ASSINE

Correios pagam lucro bilionário à União; vale a pena privatizar?

Entenda o que os especialistas falam sobre a venda da empresa que está com processo de autorização em análise no Congresso

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 28/08/2021 às 21h17
Correios: funcionários reclamam de falta de máscaras e álcool em gel
Correios: governo quer vender 100% da empresa. Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Os Correios apresentaram, nos últimos 20 anos, lucro líquido de mais de R$ 12 bilhões, em valores atualizados pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), dos quais 73% foram repassados ao seu único acionista, o governo federal, de acordo com informações do portal Uol. Já segundo dados da União, a estatal apresentou, em 2020, lucro líquido de R$ 1,53 bilhão – maior resultado nos últimos 10 anos.

O patrimônio líquido obteve um crescimento de 84% em relação ao ano de 2019, totalizando, aproximadamente, R$ 950 milhões. Esses feitos, de acordo com a União, sinalizam melhora da saúde financeira e dos negócios da empresa, que reduziu seus prejuízos de R$ 2,76 bilhões para R$ 859 milhões.

Apesar dos bons resultados, na quinta-feira (5), a Câmara dos Deputados aprovou, por 286 votos 173, o texto-base do projeto de lei que abre caminho para a venda dos Correios. O texto, que ainda precisa passar pela análise do Senado, foi apresentado em fevereiro pelo governo federal.

Para justificar a privatização da estatal, criada em 1969, o governo afirma que há uma incerteza quanto à autossuficiência e capacidade de investimentos futuros por parte dos Correios, o que reforçaria a necessidade da privatização para evitar que os cofres públicos sejam responsáveis por investimentos da ordem de R$ 2 bilhões ao ano.

Na avaliação do assessor financeiro e sócio-fundador da Pedrazul Investimentos, Lélio Monteiro, a recente lucratividade da companhia acaba contando como um ponto a favor da desestatização, a partir do momento em que o governo define que não é de seu interesse permanecer à frente deste tipo de negócio.

“Se a empresa for vendida enquanto está tendo prejuízo, tem um valor de venda pequeno. Se for vendida agora, valerá mais. O governo abre mão do resultado futuro, mas tem um adiantamento do valor que obteria nos próximos anos. Se essa avaliação for feita de forma justa, pode resultar em uma boa proposta. Além disso, ao vender, a União deixa de ter que arcar com juros da dívida, o que também é vantajoso.”

Ele observa que o lucro da estatal, embora presente nos últimos anos, não acontece de forma regular pois os Correios não chegam a desenvolver uma atividade comercial, e dependem da demanda de serviços, que oscila muito, considerando a entrada de cada vez mais agentes no mercado.

R$ 1,53 bilhão

foi o lucro líquido dos Correios em 2020

O “boom” do e-commerce, que elevou os resultados da empresa no ano passado, conforme destaca o próprio governo, também impactou as atividades de transportadoras privadas, cada vez mais disseminadas.

“Em tese, o que o governo pensa é que pode ter um preço justo, já que a empresa está sendo lucrativa, e entende que a sociedade ganha com a empresa sendo tocada pela iniciativa privada.”

A economista e professora da Fucape Business School, Arilda Teixeira, pontua que a empresa perdeu espaço no mercado nas últimas décadas, e pecou em não se atualizar às novas demandas do mercado.

Desde a criação da companhia, até os dias de hoje, diversas formas de comunicação surgiram, como telex, fax, telefonia móvel e comunicação eletrônica (e-mail), que quebraram o monopólio dos Correios e mudaram a dinâmica dos serviços de correspondência, tirando parte das demandas da estatal. Mesmo assim, pouco se fez para ajustar sua estrutura de funcionamento.

Na foto, Arilda Teixeira, economista e coordenadora Cursos de Graduação e MBA da Fucape Business School
Arilda Teixeira é economista e coordenadora Cursos de Graduação e MBA da Fucape Business School. Crédito: Daniel Alencastre/Fucape

“O maior problema dos Correios é que a estatal não percebeu ao longo do tempo que o meio de comunicação estava se alterando, e perdeu nicho de mercado porque tinha um monopólio, mas não ampliou a gama de serviços, ficou anacrônico.”

Arilda Teixeira

Economista

"O que a estatal tem feito é enviar correspondências e pequenas cartas. Não se justifica a permanência pois várias empresas já fazem isso. E em termos de gestão, a cultura organizacional é uma bagunça. Viraram peça para beneficiar a parte errada da gestão pública."

Para o professor de finanças e controle gerencial do Instituto Coppead de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rodrigo Leite, pondera, entretanto, que a alternativa mais indicada, na realidade, seria abrir capital da companhia, mas sem privatizá-la.

O governo venderia parte das ações, mas se manteria como acionista majoritário, com direito ao controle dos negócios. Do contrário, Leite observa que há risco de um monopólio privado, que pode, inclusive, ocasionar aumento de preços ao consumidor.

“Os correios prestam dois tipos de serviços, entregas de cartas e encomendas, sendo que, neste segundo tipo, de fato perdeu espaço nos últimos anos. O lucro se torna cada vez mais dependente da receita de envio de cartas, que tem reduzido. Mas isso não tira a importância desse serviço, que é necessário à população. E é difícil manter os preços praticados hoje se a empresa for entregue à iniciativa privada.”

Rodrigo Leite

Professor do Coppead /UFRJ

"Uma via que vejo que seria a mais aceitável no momento não seria a privatização, mas sim a abertura de capital, com o governo mantendo o controle majoritário, como fez com a Petrobras. Os correios prestam realmente um serviço público para a população, que tem que receber cartas, encomendas, etc., a um custo menor. Com muitas encomendas faz sentido mandar via transportadora, courier, mas só um pacote fica caro. Faz muito sentido o Correio ser uma empresa de capital misto"

Com expectativa de receber o aval do Congresso, o Executivo federal planeja fazer o leilão da estatal no primeiro semestre de 2022, e se desfazer de 100% da empresa.

O relator do projeto, Gil Cutrim (Republicanos-MA), apresentou parecer pela privatização da empresa. Entre os pontos, o parecer diz que a Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) será transformada em uma empresa de economia mista, chamada de Correios do Brasil e também modifica a função da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que será responsável por regular os serviços postais.

O relatório também determina a exclusividade da nova empresa na operação dos serviços postais pelo prazo de cinco anos, proíbe o fechamento de agências que garantem serviço postal universal em áreas remotas. Esse prazo, segundo o projeto, poderá ser prorrogado.

Essa exclusividade inclui os chamados serviços postais como atendimento, coleta, triagem, transporte e distribuição no território nacional e expedição para o exterior de carta e cartão postal; serviço público de telegrama; e atendimento, coleta, triagem, transporte e distribuição no território nacional e expedição para o exterior de correspondência agrupada.

O parecer também determina que os trabalhadores da ECT não poderão ser demitidos pelo prazo de 18 meses após a privatização. Atualmente, os Correios contam com uma força de trabalho de quase 100 mil empregados.

*Com informações das Agências Brasil e Estado

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.