ASSINE

O que dizem especialistas na semana em que volta às aulas será definida

Profissionais da saúde acreditam que não é o melhor momento e retorno representa riscos para professores e alunos. Já o   Sindicato das Empresas Particulares de ES justifica a retomada com a comparação a outros segmentos que estão em atividade

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 03/05/2021 às 21h46
Alunos da Escola Major Alfredo Rabaioli, no bairro Mário Cypreste, com distanciamento entre eles na sala de aula
Na Escola Estadual Major Alfredo Rabaioli, protocolos como o distanciamento foram implementados em outubro passado. Crédito: Carlos Alberto Silva

Os indicadores da Covid-19 começaram a dar sinais de melhora, colocando o Espírito Santo num cenário menos crítico do que era registrado quando as atividades presenciais foram suspensas nas escolas, em março. Ainda assim, a volta às aulas não foi autorizada e o retorno é motivo de discussões do segmento educacional com o governo. Para subsidiar o debate, vale observar qual era o cenário do Estado quando as aulas foram retomadas em 2020, e se vivenciamos um momento adequado para reabrir as instituições de ensino para os alunos. 

O mapa de risco vigente nesta semana tem 56 municípios no nível alto de transmissão do coronavírus e 22, no moderado. No ano passado, quando as aulas voltaram, o cenário que se apresentava no final de setembro e baseou a decisão do governo era de 75 cidades em risco baixo e três (Montanha, Piúma e São José do Calçado), no moderado. Estas, inclusive, não foram autorizadas a restabelecer a aula presencial enquanto não reduziram os índices de contágio, casos e mortes. 

Em outubro, quando as aulas foram retomadas nas escolas, registrou-se o segundo menor índice de mortes da pandemia, com 294 casos, após uma sequência de quatro meses em queda no número de óbitos no Estado, segundo dados do Painel Covid-19, ferramenta da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) com monitoramento diário sobre a doença.

Agora, o Espírito Santo começa maio com um ritmo menor de contágio e, consequentemente, de óbitos, porém foram dois meses seguidos de recordes. Apenas março e abril, juntos, contabilizaram 32% das mortes de todo o período da pandemia.

A quarentena implementada no Estado, de 18 de março a 4 de abril, conseguiu diminuir a taxa de transmissão, se refletindo no número de mortes e na pressão sobre o sistema de saúde que, no cenário mais crítico, ultrapassou a marca de  90% de ocupação de leitos de UTI. Nesta segunda-feira (3), registra 84,21%.

CÍRCULO VICIOSO

Para o infectologista Luís Henrique Borges, no entanto, a taxa de utilização dos leitos hospitalares não deve servir de medida para liberar a volta às aulas presenciais, sob pena de o Estado entrar num círculo vicioso: esvazia leitos, flexibiliza as atividades, as pessoas adoecem, ocupam-se as vagas novamente  - e podem morrer porque a internação não é garantia de sobrevivência ao vírus. 

"A questão não pode ser apenas garantir a vaga de UTI. Se a educação é essencial, a categoria tem que ser tratada como essencial na vacinação. O problema é que não houve essa discussão no país de quais atividades são essenciais, e que precisam ser retomadas, para que tenham prioridade na vacinação", observa Luís Henrique, que atua na Rede Meridional. 

O médico diz que é importante lembrar que, ao reabrir as escolas, crianças e adolescentes têm menos risco de agravamento caso sejam infectados, mas professores, funcionários do setor administrativo e de limpeza estão mais suscetíveis à contaminação e ao desenvolvimento de um quadro grave. 

Luís Henrique acrescenta que cerca de 40% das pessoas que contraem o coronavírus são assintomáticas e, portanto, podem transmitir sem nem mesmo saber que estão doentes. "O vírus não chega pela janela, voando. São as pessoas que transmitem e a escola é um espaço em que essa situação é fácil de ocorrer", pontua. 

Pós-doutora em Saúde Coletiva e coordenadora do doutorado em Direito da FDV, Elda Bussinger também avalia que, sem vacinação, o momento atual não é o mais adequado para o retorno presencial às escolas. 

"Momento ideal seria se tivéssemos realmente feito um controle da pandemia, e os professores estivessem todos vacinados. Assim haveria menos riscos, e não me parece que seja agora. Um retorno sem a vacinação, coloca em risco não apenas os professores e suas famílias, mas também as crianças e as famílias delas", adverte. 

No Espírito Santo, a vacinação de professores foi antecipada a critério do governo do Estado, utilizando-se da reserva técnica de 5% das doses que o Ministério da Saúde encaminha toda semana. Desse percentual, 70% são para a educação, 30% para profissionais da segurança.

A imunização começou no mês passado e, na estimativa populacional apresentada pela Sesa, o Estado tem 51.930 trabalhadores da educação, dos quais 23% receberam a primeira dose até esta segunda-feira, conforme o balanço do Painel Covid-19. 

