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Conheça a planta que só nasce no ES e chega a valer mais de R$ 150 mil

A Philodendron spiritus sancti foi assunto nas redes sociais nesta semana. Em entrevista à reportagem de A Gazeta, biólogos explicam por que espécie tem valor tão alto

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 23/11/2021 às 15h13

Uma planta chamada "Philodendron spiritus sancti", que cresce no nó de troncos de árvores e lança raízes até o solo, apesar de muito rara e exclusivamente do Espírito Santo, vem sendo comercializada e levada para o resto do mundo. O preço? A pechincha de mais de R$ 150 mil.

A espécie foi assunto nas redes sociais nesta semana e algumas perguntas ficaram incompreendidas: por que a planta atinge esse preço? A comercialização é legal e sustentável? Estes e outros questionamentos foram respondidos à reportagem de A Gazeta por biólogos especialistas em Botânica, área que estuda o reino vegetal.

Segundo o pós-doutorando em Botânica pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Rodrigo Teófilo, a "Philodendron spiritus sancti" foi catalogada apenas na Região Serrana do Estado.

"Ela é muito rara na floresta Atlântica e, considerando que aqui no Estado boa parte da vegetação foi perdida, só alguns trechos contam com essas árvores. Somando a floresta fragmentada à raridade das árvores que abrigam essa planta, sendo que este Philodendron ocorre na zona de ramificação do caule dessas árvores, logo, é mesmo raríssima, tendo sido categorizada como criticamente ameaçada de extinção em registros estadual e federal", afirma.

Além de ser muito rara, o que por si só já aumenta o valor de venda no mercado negro, o crescimento desta espécie é bastante lento, explica Teófilo. "O comércio de plantas em extinção é ilegal, configura contrabando. E, além de rara, cresce lentamente e isso contribui para o aumento do valor. E, ao contrário da maioria das plantas, ela não possui flores tão vistosas. O que configura a maior atratividade são as características foliares, com folhas em forma de seta alongada, com a base em forma de coração", acrescenta.

Rodrigo Teófilo

Biólogo doutor em Botânica

"Esse alongamento da folha é muito difícil de se ver na Mata Atlântica. Formas semelhantes são encontradas na América Central, na Colômbia e na Venezuela. Aqui, essa é a única espécie que possui esse formato peculiar, o que também, somado às outras características, contribui para que seja tão valiosa no mercado negro"

O biólogo e consultor ambiental Stéfano da Silva Dutra concorda com Teófilo e afirma que a planta, da família Araceae, é notadamente ornamental. "É do gênero de espécies epífitas, que são aquelas que crescem em cima de árvores. Ela é utilizada em paisagismo e jardinagem, e nos últimos anos ganhou visibilidade. Assim, temos pessoas fazendo coleção dessas espécies. Especificamente a spiritus sancti, que é uma espécie endêmica aqui do Estado, ou seja, só cresce naturalmente aqui, é de uma população pouco conhecida", diz.

 Trepadeira Philodendron spiritus sancti
Site vende planta do ES por mais de R$ 150 mil. Crédito: Reprodução | Etsy

COLEÇÕES DAS PLANTAS E CONSEQUÊNCIAS

Segundo Dutra, a "Philodendron spiritus sancti" foi coletada apenas duas vezes e tem representantes em herbários, na versão seca. Nas localidades onde foram encontradas inicialmente, em novas visitas não foram encontradas. Assim, destaca-se a raridade dos exemplares, o que chama a atenção dos colecionadores: e, é claro, quanto mais rara, maior o preço cobrado.

"Chegamos a essa situação do extrativismo, de pegar uma espécie de um local e levar para outro. Várias outras plantas já passaram por isso, como orquídeas e bromélias, por serem muito bonitas. Assim as pessoas desejam e levam para casa. O problema é que quando se chega a esse grau de extrativismo, em que as pessoas procuram cada vez mais essas espécies, então mais pessoas vão à floresta para retirar, sem um projeto de conservação para manter a espécie na natureza", ressalta.

