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Covid-19: o que fazer para afastar o risco da quarta onda no ES

O Estado já registra aumento de casos em algumas regiões e maior aceleração poderá ser observada a partir de junho;  imunidade coletiva ainda está longe

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 30/05/2021 às 19h33
Vitória - ES - Ensaio: Muros e máscaras. Registros mostram a interação entre entre rostos cobertos com máscaras e arte na cidade em meio a pandemia de coronavírus.
Para evitar nova aceleração de casos de Covid-19, o uso de máscara continua indispensável mesmo entre as pessoas já vacinadas. Crédito: Vitor Jubini

A disseminação da Covid-19 pelo Brasil tem se desenhado, desde o início da pandemia, com diferenças regionais dada as dimensões do país. Em alguns locais, os picos de infecções e mortes provocadas pelo coronavírus se manifestam até meses antes que em outros. 

E esses movimentos de subida e queda nos indicadores vão colocando o país na iminência de uma terceira onda, enquanto há Estados que já estão em risco de enfrentar a quarta expansão da doença, como o Espírito Santo. A ameaça existe, mas o que se poderia fazer para evitar uma nova aceleração de casos?

Antes de responder à questão, é importante entender por que o Espírito Santo aparece nessa condição, embora no momento os dados estaduais indiquem queda nos registros de infectados e óbitos.

Desde o final de março, o Estado apresenta uma redução sustentada no número de casos e, a partir de abril, também nas mortes. O pico da terceira onda foi registrado na semana epidemiológica de 19 do mês passado, quando a média móvel de óbitos - referente a 14 dias anteriores - chegou a 74,3.

Pablo Lira, diretor do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) e membro do Núcleo Interinstitucional de Estudos Epidemiológicos (NIEE), diz que a queda nos dois indicadores seguia acelerada até que, por volta do dia 9 de maio, começou a diminuir o ritmo. Ainda há uma redução, porém mais lenta e em algumas regiões já se registra novo crescimento. 

Essa desaceleração está relacionada, segundo ele, a um conjunto de fatores, entre os quais Pablo Lira destaca o aumento nas interações sociais em festas e outros pontos de aglomeração, à sazonalidade com maior incidência de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e ainda às novas cepas circulantes do Sars-Cov-2 (coronavírus) - mais contagiosas e letais

"A ausência de uma coordenação nacional também dificulta o controle dessas fases de expansão no país, para fazer a gestão de risco, promover a testagem em massa, disponibilizar mais vacinas", pontua. 

Pablo Lira cita o exemplo da cepa indiana, nova ameaça que se apresenta no Brasil, e que, por não ter uma ação mais efetiva do Ministério da Saúde para integrar esforços e barrar a variante, tem enorme potencial de se espalhar. Para o diretor do IJSN, se houvesse mais integração liderada pelo governo federal, uma das estratégias seria a vacinação de portuários e aeroportuários, que começou nesta última sexta-feira (28) no Estado. 

"Em mais de um ano da pandemia, uma das coisas que aprendemos é que o vírus tem geografia própria. Ele primeiro se instala em uma área central, como foi na plataforma logística da China. A doença tem entrada no país nos hubs logísticos metropolitanos, então, naturalmente, vai passar por grandes portos e aeroportos. E o Espírito Santo tem uma dinâmica portuária muito forte e esse fator traz preocupação", alerta. 

CENÁRIOS PARA O ES

Com um monitoramento permanente da pandemia no Espírito Santo, o secretário estadual da Saúde, Nésio Fernandes, vislumbra cenários sobre a evolução da doença até julho. Em um, período de estabilidade e pequenas oscilações nos indicadores, como começa a se observar atualmente;  e em outros três, por razões distintas, a possibilidade de quarta onda é mais forte.  

Nésio Fernandes ressalta que não é necessária a disseminação da cepa indiana para uma nova aceleração de casos. Bastam o aumento das interações e o descumprimento de medidas, como distanciamento social e uso de máscaras, para que mais pessoas sejam infectadas.

Ele observa que as três ondas  já registradas no Estado foram decorrentes de cepas originárias e não pela introdução de novas variantes, embora a terceira expansão tenha sido marcada pelo crescimento da variante inglesa. De todo modo, manteve-se o padrão de mais casos graves, internação hospitalar e óbito entre os idosos e pessoas com comorbidades. 

O risco de nova onda é iminente porque a imunidade coletiva só será alcançada, segundo Nésio Fernandes, quando de 70 a 80% da população estiver vacinada. Conforme dados do painel de vacinação desta quinta-feira (27), o Espírito Santo não chegou nem mesmo a 10% de seus habitantes com as duas doses, ainda que no ranking nacional o Estado figure entre os que apresentam melhor desempenho na campanha de imunização. 

"Sem contar a possibilidade de predominância de variante com escape vacinal (cujas vacinas disponíveis não têm efeito)", aponta Nésio Fernandes.

À frente da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), está o secretário Nésio Fernandes
Nésio Fernandes comanda a Secretaria Estadual de Saúde (Sesa). Crédito: Divulgação | Sesa

O secretário também se preocupa com a perspectiva de, no Espírito Santo, a variante P.1 (brasileira) se tornar predominante, afetando a faixa etária de 30 a 59 anos que ainda não foi imunizada. E esse público mais vulnerável pode provocar uma nova pressão assistencial. 

Atualmente, o Estado dispõe de cerca de 350 leitos de UTI para a Covid-19 vagos, mas, dada a velocidade de contágio e risco de agravamento, podem rapidamente ser ocupados porque a estabilização de casos ocorre num momento em que o patamar de internações ainda é alto.

E se, sem vacina, as pessoas continuam a circular não adotando os cuidados necessários para se proteger e também aos outros, o Espírito Santo ainda vai vivenciar altos e baixos da pandemia. 

"Nessa circunstância, precisamos naturalizar uma possibilidade que foi apresentada lá atrás, nas projeções que a Sesa fez no ano passado, de que poderíamos viver ciclos de abertura e fechamento de atividades, no Estado inteiro ou em regiões, até alcançar a imunidade coletiva", destaca Nésio Fernandes. 

Sepultamentos no Cemitério Nossa Senhora Aparecida, durante pandemia de Covid-19
Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus: país passou por duas ondas da pandemia. Crédito: Alex Pazuello/Semcom

ONDAS DA PANDEMIA

A definição de ondas, no início da pandemia, estava associada a uma redução radical da transmissão após um pico de casos, quase zerando novos registros de infecção, como observado em países europeus. Contudo, o Brasil, e também o Espírito Santo, não tiveram esse momento de queda acentuada que chegasse próximo de zero.

Ainda assim, avalia Pablo Lira, as ondas ou fases de expansão da doença estão bem marcadas. No país, houve uma primeira onda prolongada, devido às diferenças regionais, de  março/abril até novembro. Depois, uma breve redução para retomar a aceleração no início de 2021 e chegar a picos de média móvel de 4 mil mortes diárias. 

O Espírito Santo, por sua vez, teve sua primeira onda com pico em junho de 2020, voltou a crescer no final do ano e, mais recentemente,  nova onda que atingiu o ápice em março - o pior momento desde o início da pandemia. A expectativa de Pablo Lira é que, mesmo com a quarta onda, os indicadores não sejam tão ruins. 

"Se houver a quarta fase de expansão, acreditamos que será menos intensa do que a terceira, considerando o efeito da vacinação na população, sobretudo entre os que têm de mais de 80 anos e outros grupos contemplados pelas duas doses, reduzindo o número de internação e óbitos", finaliza. 

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