REGRAS

A abrangência da imunização ainda é baixa e, para Elda Bussinger, o risco é alto. A professora cita o exemplo da educação infantil, em que crianças menores não são obrigadas a usar máscaras. E, mesmo as que já estão na faixa etária para usar, podem ter dificuldades em adotar a regra porque estão na fase de elaboração do comportamento, um processo de formação. 

Elda Bussinger

Pós-doutora em Saúde Coletiva

"Por mais que esperemos que as crianças tenham um comportamento adequado, não estamos conseguindo isso nem com os adultos. Temos comportamentos distópicos, inclusive em grupamentos economicamente avançados, intelectualmente favorecidos. Temos na nossa sociedade uma cultura de violação de regras "

Para Elda Bussinger, governos estaduais, como o Espírito Santo, vivenciam uma grande pressão de todos os segmentos - econômico, profissional e sociedade -  nos debates sobre a flexibilização das atividades, a exemplo das escolas, e, em sua opinião, é por esse motivo que as decisões devem ser baseadas na ciência, seguindo critérios técnicos, ainda que uma parcela desses grupos não fique satisfeita. 

PREJUÍZOS

Ela reconhece que a educação, particularmente, sofrerá um enorme prejuízo com períodos tão prolongados de suspensão de atividades presenciais, sobretudo na rede pública, e frisa que os gestores deverão fazer investimentos significativos para recuperar o tempo perdido. No ano passado, foram sete meses; em 2021, já passa de 40 dias. 

Em coletiva nesta segunda-feira, o secretário estadual da Saúde, Nésio Fernandes, foi questionado sobre quando o Estado vai definir o retorno presenciais às escolas, mas ainda não há uma resolução. Ele disse que o governo está em discussão com os representantes sindicais de escolas e profissionais, bem como o Ministério Público, para tentar chegar a um consenso. A decisão deverá ser apresentada até sexta-feira (7). 

"Entendemos que a educação precisa ser protegida, principalmente na fase de recuperação de indicadores.  Estamos discutindo a retomada segura e, ainda nesta semana, as decisões serão anunciadas", afirmou Nésio Fernandes, em consonância com o que já havia sido declarado pelo governador Renato Casagrande, em pronunciamento na última sexta-feira (30). Na ocasião, ele disse que o governo esperava poder dar um passo adiante em relação ao funcionamento de escolas situadas nos municípios de risco alto. Hoje, nessas cidades o ensino permanece remoto, e atendimento presencial somente se for individual, de professor e aluno. 

Eduardo Costa Gomes, vice-presidente do Sindicato das Empresas Particulares de Ensino do Espírito Santo (Sinepe-ES), ressalta que duas entidades médicas no Estado - a Sociedade de Infectologia e a de Pediatria - já se manifestaram favoráveis ao retorno, pontuando que o prejuízo de manter as escolas fechadas é muito grande. 

Do ponto de vista epidemiológico, observa Eduardo Gomes, se fosse para manter atividades fechadas nos municípios de risco alto, a medida deveria ser extensiva a todos os segmentos, de comércio e serviços, e apenas unidades de saúde ficariam abertas. No momento, esses setores já foram flexibilizados, mas escolas permanecem impedidas de ter atividades presenciais. 

"É preciso ter bom senso para pensar e criar condições, soluções no contexto em que vivemos. Hoje é um fato consumado o prejuízo acumulado pela escola fechada, principalmente para a primeira infância - as crianças da educação infantil e do primeiro ciclo do ensino fundamental. É um prejuízo grande demais para ser negligenciado. Muitas pessoas não conseguem enxergar que o impacto será de médio e longo prazos para esta geração. A escola está fechada enquanto todo o resto está aberto. É preciso refletir sobre quais são as prioridades", frisa o vice-presidente do Sinepe. 

Eduardo Gomes reconhece que as crianças se infectam menos e que os profissionais estão mais vulneráveis à contaminação, mas argumenta que é preciso buscar alternativas.  "Ou criamos uma solução e aprendemos a conviver, ou passamos a negar o que também é ciência: a constatação dos prejuízos que são assumidos pela falta da escola. Na decisão que vier a ser tomada, não se pode considerar apenas as características epidemiológicas; é preciso pensar no contexto da medicina social e o que é possível fazer para o retorno presencial."

Confiante de que o governo possa começar a liberar as atividades nas escolas a partir da próxima semana, Eduardo Gomes acrescenta que, quando o retorno for autorizado, possivelmente não voltarão todos de uma só vez. A retomada será gradual, mas ele reforça que é importante que aconteça.  O vice-presidente do Sinepe acredita, ainda, que o ambiente escolar é mais seguro, por ser controlado, do que os outros espaços que as crianças têm frequentado pela falta da escola, como parquinhos ou casas de cuidadores. "Na escola, temos protocolos e condições de regular a interação, de exigir o cumprimento das normas que não rua e na pracinha não se tem", finaliza. 

Educação Coronavírus no ES Covid-19 Vacina Vacinas contra a Covid-19

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.