em camadas. Primeiro, vem quem produz o malware. Depois, quem compra esses programas para operar o golpe. Por último, os laranjas que captam o dinheiro roubado. "Quanto mais em cima nessas camadas, mais difícil de detectar, porque a pessoa está menos exposta", diz.>
Era o caso do Igor que foi preso. Ele tinha um perfil discreto e sem gastos extraordinários, de acordo com a PF. O apartamento do Manhattan Residence, por exemplo, era alugado e com quase nada de decoração. Uma unidade de três quartos custa menos do que R$ 500 mil, e o aluguel, menos de R$ 4.000.>
Um padrão de vida de classe média alta, mas até modesto para um sujeito que movimentou, só ao longo de três meses de 2020, R$ 647 mil, segundo a PF.>
Outras quatro pessoas são investigadas a partir de um relatório produzido na Divisão de Repressão a Crimes Cibernéticos, sediada em Brasília, mas só ele foi preso.>
Para Fabio Assolini, pesquisador de cibersegurança da Kaspersky, empresa que atua nessa área, a prisão vem num momento em que ataques do tipo estão em alta. "Devido à pandemia, o acesso ao mobile banking explodiu. Na esteira, cresceu o interesse dos fraudadores para infectar o dispositivo de tal forma que ele consiga cometer uma fraude usando o celular.">
O uso de um RAT (sigla em inglês para "ferramenta de acesso remoto") é o que permite aplicar o golpe sem levantar suspeita. "Isso é muito avançado", diz Assolini.>
Normalmente, as vítimas são usuários de Android - os casos envolvendo iPhone são contra alvos extremamente específicos e custam milhões para executar.>
A primeira parte é convencer o usuário a instalar o malware no dispositivo. Pode ser por um aplicativo falso na loja ou com o uso de mensagens enganosas (o phishing). Esse passo pode tomar várias formas e está sempre mudando. São iscas como promoções fictícias.>
Uma vez com o aparelho infectado, o hacker acessa tudo e mais um pouco. Captura as mensagens SMS, conecta-se à câmera, tira print da tela e monitora em quais aplicativos a pessoa está mexendo para saber quando o do banco é aberto. Aí é só capturar as informações.>
Como as operações são feitas pelo celular da própria vítima, remotamente, em geral não chama atenção da instituição financeira.>
Assolini explica que golpistas já deram um jeito até de vencer a biometria (a confirmação por digital que aparece, por exemplo, na hora de transferir dinheiro). "O RAT tem uma função de deixar a tela escura. Você acha que ela está desligada. Quando vai checar algo no celular e coloca o dedo para desbloquear, na verdade, autoriza uma operação", diz.>
O negócio funciona tão bem que tem sido exportado. Golpes como esses, aliando tecnologia e malandragem brasileiras, são vistos em outros países da América Latina, além de África e Europa.>
Para se proteger, Assolini recomenda a instalação de antivírus no celular, assim como no PC, já que o smartphone é também um computador. Mesmo opções gratuitas ajudam a detectar as mensagens de phishing e aplicativos fraudulentos.>
Outra medida é ativar todos os alertas que o serviço financeiro permite ter. Aí, quando houver algo suspeito, o usuário recebe uma mensagem. O especialista avisa, no entanto, que muitos criminosos já estão ligados nisso e podem desabilitar essas funções no app do banco antes de depenar uma conta bancária.>
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