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Esgoto do penicão de Jardim Camburi vai virar água em indústria na Serra

Esgoto do penicão de Jardim Camburi vai virar água em indústria na Serra

ArcelorMittal Tubarão usará material tratado na produção de aço, reduzindo a retirada do Rio Santa Maria e garantindo mais água potável para o consumo humano

Publicado em 3 de setembro de 2021 às 11:59

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Aline Nunes
Repórter de Cotidiano / [email protected]
Esgoto do penicão de Jardim Camburi vai virar água em indústria na Serra

Alvo de reclamação antiga dos moradores de Jardim Camburi, em Vitória, devido ao mau cheiro, a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) situada na área do Aeroporto de Vitória, nas imediações do bairro, deverá ser substituída por uma Estação Elevatória (EE) até 2025.

Com a mudança, as lagoas de resíduos - chamados pela população de "penicão" - serão esvaziadas e a água extraída pelo novo sistema vai ser utilizada pela ArcelorMittal Tubarão, produtora de aços planos localizada entre Serra e Vitória.

A indústria assinou com a Companhia Espírito Santense de Saneamento (Cesan), nesta quarta-feira (1º), um termo de compromisso para reaproveitar os efluentes e reduzir consumo de água do Rio Santa Maria pela siderúrgica. 

O famoso Penicão,  estação de tratamento de esgoto da Cesan em Jardim Camburi, será desativado
O famoso Penicão, estação de tratamento de esgoto da Cesan em Jardim Camburi, será desativado. (Marcelo Prest - 22/07/2015 / Arquivo AG)

O projeto prevê a construção de uma estação elevatória de esgoto bruto no lugar da ETE de Jardim Camburi, uma espécie de tanque que terá a função de bombear o material.

De lá, vai partir uma tubulação até o polo industrial da ArcelorMittal Tubarão, no bairro São Geraldo, na Serra, onde será implantada a nova estação de tratamento numa área de 11 mil metros doada pela siderúrgica.

Nessa nova unidade, a água será tratada e disponibilizada para fins industriais. É a chamada água de reúso, que não serve para consumo humano, mas poderá ser utilizada nas operações da companhia. A capacidade estimada de produção da estação é de até 200 litros por segundo.

No local onde hoje funciona a ETE, as lagoas serão esvaziadas e o lodo será destinado a um aterro sanitário. Toda a área será tratada e desinfectada. Serão investidos R$ 130 milhões em todo o projeto. 

O gerente de Parceria Público-Privada (PPP) da Cesan, Douglas Couzi, aponta que, com a implantação desse modelo, a previsão é que a planta capixaba da ArcelorMittal reduza o consumo no Rio Santa Maria, aumentando a disponibilidade da água para a população da Região Norte de Vitória e de seis bairros da Serra - Nova Carapina I, Eurico Salles, Bairro de Fátima, Manoel Plaza, Hélio Ferraz e Rosário de Fátima - beneficiando mais de 150 mil pessoas. 

"Cada vez mais a água se torna um bem escasso. Esse projeto vem, inclusive, em um momento que o país vive uma crise hídrica. Vamos utilizar a água que sobra do tratamento do esgoto, que era jogada fora, para fins industriais e, assim, liberar água doce para uma parcela da população", valoriza.

ETAPAS

Essa proposta começou a ser desenhada em 2017,  na gestão passada, quando o governo do Estado lançou o Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI), de modo a identificar empresas dispostas, entre outras medidas, a adquirir água de reúso (não potável) para fins industriais.

Na época, estimava-se que a licitação do projeto para as obras pudesse ser realizada ainda naquele ano e, se fosse cumprido o cronograma, no início de 2020 o novo sistema de tratamento de esgoto já estaria concluído. 

Douglas Couzi pontua que, desde o momento em que a ArcelorMittal demonstrou interesse, as duas empresas conduziram estudos de viabilidade técnica, econômica e financeira para a implementação da proposta.

