Cotidiano capixaba vira arte sob olhar de fotógrafo do ES
Um olhar artístico para os trabalhadores do Sul do Espírito Santo levou a obra de um fotógrafo capixaba para o mundo. Pelas lentes de Júlio Cesar Pires, as cenas do cotidiano de pescadores, catadores de recicláveis e vendedores ambulantes se tornam arte.
Natural de Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Espírito Santo, o fotógrafo de 34 anos iniciou a carreira em 2010, na mesma cidade onde nasceu, e logo começou a se destacar, participando de mostras e premiações. Nessa nova trajetória, um desejo antigo de representar os trabalhadores capixabas sempre esteve presente e motivou uma jornada artística de muitos anos.
Julio conta que a fotografia está presente em sua vida desde a infância por conta de seu avô, um entusiasta da arte e colecionador de câmeras fotográficas. Com o olhar de um fotógrafo desde cedo, ele diz que as imagens que registra já existiam na sua imaginação antes mesmo de serem feitas.
Essas fotografias funcionam quase como pinturas, embora feitas com câmera. Não sou pintor, sou fotógrafo, e busquei capturar esses registros sem interferir na cena, afinal, não dá para pedir que alguém pose no meio do mar, com a luz, o céu e o mar exatamente como imaginei. Era uma busca por algo que eu já havia visto dentro de mim, desde a infância
Nascido e criado no Sul do ES, o profissional também foi fortemente influenciado pelo cotidiano capixaba para construir seu trabalho. Ele explica que a escolha de fotografar pescadores, por exemplo, foi inspirada pela conexão dos moradores da região com o litoral sul-capixaba, destacando as cidades de Marataízes, Itapemirim e Piúma. Muitas das fotos também foram realizadas na foz do Rio Itapemirim, que nasce na região do Caparaó e deságua no mar de Marataízes.
Muito além do Rio Itapemirim, a documentação dos pescadores artesanais da costa capixaba foi realizada em todo o Espírito Santo, de Norte ao Sul do estado. Finalizado em 2015, o trabalho durou cerca de cinco anos para ser concluído e não poderia ter um nome melhor. Chamada de “Labor”, a exposição saiu da Capital Secreta do Mundo e percorreu seis países: Espanha, Argentina, Colômbia, Peru, México e Chile.
Uma das coisas mais interessantes que percebi durante a exposição é que nosso estado ainda está fora do imaginário internacional. Quando se fala em Brasil, especialmente fora do país, as referências imediatas são outras regiões. O Espírito Santo, para muitos, é uma novidade. Por isso considero um dos aspectos mais valiosos dessa exposição o fato de ela ter se tornado, de certa forma, um cartão de visita do ES para o mundo
Atualmente, Júlio César atua em uma produtora que realiza eventos culturais e já está preparando a edição comemorativa de 10 anos da exposição Labor, que será realizada no Espírito Santo e em Barcelona, na Espanha. A nova montagem vai reunir fotografias da exposição original e imagens inéditas, produzidas a partir de 2017.
O novo foco das lentes do artista está voltado para uma nova série de fotografias que pretende documentar a cultura popular brasileira, percorrendo diversos estados e registrando manifestações culturais que tradicionalmente ocorrem nas ruas do Brasil. Entre elas, o fotógrafo ressalta o Nego Fugido, na Bahia; a Folia de Reis e o Reisado (ou Congada) em Minas Gerais; o Ticumbi, o João Bananeira e o Boi Pintadinho no Espírito Santo, por exemplo.
“Minha fotografia tem como foco principal o ser humano dentro de seu contexto territorial. Me interesso especialmente pelos modos de viver, de fazer e pela cultura que emerge desses espaços”, conclui o fotógrafo.