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Fake news sobre Covid-19 afetam vacinação de crianças em cidades do ES

Fake news sobre Covid-19 afetam vacinação de crianças em cidades do ES

Após três meses de campanha, cerca de um terço das cidades capixabas ainda não atingiu nem 50% de cobertura vacinal contra a Covid-19, sendo que a meta é chegar a 90%

Publicado em 5 de maio de 2022 às 20:16

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Desde o início da vacinação contra a Covid-19, o número de casos e óbitos provocados pela doença reduziu substancialmente, permitindo a volta de uma relativa normalidade, embora o vírus ainda circule. Entretanto, o Espírito Santo continua a lidar com o desafio de imunizar crianças com mais de 5 anos, principalmente por causa da onda de desinformação e disseminação de desinformações sobre o impacto dos imunizantes na saúde dos pequenos.

Autorizada em janeiro deste ano, a vacinação infantil contra o coronavírus é a principal medida de proteção contra a doença. Porém, um levantamento realizado pelo Tribunal de Contas do Espírito Santo (TCE-ES) mostra que, após três meses de campanha, cerca de um terço das cidades capixabas ainda não atingiu nem 50% de cobertura vacinal contra a Covid-19, sendo que a meta é chegar a 90%.

Vitória foi a primeira cidade do Estado a iniciar a vacinação em crianças.
Vitória foi a primeira cidade do Estado a iniciar a vacinação em crianças. (André Sobral)
Fake news sobre Covid-19 afetam vacinação de crianças em cidades do ES

A onda de desinformação sobre o impacto dos imunizantes na saúde dos pequenos é apontada como principal razão para a baixa adesão à vacina — uma decisão que afeta não somente os pequenos, mas também outras pessoas, uma vez que, por não estarem vacinadas, as crianças acabam contribuindo para a disseminação do vírus e o surgimento de novas variantes, que podem afetar até quem já se vacinou.

Também contribui para isso o fato de que, por apresentarem, geralmente, um quadro de infecção leve ou assintomático, as crianças são o grupo menos testado para o coronavírus, conforme a Sociedade Brasileira de Imunologia.

Aliás, por acreditar que a Covid-19 não traz complicações nesta faixa etária, as famílias não têm autorizado a vacinação das crianças, de acordo com a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). Contudo, nenhuma outra doença para a qual já existe vacina disponível matou mais crianças no Brasil em 2021 do que a Covid-19. 

Até o final do ano passado, o país somava 1.449 mortes de meninos e meninas de até 11 anos em decorrência do novo coronavírus e mais de 2.400 casos da Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P) associada à Covid-19, conjunto de sintomas graves que podem levar à morte, desde o início da pandemia, segundo o Ministério da Saúde.

Vacina da Pfizer para crianças
Vacina da Pfizer para crianças. (Pfizer)

O conselheiro do TCE-ES, e relator do processo sobre vacinação no Tribunal, Domingos Taufner, reforça que a principal causa identificada para a baixa adesão à vacina nos municípios é a disseminação de notícias falsas.

“Desde o final de 2020, começaram a compartilhar que pessoas haviam morrido por causa de vacinas. Foi desmentido depois, mas há um grupo que é resistente em acreditar que é segura, principalmente para crianças. Os pais e mães ficaram resistentes em levar as crianças para vacinar.”

Para Taufner, a situação é preocupante, inclusive porque tem afetado também a busca por outras vacinas, consideradas obrigatórias e essenciais na infância, como a vacina contra o sarampo e a poliomelite, ou paralisia infantil, conforme já mostrado por A Gazeta. Com indíce de crianças imunizadas abaixo do adequado, o risco é de retorno das doenças potencialmente fatais, e que podem ser evitadas.

“As vacinas foram um dos grandes avanços da humanidade nos últimos 100 anos. A mortalidade no passado era muito alta. As pessoas falam: a vacina contra a Covid-19 foi produzida rapidamente. Mas hoje a tecnologia é muito mais avançada do que quando outras vacinas foram criadas, e as pessoas tomavam no passado, e ninguém reclamava.”