A modelagem do projeto foi definida recentemente e, nesta quarta, a oficialização ocorreu com a assinatura do termo de compromisso com a participação do governador Renato Casagrande e do presidente da ArcelorMittal Brasil e CEO ArcelorMittal Aços Planos América do Sul, Benjamin Baptista Filho, que deixará o cargo em 30 de setembro e assumirá em 1º de outubro a presidência do conselho de administração do grupo no Brasil.

A próxima etapa, segundo Douglas Couzi, será a submissão do projeto ao Tribunal de Contas e à Procuradoria Geral do Estado (PGE) para validação e, então, será aberto um pregão na Bolsa de Valores de São Paulo, B3, para licitação das obras. Considerando os prazos legais, o gerente da Cesan estima que o projeto terá a ocorrência realizada no primeiro semestre de 2022. 

"Licitando, o início do contrato será ainda 2022 para  elaboração de projeto executivo e as licenças ambientais. As obras estão previstas para execução entre 2023 a 2025, com expectativas desse prazo até ser reduzido por consultas prévias ao mercado", calcula. 

Questionado se apenas a ArcelorMittal Tubarão terá direito à aquisição da água de reúso, o gerente da Cesan explica que, em um primeiro momento, a siderúrgica terá prioridade, mas o projeto prevê a ampliação. Se houver outros interessados, caberá a siderúrgica a responsabilidade de uma eventual subconcessão. 

O famoso Penicão,  estação de tratamento de esgoto da Cesan em Jardim Camburi, será desativada
O famoso Penicão, estação de tratamento de esgoto da Cesan em Jardim Camburi, será desativada. (Vitor Jubini - 28/07/2015 - Arquivo AG)

CONTRATO DE 25 ANOS

O acordo prevê a compra mensal para fins industriais de 540 m³/h (150 l/s) de água de reúso de esgoto sanitário. A aquisição será feita por contrato de 25 anos, que pode ser renovado.

O  gerente geral de Sustentabilidade e Relações Institucionais da siderúrgica, João Bosco Reis da Silva, conta que a empresa, ainda em 2014, havia estabelecido um plano diretor de águas, em sua política de sustentabilidade para reduzir o impacto ambiental da atividade, mas naquele momento não estava previsto o reúso de água de efluentes, e sim outras estratégias.

No ano seguinte, porém, com a crise hídrica e o racionamento que afetou a indústria, passou-se a analisar que medidas poderiam ser adotadas para diminuir a vulnerabilidade e, paralelamente, aumentar a segurança hídrica, tanto da empresa quanto da sociedade. 

"O pensamento era que não adiantaria encontrar uma solução intramuros e, do lado de fora (da empresa), ter uma situação insustentável", pontua o gerente da ArcelorMittal Tubarão. E, em conversas com o governo do Estado e estudos da própria siderúrgica, chegou-se à proposta de compra de água de reúso da estação de tratamento. Nas primeiras análises, ainda não havia definição sobre a unidade da qual partiria o recurso, mas com o avanço das avaliações técnicas e de viabilidade, a de Jardim Camburi foi a que melhor atendeu à demanda da siderúrgica pela sua capacidade de produção. 

João Bosco diz que, desde o fim das restrições determinadas pelo governo em 2016, a siderúrgica já havia decidido se impor um racionamento e limitou o consumo de água do Rio Santa Maria a  1.840m³/h. Com  a compra de água de reúso da ETE, com o novo projeto, estima-se uma nova redução de 540m3/h, o equivalente a quase 30%. Soma-se a essa iniciativa, a proposta de dessalinização da água do mar, cuja planta será inaugurada neste mês e que deverá reduzir a demanda sobre o rio em outros 30%. 

Embora reduza o consumo, a demanda sobre o rio sempre vai existir. João Bosco explica que, na empresa, circulam cerca de 10 mil trabalhadores - próprios e terceirizados - para os quais se requer água potável. Por essa razão, também, a siderúrgica investe na preservação de nascentes em Santa Leopoldina. 

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