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Disparada de preços no país tem mudado a alimentação das famílias brasileiras
Disparada de preços no país tem mudado a alimentação das famílias brasileiras. Crédito: Arte A Gazeta

Osso, soro de leite e biscoito 'matam' a fome em época de comida cara

Pele de frango, macarrão instantâneo, ossos, restos de frios e alimentos similares aos tradicionais, mas com qualidade inferior,  são vistos nos supermercados; embora ofereçam risco à saúde, eles se tornaram alternativa contra a inflação

Tempo de leitura: 6min
Publicado em 02/08/2022 às 07h49

A disparada de preços no país tem mudado a alimentação das famílias brasileiras. Sem ter o que colocar na mesa, os "subalimentos", ou seja, alimentos com baixa qualidade, tornaram-se a principal saída de quem sofre os reflexos da inflação e do crescimento da pobreza. Apesar de os riscos que oferecem à saúde, eles começaram a ser comprados para saciar a fome.

O feijão comum, por exemplo, passou a ser substituído pelo de bandinha, normalmente utilizado em rações para animais. A carne vermelha perdeu espaço para miúdos, ossos e outros cortes de terceira. Nos supermercados, também já é possível encontrar desde misturas de queijo ralado até soro de leite como substituições.

Foi observado ainda que os consumidores elevaram as compras de produtos como biscoitos, salgadinhos e refrigerantes, segundo um monitoramento da empresa de inteligência de mercado Horus. A venda de macarrão instantâneo e salsicha, conhecidos pelo baixo preço, também não fica para trás (confira alguns exemplos no final da matéria).

De baixa qualidade e sem valor nutricional, esses produtos costumam ser os únicos substitutos possíveis para as famílias que não têm condições financeiras de comprar outras variedades. Eles "enganam o estômago", mas não são as melhores opções para um cardápio diversificado e saudável.

Os "subalimentos" estão sendo vistos com frequência no Brasil. Em Vila Velha, uma loja foi criticada na internet após vender pele de frango, um produto que normalmente é doado ou até jogado fora. No final de 2021, ossos ainda começaram a ser vendidos em um açougue de Santa Catarina. Em Mato Grosso, pessoas chegaram a fazer fila para receber a doação de produto similar.

DE VOLTA NO MAPA DA FOME

Dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) mostram que o Brasil já soma atualmente 33,1 milhões de pessoas sem ter o que comer todos os dias, quase o dobro do contingente estimado em 2020.

O país também voltou neste ano ao Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), da qual não fazia parte desde 2015.

Somente no Espírito Santo, cerca de 1,6 milhões de pessoas estão na zona de insegurança alimentar, ou seja, têm preocupações sobre o acesso à comida. Esse valor representa 40% de toda a população capixaba.

O economista e mestre em Economia Ricardo Paixão aponta que os principais agravantes desse cenário são a pandemia e a inflação provocada pela guerra entre Rússia e Ucrânia. Ele defende, ainda, que o atual salário mínimo já não é suficiente para o trabalhador manter sua subsistência.

"Muitas pessoas perderam o emprego na pandemia, e outras tiveram a redução da jornada e do salário. Já a guerra entre Ucrânia e Rússia afetou a oferta de combustíveis, grãos e alimentos no mundo todo. Isso fez com que houvesse uma elevação generalizada do preço dos produtos, mas com efeito devastador na alimentação", afirma.

Por causa dessas mudanças, explica Paixão, surgiu o fenômeno da "substituição", que consiste na troca de itens normalmente usados no dia a dia por outros que caibam no bolso. Segundo ele, a alimentação ocupa em torno de 80% do orçamento das pessoas.

"O problema é que, além da alimentação, as famílias têm outras demandas, como aluguel, contas de luz e água. Como a alimentação está tendo um impacto mais elevado, acabam fazendo essa substituição por itens menos nobres, desde a pele de frango até o soro de leite", avalia.

É PERMITIDO POR LEI? 

Sandra Lengruber da Silva, promotora de Justiça do Consumidor de Vitória, explica que não existe nenhum impedimento legal quanto à comercialização desses alimentos. No entanto, defende que as empresas devem informar aos clientes a qualidade do produto que estão comprando.

Sandra Lengruber da Silva

Promotora de Justiça do Consumidor de Vitória

"Não há uma proibição, a priori, genérica, do Código de Defesa do Consumidor, sobre a venda desses alimentos. Mas, junto com isso, existem princípios que precisam ser respeitados, como da dignidade e da saúde do consumidor e do dever de informação. Os fornecedores, desde o produtor até o exportador, são obrigados a dar as informações corretamente"

Em julho deste ano, o Procon de São Paulo notificou por "falta de clareza" um supermercado que vendia bebida láctea na mesma prateleira dos leites. O produto, conforme mostrou o G1, estava sem qualquer tipo de identificação e possuía as mesmas características de uma caixinha comum.

O fato causou confusão entre os consumidores, especialmente pela diferença de preço: a bebida à base de soro custava apenas R$ 4,75, enquanto o leite já tinha alcançado a marca de quase R$ 10 na capital paulista.

