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"Terceira onda da Covid-19 deve começar no ES entre março e abril", diz secretário

A preocupação do momento, ressaltou Nésio Fernandes, é que, dado o reconhecimento do risco da sazonalidade das doenças respiratórias, é possível uma nova fase de aceleração

Economia do ES começa a se recuperar após a crise causada pelo coronavírus
Nova aceleração de casos de Covid-19 pode acontecer nos meses de março e abril . Crédito: Stock/Adobe

Desde que foi declarada a pandemia da Covid-19 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) há quase um ano, o Espírito Santo já vivenciou dois picos da transmissão do coronavírus, desaceleração e estabilidade. Há agora a possibilidade de um novo crescimento, associado à sazonalidade das doenças respiratórias nos meses de março e abril, mas será esse movimento definido como a terceira onda? 

O secretário estadual da Saúde, Nésio Fernandes, apontou que "onda" no contexto da pandemia suscita uma série de conceitos,  e uma definição adotada por vários países é aquela em que, depois do crescimento, há uma redução radical da transmissão e quase zera o número de novos casos. Assim, um eventual aumento registrado depois, é tratado como uma segunda onda.  

"Aqui, nós reconhecemos os ciclos de desastre. Então, nos ciclos de desastre, há uma fase de aceleração, uma fase de estabilização, de recuperação, e nova estabilização já em recuperação. Tivemos no Espírito Santo, no desenho do ciclo de desastre, duas fases de aceleração da curva de casos, duas de estabilização e duas fases de recuperação. Vivemos uma das fases de recuperação do ciclo de desastre a partir do dia 25 de janeiro até ao longo do mês de fevereiro", descreveu. 

A preocupação do momento, ressaltou Nésio Fernandes, é que, dado o reconhecimento do risco da sazonalidade das doenças respiratórias, é possível uma nova fase de aceleração neste e no próximo mês.

"Reconhecendo no conceito de ciclo de desastre as fases de aceleração, estabilização e recuperação, nós poderíamos ter no Espírito Santo uma terceira fase de aceleração da curva de casos, e poderíamos desenhar graficamente três oscilações, três grandes ondas no Estado", afirmou. 

Ao passo que, se adotarmos o conceito de outros países que esperam uma transmissão praticamente zerada para considerar uma nova onda, o Brasil teve apenas uma grande onda,  com oscilações. Mas, para Nésio Fernandes, trata-se de uma discussão de conceitos, e o mais importante é que as pessoas tenham consciência dos riscos da doença e as medidas que precisam ser adotadas para prevenção, como não aglomeração e uso de máscaras enquanto a vacinação não alcança boa parte da população. 

"TEMOS MUITO O QUE APRENDER SOBRE ESSA DOENÇA"

A definição de onda ainda é, de certa forma, incerta. Enquanto alguns especialistas defendem que o Espírito Santo já vive uma terceira fase da doença por apresentar período de desaceleração do avanço da Covid-19 sobre o Estado, intercalados com picos de contaminação, há aqueles que apontam que uma nova onda é caracterizada por um aumento considerável nos indicadores após um desaparecimento da doença, algo que o Espírito Santo ainda não viveu.

Etereldes Gonçalves, membro do Núcleo Interinstitucional de Estudos Epidemiológicos (NIEE) e professor no curso de Matemática da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), pontua que de fato ainda não há uma definição precisa do que pode ser considerada uma nova onda de uma doença. Ele argumenta que a imprecisão está justamente em como deve ser analisado o período entre os picos, ou seja, se uma redução dos casos já configura um intervalo entre ondas ou se apenas o desaparecimento da doença deve ser considerado.

"De fato, temos uma definição não muito precisa do que é uma nova onda de contaminação de um certo patógeno. A imprecisão na definição leva a estas divergências. Uma agência europeia define que 'esse crescimento exponencial é seguido do desaparecimento ou quase desaparecimento de casos'. A imprecisão está no termo 'quase desaparecimento'", explicou.

Etereldes Gonçalves destacou, porém, que um fator que pode representar uma segunda onda é a infecção em massa por uma nova variante do vírus, algo que já está acontecendo no Brasil, mas que ainda não afetou o Espírito Santo. No Estado, como ressaltou o professor, os indicadores não tiveram uma redução significativa, o que dificulta a classificação de nova onda.

"Se antes de quase zerar os casos temos a confirmação de uma nova variante que pode reinfectar as pessoas, isso gera um nova onda, é o caso do Brasil. Não sabemos se foi o caso da segunda expansão no Espírito Santo. Não chegamos a ficar sequer abaixo de 1/4 do primeiro pico. No entanto, os epidemiologistas já entendem que tivemos uma segunda onda aqui. Temos muito o que aprender ainda sobre essa doença", afirmou.

Etereldes Gonçalves

membro do Núcleo Interinstitucional de Estudos Epidemiológicos (NIEE) e professor de Matemática da Ufes

"Não temos confirmação de que uma nova cepa gerou a segunda expansão. Mas tivemos uma segunda expansão de casos maior que a primeira. Como a definição é imprecisa, chamar de segunda onda não chega a ser errado. Certamente, podemos chamar de segunda no Amazonas. Lá, tivemos uma nova cepa dominante da segunda expansão"

Por outro lado, o infectologista Crispim Cerutti Júnior explicou que o conceito de ondas em relação ao comportamento de doenças infecciosas tem como base a Gripe Espanhola, que dizimou milhões de pessoas em todo o mundo entre 1918 e 1920. A diferença, porém, é que a Gripe Espanhola era imunizante, ou seja, não havia casos de reinfecção, como há nos casos do coronavírus.

"É uma visão esquemática, porque esse conceito de ondas vem do modelo que temos da Gripe Espanhola, em que tinha uma explosão da doença em uma determinada região. Era uma doença imunizante, então as pessoas tinham imunidade e diminuía o número de casos. Quando se acumulavam pessoas mais suscetíveis à contaminação, vinha um segundo momento da doença, formando ondas da doença. Esse modelo é mal adaptado para a Covid-19. Você tem uma curva e, depois um momento de regressão dessa curva, mas essa doença não é imunizante, as pessoas se reinfectam", observou.

Crispim ainda reiterou que o comportamento da doença no Espírito Santo é típico de uma onda única, com períodos de redução dos indicadores e épocas de reaquecimento da transmissão do vírus. Segundo o infectologista, porém, esse conceito de ondas é possível de ser utilizado em países europeus, que tem territórios pequenos e uma população mais homogênea. Em casos de nações com proporções continentais, como o Brasil e os Estados Unidos, onde o avanço da Covid-19 foi mais incisivo e devastador, a realidade é diferente.

"Seria uma única onda que tem tendência a reduções e tem recrudescimentos, uma instabilização, você tem uma aparente calmaria dentro do processo que, de repente sofre um reaquecimento. Só queria fazer uma ressalva de que isso é uma realidade para nós, um país continental, com população heterogênea, com diferentes dinâmicas de transmissão, essa dinâmica é mais característica desse espaço geográfico. Na Europa, o conceito de ondas é mais aplicável", disse.

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