O relator do processo do TCE-ES, que acompanha a vacinação contra a Covid-19 nos municípios, observa, porém, que embora o risco de adoecimento das crianças não imunizadas seja o problema mais grave, não é o único.

“Existem doses suficientes para vacinar as crianças, mas essas doses que estão nos postos têm uma validade. E, quando o grupo a quem são destinadas não se vacina, as doses podem perder a validade e é um prejuízo não só para o poder público, mas para a sociedade, é dinheiro jogado fora.”

Sobre este ponto, a Sesa informou, nesta terça-feira (3), que não há vencimento próximo de doses da Covid-19, e ressaltou que "realiza orientações frequentes junto aos municípios para fortalecimento de estratégias que visam a redução de perdas de doses, além de possuir o processo de distribuição das doses por parte da Central Estadual de Rede de Frio de acordo com a necessidade de cada município."

Taufner explicou que esse processo de fiscalização da imunização contra a Covid-19. foi iniciado em 2021 e, desde então, já foram produzidos cinco relatórios. A partir da análise dos dados da vacinação infantil, iniciada neste ano, o TCE-ES está recomendando aos municípios que façam um processo rigoroso de mobilização para orientar as pessoas acerca da importância da vacinação.

Além dos boatos o Tribunal apontou outra possível causa para a baixa adesão à vacinação de crianças contra a Covid-19: a falta de integração entre secretarias de saúde e educação, que tem mais facilidade de chegar aos pais dessas crianças, para informá-los acerca da necessidade das vacinas.

Questionada sobre o baixo índice de busca pelo imunizante infantil, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), por meio da coordenação do Programa Estadual de Imunizações (PEI), informou que tem incentivado estratégias de vacinação entre os municípios desde o início da vacinação contra a Covid-19 no Espírito Santo.

“A equipe do PEI considera que um dos fatores da baixa adesão da vacinação pediátrica é a desinformação e fake news que geram receio, principalmente em relação a eventos adversos pós-vacinação. Esclarece que famílias não têm autorizado a vacinação das crianças também por acreditar que a Covid-19 não traria complicações nesta faixa etária.”

A Sesa destacou também que o trabalho de orientação aos municípios é permanente, sendo estimulado atuação junto às escolas em um trabalho de educação em saúde sobre a importância da vacinação, bem como ação efetiva de vacinação nas escolas.

Além disso, a pasta informou que tem realizado interlocução com a Secretaria de Saúde (Sedu) e Unimed para apoio nas ações. “A equipe do PEI tem orientado os municípios que aproveitem todas as oportunidades de vacinação para ofertar o imunizante contra a Covid-19 para crianças e adolescentes. Também tem trabalhado no incentivo da ampliação dos pontos e horário de vacinação.”

IMUNIZAÇÃO OCORRE DE FORMA DESIGUAL NOS MUNICÍPIOS

Além disso, a imunização está ocorrendo de forma desigual entre os municípios. Até o dia 26 de abril, apenas Laranja da Terra havia conseguido ter mais de 80% das crianças vacinadas com pelo menos a primeira dose.

Enquanto isso, GuarapariMarataízesSão Gabriel da Palha e Cachoeiro de Itapemirim não chegam nem a 40% das crianças imunizadas com a primeira dose, segundo o levantamento do TCE-ES.

Prefeitura de Guarapari, através da Secretaria de Saúde (Semsa), informou que, desde o início da vacinação contra a Covid-19, está empenhada em atingir a meta de vacinação de cada público prioritário, “e com a vacinação das crianças de 05 a 11 anos não é diferente, o município publicou decretos sobre a importância, entre eles o decreto de nº 171/2022, que recomenda a vacinação para matrícula e rematrícula nas escolas”.

A secretaria frisou ainda que “vem planejando estratégias de vacinação, oferecendo vacina contra a Covid Infantil através de livre demanda ou por agendamento, em diferentes dias da semana, até com horário estendido e em locais diferentes, além de investir em divulgação, mas os pais ou responsáveis precisam compreender que a vacina é realmente necessária.”

