Influenciada pelo aumento na produção na indústria extrativa, por um mercado de trabalho aquecido e pela previsão de novo recorde de produção de café, a economia do Espírito Santo deve fechar o ano de 2026 com crescimento de 1,7%.
É o que aponta o Indicador de Atividade Econômica do Espírito Santo (IAE-Findes) elaborado pelo Observatório Findes (Federação das Indústrias do Espírito Santo).
Embora a projeção para o Estado seja um pouco menor que a previsão da alta da economia do Brasil (+2%), a expectativa é que o Espírito Santo caminhe para registrar o quarto ano consecutivo de crescimento econômico.
Segundo a economista-chefe da Findes e gerente executiva do Observatório, Marília Silva, a expansão de 1,7% deve ser fortemente influenciada pela alta da indústria extrativa.
Esse movimento é justificado por fatores operacionais relevantes, como a produção da FPSO Maria Quitéria, da Petrobras, operando com maior capacidade, a alta na operação da Samarco e a entrada em operação do campo de Wahoo, operado pela Prio.
Além disso, apesar do recuo temporário de 11,4% no agronegócio no primeiro trimestre devido à ausência de colheita no período, a Findes projeta uma safra recorde de café para o restante do ano, o que deve ajudar a consolidar o crescimento anual.
Sobre o fato de a economia capixaba possivelmente crescer menos do que a do Brasil em 2026, Marília explica que a projeção tem uma diferença metodológica. Isso porque o índice de 1,7% para o Espírito Santo é apurado pelo IAE, enquanto os 2% do Brasil são a mediana de mercado do boletim Focus, divulgado pelo Banco Central.
“No Brasil há uma expectativa de crescimento maior, tanto do setor de serviço quanto do agro. E o agro pesa mais também no índice nacional”, explica a economista.
Contudo, a trajetória de crescimento enfrenta desafios e complexidades inflacionárias significativas apontadas pela economista. O cenário internacional, marcado por incertezas e conflitos entre potências como Estados Unidos, Israel e Irã, gera volatilidade nos preços do petróleo e de outras commodities.
Essa pressão inflacionária, que se soma à alta nos preços de serviços e alimentos, tende a reduzir a velocidade da queda da taxa Selic, o que prejudica diretamente setores sensíveis ao crédito, como a construção civil e a indústria de transformação — esta última já tendo registrado um recuo de 1,9% no primeiro trimestre devido a dificuldades nos segmentos de alimentos e celulose.
No âmbito doméstico, o crescimento é limitado pelo alto nível de endividamento e inadimplência das famílias capixabas, o que restringe um avanço mais robusto do setor de serviços e do comércio. Outro ponto de atenção é a base de comparação elevada, já que o Espírito Santo cresceu 3,4% em 2025, tornando o desafio de manter altas taxas de expansão em 2026 ainda mais complexo.
Apesar desses obstáculos, o presidente da Findes, Paulo Baraona, reforça que o Estado mantém um ambiente de negócios favorável, com previsibilidade de investimentos.
Ele cita projetos estratégicos que prometem ampliar as cadeias produtivas locais no futuro próximo, como a instalação da montadora GWM, em Aracruz, e o novo laminador a frio da ArcelorMittal, que deve atrair novas empresas fornecedoras e gerar mão de obra qualificada, fortalecendo a estrutura econômica do estado a longo prazo.
ES tem alta maior que o Brasil no 1° trimestre de 2026
No acumulado de janeiro a março de 2026, o Espírito Santo apresentou um crescimento de 2,2%, superando a média nacional, que foi de 1,8% no mesmo período. Esse resultado foi impulsionado por dois setores: indústria (com alta expressiva de 11,2%) e serviços.
Dentro do setor industrial, o grande destaque foi a indústria extrativa, que cresceu ancorada no petróleo e gás (+40,8%) e na pelotização (+26,7%). A entrada em operação e a estabilização de plataformas como a FPSO Maria Quitéria e o início da produção no campo de Wahoo, além do aumento da produção da Samarco e da Vale, explicam esse salto produtivo.
A expansão da produção da Vale foi impulsionada, de acordo com Marília, pela parada técnica planejada das suas operações em Omã, o que direcionou a fabricação para o Espírito Santo. Outro fator que teve influência no redirecionamento foram questões geopolíticas, como a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã.
O setor de construção teve alta de 1,3%, segundo o indicador. Paulo Baraona, presidente da Findes, destacou que o crescimento é justificado pelo fato do Estado ter, além de um ambiente de negócios favoráveis, investimentos em infraestrutura, como obras em rodovias. Com isso, afirma que a habitação passa a ser um fator importante não só na Grande Vitória como também em Linhares e Aracruz.
“Tem grandes investimentos que sustentam o crescimento, apesar da taxa de juros. De fato a área imobiliária podia estar bem mais alavancada, mas essa taxa de juros é impossível para o mercado”, destacou.
Apesar dos números positivos na extração, a indústria de transformação registrou queda de 1,9%, refletindo as dificuldades nos segmentos de alimentos e papel e celulose, este último impactado por incertezas no comércio internacional e conflitos globais.
No mercado interno, o alto nível de endividamento e inadimplência das famílias também atua como um limitador para um crescimento mais robusto do setor de serviços e comércio.