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Consciência Negra: você sabe o que é black money?

Movimento vai muito além do objetivo de garantir prosperidade para uma parcela da população que sofre com a desigualdade

Vitória
Publicado em 19/11/2020 às 18h02
Homem negro; negros; jovem negro
Negros representam 53% dos micro e pequenos empreendedores brasileiros. Crédito: Freepik

O dinheiro circula livremente na economia, mas está mais concentrado nas mãos de alguns grupos. Para corrigir distorções e impulsionar novos negócios em comunidades foi que surgiu o Movimento Black Money (MBM), que na tradução livre do inglês significa dinheiro preto.

Mas, muito além do objetivo de prosperidade, o MBM trata-se de um hub de inovação para inserção e autonomia da comunidade negra na era digital. Por isso, tem foco em comunicação, educação e geração de negócios pretos. 

Segundo dados do MBM, os negros - junção dos pretos e pardos, de acordo com o entendimento do Movimento Negro e da classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - representam 53% dos micro e pequenos empreendedores brasileiros, mas também integram 75% do grupo mais pobre da população e figuram entre 67% dos desempregados do país.

67%

DOS DESEMPREGADOS NO BRASIL SÃO NEGROS

A doutora em Administração e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Juliana Teixeira, explica que, basicamente, o MBM busca direcionar o dinheiro das pessoas negras para outras pessoas negras. Ela é pesquisadora da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN) e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Ufes (Neab/Ufes).

Juliana avalia que a proposta de pessoas negras empregarem o dinheiro delas em estabelecimentos conduzidos por negros pode romper com um dos princípios culturais da sociedade de consumo: o de que o próprio consumo sugere status socioeconômico e de prestígio social a partir do acesso a determinadas marcas ou serviços.

“Essas marcas que tradicionalmente conferem prestígio são conduzidas por e para pessoas brancas. Por isso, o movimento black money acontece por questões  de dinâmicas segregatórias nas cidades. Como uma reação a essa segregação, as pessoas periféricas vão mobilizando a geração de renda  ao empregar seu dinheiro no negócio de outras pessoas periféricas. Esse é um processo potente”, considera. 

Data: 06/05/2019 - Ricardo Paixão, economista e professor universitário - Editoria: Polí­cia
Economista Ricardo Paixão pontua que as desigualdades vividas pelos negros perpassam questões econômicas, comerciais e psicológicas. Crédito: Arquivo pessoal

A pesquisadora defende a necessidade de ampliação do debate para além do consumo que sempre aconteceu de maneira orgânica nas comunidades periféricas, muito antes do surgimento do termo MBM. Numa escala diferente, esse conceito já funciona há algum tempo nas comunidades periféricas do Espírito Santo, que têm moedas próprias ou onde  o consumo da produção e serviços locais é priorizado.

“É um movimento de politização para que esse consumo por pessoas pretas em negócios de pessoas pretas seja potencializado. E, indo além, ele pode, num efeito em cadeia, estimular pessoas brancas, conscientes de sua condição estrutural de privilégio, a também consumir de pessoas negras e a priorizar negócios dessas comunidades que acabam sendo constituídas como periféricas”, diz.

O ex-presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES), o economista Ricardo Paixão, aponta que as desigualdades vividas pelo povo negro perpassam questões econômicas, comerciais e psicológicas. Esse desequilíbrio é consequência da dívida histórica causada ainda no período da escravidão, mas continua sendo potencializado com o racismo e a discriminação que persistem na atualidade, acrescenta. 

“O negro esbarra na barreira de não ter um apoio governamental para potencializar suas atividades. Esses projetos sociais recebem recursos dos moradores e comércio local, é aí que está a força dessa comunidade de construir os próprios caminhos, de um dar suporte ao outro para conduzir o negócio em meio às barreiras”, considera.

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