A crise enfrentada pela Apex Partners, uma das principais plataformas de investimentos do Espírito Santo, chegou à Justiça na última sexta-feira (7) e colocou sob os holofotes uma estrutura empresarial que reúne diferentes atividades ligadas ao mercado financeiro. Mas, afinal, o que faz uma empresa como a Apex? E como se relacionam atividades tão distintas quanto assessoria de investimentos, gestão de fundos, compra e venda de empresas e captação de recursos no mercado de capitais?
Um especialista em mercado de capitais ouvido por A Gazeta, que preferiu não se identificar, explica que o modelo construído pela Apex se aproxima, em diferentes aspectos, das atividades exercidas por um banco de investimento.
Na avaliação dele, a estrutura poderia ser entendida como parte de um caminho para, futuramente, tornar-se efetivamente uma instituição desse tipo.
Isso não significa, porém, que todas as atividades realizadas pelas empresas do grupo estejam fora de regras do mercado financeiro. Dependendo do serviço e da operação, há diferentes estruturas, instituições e órgãos reguladores envolvidos.
Banco comercial x banco de investimento
Para entender o modelo, primeiro é preciso diferenciar um banco de investimento de um banco comercial.
Os bancos comerciais são aqueles mais presentes no cotidiano da população. São instituições nas quais clientes mantêm contas, movimentam dinheiro, fazem pagamentos, contratam crédito e utilizam diferentes serviços bancários.
Já o banco de investimento é voltado principalmente para operações financeiras e empresariais. Entre as atividades estão gestão de recursos, estruturação de investimentos, operações de mercado de capitais e assessoria em processos como compra, venda ou fusão de empresas.
É justamente por atuar em diferentes frentes semelhantes a essas que, segundo o especialista, a Apex desenvolveu uma estrutura comparável, em determinados aspectos, à de um banco de investimento.
A vantagem empresarial de reunir essas atividades está também na diversificação das fontes de receita. “Você amplia a sua possibilidade de receita. Não está atuando numa frente só, está atuando em várias frentes, como um banco”, explica o especialista.
Dois serviços que podem parecer semelhantes para quem está fora do mercado financeiro são a assessoria de investimentos e a gestão de recursos. Mas os papéis são diferentes.
Na assessoria, o profissional orienta o cliente sobre possibilidades de investimento e pode apresentar produtos disponíveis na plataforma à qual está vinculado.
O especialista entrevistado menciona, a título de exemplo, um cliente que recebe a recomendação de montar uma carteira de fundos imobiliários. A partir dessa orientação, os investimentos podem ser realizados por meio da instituição financeira à qual o assessor está vinculado.
A gestão de fundos funciona de outra maneira. Nesse caso, diferentes investidores colocam recursos em um fundo, e cabe ao gestor decidir onde aquele patrimônio será aplicado, sempre dentro das regras previstas para o veículo.
Em um fundo de crédito, por exemplo, o gestor pode buscar operações de crédito nas quais aplicar os recursos. Em um fundo de private equity, voltado à participação em empresas, o trabalho envolve procurar companhias que possam integrar o portfólio.
Ou seja: enquanto o assessor auxilia o cliente na escolha dos investimentos, o gestor administra os recursos reunidos dentro de um fundo e toma as decisões de alocação previstas em sua estratégia.
Comprar empresas também faz parte do negócio
Outro braço desse tipo de plataforma é o chamado investment banking. É nessa área que entram, entre outros serviços, as operações de fusões e aquisições, conhecidas no mercado pela sigla M&A.
Na prática, a instituição pode assessorar uma empresa que pretende vender o negócio, comprar outra companhia, receber um novo investidor ou realizar uma fusão.
Segundo o especialista em mercado de capitais, esse tipo de atuação faz parte do conjunto de serviços normalmente associados a bancos de investimento. “Ele pode atuar fazendo uma espécie de intermediação de investimentos, seja vendendo, seja comprando para um cliente uma empresa."