No caso da espécie capixaba, é ainda mais problemático por ela não ter muitos exemplares conhecidos na natureza. "Pode-se dizer que ela é rara até para a floresta e sofre ameaça de extinção, classificada como criticamente em perigo tanto na lista vermelha do Estado quanto na do Brasil. Não se pode fazer a extração de espécies ameaçadas e levar para casa. E muitas pessoas estão comercializando. É ainda pior quando há o mercado internacional de espécies desse tipo — grandes colecionadores estão pelo mundo inteiro", afirma.

Stéfano da Silva Dutra

Biólogo

"O preço de R$ 150 mil é devido à raridade dela. Mas é como pegar um bicho como um mico-leão - em extinção - e levar para outro país. É crime. Isso acaba sendo prejudicial à conservação da natureza como um todo"

FLORESTAS URBANAS

As florestas urbanas ou "urban jungles", como são conhecidas, compõem um estilo de decoração que inclui plantas no interior das residências nas cidades, trazendo um clima de natureza para as moradias. Para os biólogos entrevistados, a prática, que vem sendo incorporada também por colecionadores de espécies vegetais, pode, com ressalvas, ser positiva.

Para o consultor ambiental Stéfano da Silva Dutra, o contato mais próximo com a natureza pode ensinar sobre respeito e conservação. "Não necessariamente é uma prática ruim. É um contato normalmente positivo, acaba fazendo com que as pessoas protejam mais o entorno. O problema é quando mexemos com extrativismo ou depredação de bem público para fazer coleta para bem pessoal, como para jardinagem e paisagismo. Acabamos passando por esse período de ficar mais em casa, pela pandemia, e as pessoas quiseram cuidar mais de plantas. Ajuda até no psicológico. O problema é mexer com plantas que não deveriam sair da natureza", adianta.

Segundo o biólogo Rodrigo Teófilo, cultivar plantas fora do habitat natural também pode ser visto como algo positivo. Mas, na proposição dele, o ideal seria que pesquisadores e colecionadores de plantas se juntassem para formar um plano de conservação.

"O plano ideal viria através da produção de sementes e consequente produção de mudas, com restabelecimento em unidades de conservação. O grande problema é que pessoas de má-fé acabam querendo pegar vários exemplares na natureza, por conta do seu valor, e isso distancia os pesquisadores dos colecionadores. O sucesso da conservação dessa planta só será alcançado quando esses dois setores se juntarem e definirem um plano de ação. Quando há plano, a planta se torna mais comum no mercado e, apesar de muito cara, permite que várias pessoas tenham acesso e ela passa a ser mais comum, diminuindo a busca por ela na natureza", pontua Teófilo.

Ele afirma ainda que, ao retirar populações de plantas da floresta já fragmentada, aumenta-se a distância das que restam na natureza, dificultando que haja a polinização adequada. "Isso diminui a carga genética da planta, fazendo com que ela seja mais suscetível a doenças a longo prazo. É o principal problema enfrentado", finaliza.

CASO DE CRIME AMBIENTAL FOI INVESTIGADO PELA PF

A Polícia Federal prendeu em flagrante, no dia 14 de abril deste ano, um homem que transportava 28 mudas de Philodendron spiritus sancti na bagagem, espécie nativa do Espírito Santo. A prisão ocorreu no aeroporto de Rio Branco, no Acre.

O homem teria saído do Estado e se deslocado de avião de São Paulo para Campo Grande, transportando mudas das plantas raras, ameaçadas de extinção. Na data da prisão, o suspeito alugaria um veículo para se deslocar até a cidade de Corumbá, onde encontraria com uma mulher que lhe daria suporte para transportar as mudas de barco pelo Rio Paraguai até a Bolívia.

O homem acabou sendo localizado em um voo com destino a Rio Branco, onde foi abordado. Por ser uma planta extremamente restrita, esta tem sido almejada por muitos colecionadores de plantas ornamentais gerando pressão sobre à espécie. As plantas apreendidas foram encaminhas ao Jardim Botânico no Rio de Janeiro.

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