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Vacinação por comorbidade provoca corrida por consultas particulares no ES

Com a possibilidade de se vacinar contra a Covid-19, pacientes vão em busca de laudo; vale observar que nem toda doença se encaixa nos critérios de imunização

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 10/05/2021 às 21h07
Hipertensão; pressão arterial; médico; paciente
Médico confere pressão arterial de paciente: nem todos os quadros hipertensivos estão contemplados nesta fase da vacinação. Crédito: Freepik

Desde que o governo do Estado anunciou o início da vacinação contra a Covid-19 para as pessoas com comorbidades, médicos viram aumentar a demanda nos consultórios com pacientes em busca de laudo. Isso porque o documento é exigido pelas unidades de saúde que estão realizando a imunização, conforme previsto em resolução da Comissão Intergestora Bipartite (CIB) do Sistema Único de Saúde (SUS).

A endocrinologista Camila Pitanga Salim conta que tem percebido procura maior de pessoas com quadro de diabetes, uma das doenças pré-existentes na relação definida pelo Ministério da Saúde. Os diabéticos, assim como portadores de outras comorbidades, têm que apresentar laudo com data de emissão a partir de 2018, para os quadros permanentes, ou de 90 dias, para os casos transitórios. 

Camila considera a busca positiva, pois demonstra adesão ao plano de vacinação e, ao mesmo tempo, fez retornar aos consultórios alguns pacientes que não estavam com os cuidados em dia. "Um dos efeitos negativos da pandemia foi o abandono do tratamento de doenças crônicas. Em função do isolamento, muitos deixaram de acompanhar sua condição de saúde com o médico", pontua.

Questionada se estava reservando a agenda para atender especificamente pessoas em busca de laudo, Camila diz que às vezes fica depois do horário para atender pacientes que estiveram em consulta há pouco tempo, mas que não solicitaram o documento que comprova a comorbidade, ou aqueles que estão com agendamento para daqui a um, dois meses, e querem antecipar para conseguir o laudo e se vacinar. 

"Para aqueles que estão com o controle regular, tenho feito os laudos. Agora, quem está há muito tempo sem acompanhamento, ou é a primeira vez, eu oriento a marcar consulta para examinar, rever medicação, tudo. Não dou laudo se não for assim", ressalta a endocrinologista. 

Um dos diretores do Centrocor, o cardiologista José Aid Soares Sad também observa o aumento de demanda em seu consultório e de outros profissionais da clínica, mas a sua preocupação é que muitos dos pacientes que estão correndo atrás de um laudo não têm as comorbidades relacionadas pelo Ministério da Saúde.

O cardiologista tem realizado o atendimento de pacientes que buscam laudo na sua rotina diária, mas aqueles que já passam por acompanhamento frequente têm sido procurados diretamente pelo médico. "Caso tenham indicação, preparo os laudos e ligo para indicar a vacina", comenta José Aid. 

CRM AFIRMA QUE DOCUMENTO DEVE SER FEITO DE FORMA CONSCIENTE

Informado sobre a pressão imposta a alguns profissionais por pacientes que querem o laudo, o Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES) destaca, em nota, que o laudo é um documento onde estão descritas informações encontradas em exames, observando características de normalidade ou alterações importantes no que diz respeito à saúde do paciente.

"A emissão deste documento deve ser feita de forma consciente e com base em informações constatadas em exames realizados no paciente. O médico só deve emitir qualquer tipo de laudo se tiver comprovação, por meio de exames, do que for descrever no laudo, que deve ser datado, carimbado e assinado pelo médico", diz outro trecho da nota do CRM-ES.

Para acelerar o atendimento das demandas, a MedSênior informa, em nota da assessoria, que disponibiliza laudo médico para que os beneficiários portadores das comorbidades descritas no Plano Nacional de Imunizações sejam vacinados contra a Covid-19. "Para facilitar e agilizar o atendimento, os pacientes podem obter o documento pelo site www.medsenior.com.br, evitando a marcação de consultas presenciais e o deslocamento até uma unidade da operadora de saúde. O laudo é enviado por e-mail com assinatura eletrônica de um médico em até três dias úteis."

Uma paciente com quadro de asma, que prefere não se identificar, revela que teve bastante dificuldade para marcar uma consulta com pneumologista a fim de avaliar seu quadro e emitir ou não o laudo. Ela conta que sua médica está de licença e, por isso, fez contato com vários outros profissionais dessa especialidade, mas só conseguiu vaga para o final do mês. Os que tinham agenda liberada antes, o atendimento seria virtual, o que não adiantaria por ser a primeira consulta.

NO SUS

Para pacientes do SUS, podem surgir outras dificuldades, como é o caso de uma profissional da área de Química que pediu para não ser identificada. Com obesidade, ela se encaixa no perfil para a vacinação e foi atrás de orientação junto à unidade de saúde de Dom João Batista, em Vila Velha, para obter o laudo. 

"A atendente me informou que eu só conseguiria através do especialista (no caso, nutricionista). E que, para ter acesso a ele, deveria ir lá, passar pela enfermeira, agendar com o clínico que me encaminharia", descreve. 

A paciente ainda argumentou que havia visto o secretário estadual da Saúde, Nésio Fernandes, falar à TV Gazeta que poderia pegar o laudo no posto, com qualquer médico, e ouviu a seguinte resposta: "Senhora, tivemos uma reunião agora à tarde e o procedimento é esse. Posso ajudar em algo mais?"

Mas a química não desistiu e resolveu ir até outra unidade de saúde, no mesmo município, e o atendimento foi totalmente diferente. Em Jaburuna, ela foi atendida na hora por um médico, que emitiu o laudo de comorbidade, e ela garantiu a sua vacina. 

Questionada sobre a orientação às unidades, e por que não há padronização nas informações aos usuários, a Secretaria de Saúde de Vila Velha assegura que as diretrizes são iguais para todos, embora os dois postos procurados pela paciente com obesidade tenham adotado protocolos distintos.

"O paciente que precisar de laudo deve procurar sua unidade de referência. O enfermeiro poderá emitir uma declaração descrevendo sua comorbidade, caso esse paciente já faça acompanhamento no serviço. Para facilitar, criamos um modelo padrão para uso nas unidades de saúde. Os pacientes que não possuem laudo e/ou registro de acompanhamento na unidade será necessário o agendamento de consulta, e o médico poderá solicitar exames e/ou encaminhar para um especialista", explica, em nota. 

PRIORIDADE

As comorbidades listadas no grupo prioritário de vacinação foram definidas pelo Ministério da Saúde e a comissão bipartite, que reúne representantes do Estado e dos municípios, estabeleceu as normas para a imunização desse público, considerando, entre outros aspectos, faixa etária e doses disponibilizadas pelo governo federal. 

Resolução da comissão ainda aponta a necessidade de laudo para garantir a vacinação - prescrição médica ou declaração do enfermeiro onde o paciente faz tratamento também são aceitas - e reproduz as doenças pré-existentes contempladas no plano nacional de imunização. 

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