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Uma cidade inteira de óbitos: o desolador retrato da Covid-19 no ES

Após mais de um ano de enfrentamento à pandemia no Espírito Santo, o governo do Estado registrou a morte de 7.053 capixabas nesta terça-feira (23). Número equivale, por exemplo, à perda de uma cidade inteira, como Dores do Rio Preto, que tem 6.771 habitantes

Publicado em 23/03/2021 às 20h17

Após mais de um ano de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus no Espírito Santo, o governo do Estado registrou a morte de 7.053 capixabas nesta terça-feira (23). Os dados constam no Painel Covid-19, da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa).

Nas últimas 24 horas, o Estado computou 72 óbitos, recorde de mortes em apenas um só dia, ao longo de toda a pandemia. "Nós não queremos que mais pessoas morram. Para isso, é necessário que a gente interrompa a cadeia de transmissão da doença", disse o secretário de Estado da Saúde, Nésio Fernandes, durante entrevista coletiva virtual nesta terça.

Nésio Fernandes

Secretário de Estado da Saúde

"Eu reitero o apelo acumulado há mais de 12 meses de pandemia, que as pessoas fiquem em casa e entendam a gravidade do momento que vivemos no Brasil. Essa quarentena precisa funcionar e ser respeitada. As pessoas precisam se sensibilizar com as perdas"

Excepcionalmente por causa do recorde de mortes contabilizadas pelo coronavírus, o governador Renato Casagrande fez um pronunciamento na tarde desta terça-feira. Além de lamentar as perdas, ele fez um apelo para que as pessoas cumpram as medidas de distanciamento social e uso de máscara.

Renato Casagrande

Governador

"É muito duro chegar ao fim do dia e ver que 72 pessoas perderam a vida. Entristece o coração da gente. É bom que tenhamos empatia para não fracassarmos como sociedade, se preocupar com o sofrimento do outro, para termos resultado juntos, reduzindo óbitos, internações"

Os números não se tratam de estatísticas. Eles representam perdas que marcam famílias, deixam saudade nos amigos, além de todo o impacto social que o momento provoca. Ou deveria. Até o momento, mais de 363 mil pessoas já foram infectadas com o vírus nos 78 municípios do Estado. 

Para ilustrar a agressividade da doença, uma breve análise mostra que os óbitos representam a queda de 38 aviões Airbus A320, que comporta 185 passageiros. 

Em um exemplo ainda mais próximo da realidade ao menos de quem mora na Grande Vitória, a tragédia da Covid-19 é o mesmo que um acidente com 88 ônibus do Transcol lotados com 80 passageiros cada.

E assim, mesmo que você não conheça, as sete mil mortes que a doença causou poderia impactar no desaparecimento de toda a população do município de Dores do Rio Preto. De acordo com a estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade do Sul do Estado contava com 6.771 moradores em 2020.

 No entendimento da pós-doutora em Epidemiologia e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Ethel Maciel, o Espírito Santo atingiu esses números por um conjunto de fatores como a falta de coordenação nacional pelo governo federal.

Ethel Maciel

Epidemiologista

"A falta de coordenação nacional foi preponderante para que todos os estados tivessem dificuldades de implementar suas medidas. Também houve uma enorme polarização política no momento de grave crise. Isso foi ruim para o Brasil todo"

Além de não criar uma política nacional de enfrentamento bem definida, outro ponto de destaque, na avaliação de Ethel, foi o suporte econômico que o governo brasileiro não ofereceu.

Ela pontuou que em países da Europa e nos Estados Unidos, houve grande aporte financeiro às empresas e trabalhadores. Dessa forma, as medidas restritivas foram recebidas e acatadas de uma forma mais intensa pela população local.

"Alguns países fizeram pacotes econômicos para injetar dinheiro na economia, socorrendo empresas e, em alguns momentos, assumindo parte dos pagamentos dos trabalhadores. Isso fez com que as medidas restritivas de circulação tivessem maior adesão. Aqui aconteceu o contrário", diz Ethel. 

A pesquisadora ressalta as manifestações contra as medidas de restrição."A gente precisa comunicar a população que o pior ainda está por vir. Porque, como temos muitos casos novos ainda todos os dias, ainda vamos passar semanas de muita dificuldade, de muitos mortos, porque o que estamos vendo agora é reflexo de duas a quatro semanas atrás. Ainda temos dias muito tristes para vivermos no Estado", alerta.

Ethel Maciel, enfermeira epidemiologista e colunista de A Gazeta
Ethel Maciel, enfermeira epidemiologista e colunista de A Gazeta. Crédito: Fernando Madeira

CENÁRIO NO BRASIL

O médico infectologista e doutor em doenças infecciosas, Crispim Cerutti Júnior, ressalta que o Brasil superou o número de mortes por coronavírus informado nos Estados Unidos, considerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como o último epicentro da pandemia no mundo. Nesta fase de combate, o indesejado posto de centro da doença é do Brasil.

Crispim Cerutti Júnior

Médico infectologista

"O fundamento de tudo está num verdadeiro culto que existe no País para desvalorizar o significado da doença e a acreditar em soluções mágicas, contrariando tudo aquilo que preconiza no ponto de vista de razoável, de lógico e de prudente que a população deveria adotar"

Na avaliação de Crispim, a população precisa ter consciência de que a doença é altamente transmissível e deve aderir as medidas de prevenção como o distanciamento físico, uso de álcool ou sabonete para higiene das mãos e de máscaras de proteção facial.

"As pessoas precisam entender que não existe tratamento precoce. O esquema de vacinação ainda está muito incipiente por uma falta de estratégia adequada para garantir as doses em quantidade e no momento certo. Além disso, existe um limite para a capacidade de expansão da nossa assistência de saúde. Não adianta dizer que o governo precisa continuar abrindo leito", elencou.

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