Outras cidades também estão com percentual de crianças imunizadas muito abaixo do esperado. Na Serra, município com maior população no Espírito Santo, somente 41,81% da faixa entre 5 a 11 anos foi vacinada contra o coronavírus.

A Secretaria de Saúde do município informou, em nota, que abre agendamento com novas doses de vacina contra o coronavírus todas as segundas e quintas-feiras, às 18 horas, pelo site da Prefeitura da Serra, e que há vagas para todos os públicos e imunizantes, inclusive para crianças. O município também vacina contra a Covid-19 em pontos sem agendamento, de segunda a sexta, das 9 às 17 horas, e no sábado, da 10 às 17 horas. Um dos locais em que o serviço é oferecido é o shopping Montserrat, no bairro Colina de Laranjeiras.

Nas Unidades de Saúde da Serra, a vacinação é agendada e, o acolhimento sem agendamento, ocorre de acordo com a capacidade de cada equipe e disponibilidade do imunizante.

"As ações sem agendamento e extramuros, que acontece em centros comunitários, quadras, escolas, têm atraído a atenção dos moradores, bem como mobilizações em parceria com outras secretarias. Nesta quarta (20), das 8 às 17 horas, Saúde e Assistência Social estarão no Centro de Referência da Assistência Social (Cras) de Laranjeiras, com múltiplos serviços, entre eles, de vacinação para toda a família. Porém, para avançarmos ainda mais na proteção desse grupo de crianças, é necessária uma busca dos pais ou responsáveis ao serviço de saúde do município."

Outra cidade que enfrenta problema semelhante é Linhares, na Região Norte do Estado, onde o percentual de crianças imunizadas com pelo menos a primeira dose da vacina chega somente a 43,47%. Também entram na lista de municípios com baixa adesão: Sooretama (43,79%), Marilândia (44,2%), Afonso Cláudio (44,21%) e Vila Velha (44,59%).

Esta última informou, por meio de sua Secretaria de Saúde, que, até o dia 26 de abril, já havia aplicado 27.112 doses da vacina no público de 5 a 11 anos de idade, tendo a mesma média de doses aplicadas em crianças na Grande Vitória, de acordo com dados do Vacina e Confia.

“O município oferece uma quantidade apropriada de doses semanalmente para as crianças. Toda semana, há agendamento disponível nos sites, além da oferta por demanda espontânea, onde não é preciso agendar, de segunda a sexta-feira e aos sábados. Além disso, a cidade promove as vacinações noturnas, semanalmente.”

A pasta destacou ainda que, em abril, mais de 15 escolas de Vila Velha receberam a vacinação infantil. Contudo, reforçou que “para que a vacinação ocorra, os pais e/ou responsável legal devem assinar a declaração [autorizando a vacinação] ou estar presente no momento da imunização, portando o cartão de vacina da criança.”

Os demais municípios citados também foram procurados pela reportagem, mas não se manifestaram até a conclusão deste texto, que será atualizado se houver resposta.

AS VACINAS CONTRA A COVID-19 UTILIZADAS EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES NO BRASIL

  • 01

    Pfizer-BioNTech - 5 a 11 anos

    O uso da vacina Cominarty, da Pfizer-BioNTech, em crianças entre 5 e 11 anos foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em dezembro de 2021. Para que fosse aprovada, diversos estudos clínicos, apresentados não só pela fabricante mas também por outras agências reguladoras, como a FDA (Estados Unidos) e a EMA (União Europeia), foram feitos e analisados. O parecer, unânime, foi de que a vacina é segura e eficaz, e adequada para inclusão no Plano Nacional de Imunização (PNI).

  • 02

    Coronavac - 6 a 17 anos

    Em janeiro de 2022, a Anvisa também autorizou o uso emergencial da CoronaVac, que é produzida com vírus inativado, para crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos, não imunocomprometidos. Foram avaliados diversos estudos que sugerem que a vacina é segura e benéfica para esta faixa etária.

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