Esse trabalho envolve estruturar a operação, avaliar alternativas, aproximar compradores e vendedores e auxiliar nas negociações.
O mercado de capitais também pode ser utilizado quando uma companhia precisa captar dinheiro para financiar projetos ou crescer. Nesse caso, entram operações como a emissão de debêntures e outros títulos de dívida, que permitem à empresa buscar recursos diretamente com investidores.
Uma das possibilidades é a emissão de títulos de dívida, como debêntures. Nesse caso, em vez de contratar diretamente um empréstimo bancário, a companhia busca recursos com investidores.
O especialista explica que essa é uma diferença importante em relação ao crédito bancário tradicional.
No banco, a instituição analisa a situação financeira da empresa e oferece determinado limite, prazo e taxa de juros. No mercado de capitais, a companhia pode estruturar uma operação estabelecendo características como remuneração e garantias e, então, buscar investidores interessados em financiá-la. “A vantagem é ampliar o leque de possibilidades de captação”, resume.
Isso não significa que qualquer empresa possa simplesmente oferecer títulos ao público. O especialista ressalta que existem diferenças entre operações privadas e ofertas destinadas ao mercado em geral.
A distinção entre os diferentes negócios da Apex também é importante para compreender os riscos enfrentados por quem colocou dinheiro em produtos ou empresas ligados ao grupo.
Segundo o especialista, não é possível tratar todos os investidores como se estivessem na mesma situação. O risco depende da forma como o dinheiro foi aplicado. “Para entender efetivamente quais são o risco e o tamanho do risco, é preciso fazer a análise do tipo de investimento”, afirma.
Quem investiu diretamente no capital de uma empresa, tornando-se sócio, está exposto ao desempenho daquela companhia e pode perder o capital investido caso o negócio fracasse.
A situação é diferente para quem possui cotas de um fundo. O patrimônio do fundo não se confunde automaticamente com o patrimônio da empresa responsável por alguma atividade ligada a ele. Assim, uma dívida da companhia não significa, por si só, que os recursos pertencentes aos cotistas possam ser utilizados para quitá-la.
Isso não elimina os riscos para o investidor. Uma crise pode provocar desvalorização dos ativos e das cotas e, dependendo das características e da liquidez do fundo, pode haver dificuldades ou restrições temporárias para resgatar o dinheiro.
Em situações de forte procura por resgates, uma suspensão temporária também pode ser adotada para evitar que a saída simultânea de investidores prejudique os demais cotistas, especialmente quando os recursos do fundo estão aplicados em ativos que não podem ser convertidos imediatamente em dinheiro.
Muitos braços exigem governança reforçada
A existência de diferentes atividades dentro de um mesmo grupo amplia as possibilidades de negócio, mas também aumenta a necessidade de mecanismos capazes de evitar conflitos de interesse.
Para o especialista, quanto maior a quantidade de braços financeiros dentro de uma mesma estrutura, maior é a importância de controles capazes de impedir que os interesses de uma área interfiram indevidamente em outra. “Quando você tem essa quantidade de braços, você tem um risco grande. Um risco de um contaminar o outro”, afirma.
É justamente nesse ponto que entram governança corporativa, compliance, controles internos, auditoria independente e órgãos como conselhos de administração e fiscal.
“Uma empresa como essa tem que ter uma governança muito boa, porque é essa governança que vai evitar conflitos de interesse e operações com partes relacionadas”, diz.
Segundo ele, esses mecanismos também são importantes para identificar inconsistências antes que elas ganhem proporções maiores.
De acordo com o especialista, para investidores, a principal recomendação é não olhar para todos os produtos ligados a uma plataforma financeira como se representassem o mesmo risco.
Fundos, participações societárias, empreendimentos imobiliários e outros investimentos possuem estruturas jurídicas e financeiras distintas. Por isso, para saber o grau de exposição à crise de uma empresa ou grupo, é necessário primeiro identificar onde exatamente o dinheiro foi aplicado e quais são as regras daquele investimento.