"As proibições (da venda) podem até não existir, mas muitas irregularidades passam desapercebidas pela falta de informação. Se é um soro, e não um leite em pó comum, isso precisa ficar claro de alguma forma. O consumidor tem que saber o que está adquirindo naquele pacote", defende.

PERIGOS À SAUDE

Apesar de caberem melhor no bolso do consumidor, especialistas apontam que esses 'subalimentos' podem representar um risco à saúde. Sem valor nutricional, eles têm muitos conservantes e substâncias que servem apenas para dar textura e sabores artificiais à comida, por exemplo.

"São ultraprocessadas que atrapalham o metabolismo, o bom funcionamento do corpo e estimulam o aparecimento de doenças em quem tem pré-disposição genética. Eles ainda acabam reforçando alguns quadros crônicos, como de diabetes e câncer", detalha a nutricionista Nathalia Albuquerque. 

COMPONENTES PREJUDICIAIS EM ALGUNS SUBALIMENTOS

  • Pele de frango: Por apresentar um nível considerável de gorduras saturadas, contribui para o entupimento de artérias e também para a obesidade.
  • Miojo: Altas taxas de glutamato monossódico (realçador de sabor) e sódio;
  • Misturas de queijo ralado, leite condensado e creme de leite: Possuem muito amido na composição. O amido é rico em glicose e, por isso, contraindicado sobretudo para diabéticos;
  • Soro de leite: Não é contraindicado, mas não tem os mesmos componentes nutritivos do leite comum. Pode causar um maior desconforto em quem possui intolerância à lactose.

A alta taxa de sódio e de glicose desses produtos, conforme ela explica, também pode ser perigosa. Misturas de queijo ralado, requeijão e creme de leite, além do "famoso" miojo, elevam o risco de problemas cardiovasculares. 

Albuquerque também ressalta que as pessoas pretas são as que mais correm risco de adoecer, pois grande parte enfrenta más condições de trabalho. Consequentemente, comem pior e possuem mais dificuldade de acesso à saúde, defende. 

"Gestantes e lactantes que precisam de uma quantidade maior de nutrientes e que estão à mercê dessa situação também podem ficar prejudicadas. Dependendo da condição fisiológica dessas mulheres, vão precisar de uma demanda ainda maior, já que esses alimentos são extremamente nocivos", salienta Albuquerque.

CRISE DOS PREÇOS ALTOS x ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL

Para garantir o acesso à comida de qualidade, são necessarias diferentes políticas públicas, como defende a professora do curso de Nutrição da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Maria Del Carmen Bisi Molina.

"O governo precisa dar imediatamente um suporte para essa parcela da população. Quem tem fome, tem pressa de se alimentar. Infelizmente, sem comida em quantidade e qualidade adequadas, é impossível ter saúde", destaca.

Já as pessoas que ainda conseguem, mesmo com dificuldade, colocar alguma comida na mesa, também devem seguir algumas dicas para obter uma alimentação saudável neste momento de crise. A principal delas, segundo Molina, é evitar as comidas ultra processadas.

"Um hambúrguer industrial, aquele individual, é barato, mas será que você não pode fazer ele em casa? Compra uma carne moída, coloca alguns temperos, que vai ficar mais barato do que se você comprar um quilo de hambúrguer ultra processado. Claro que dá mais trabalho, só que a ideia de uma alimentação saudável é você ter o prazer de cozinhar", orienta.

Ela também orienta a ida às feiras, sobretudo no momento da "xepa", para pegar boas promoções. "As feiras também são importantes, porque, no final, sempre têm alimentos que não foram comercializados e que podem ser usados".

10 ALIMENTOS QUE ESTÃO INDO PARA A MESA EM ÉPOCA DE INFLAÇÃO ALTA

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    Pele de frango vira opção mais barata de carne

    Em junho deste ano, uma imagem que mostra bandejas de pele de frango sendo vendidas em um supermercado no Estado viralizou na internet. Na foto, o produto — que tradicionalmente costuma ser doado ou até jogado fora — é anunciado por R$ 2,99 o quilo. O estabelecimento, que é de Vila Velha, afirmou que fez o recolhimento dos produtos.

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    Menos conhecido entre os consumidores, esse feijão é normalmente utilizado como ração de animais. Algumas marcas já são compostas por 70% de grãos inteiros e 30% feijão bandinha (partido). Ele pode ser até 15% mais barato que um feijão comum, do tipo carioca.

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    Mais amido

    O requeijão, por exemplo, também passou a ter adicional de amido na sua composição. Se comparado com um produto similar, de melhor qualidade, a diferença de valor chega a ser de mais de R$ 2.

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    Miúdos e cortes de terceira

    Com o valor atrativo, o dorso de galinha passou a ser ainda mais comercializada nos últimos meses. Em alguns supermercados, ele já sai por menos de R$ 3 o quilo.

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    Biscoitos, miojo e embutidos

    Os consumidores também elevaram as compras de produtos como biscoitos recheados, embutidos (salsicha é a principal delas) e miojos, devido ao baixo preço.

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