Publicado em 25 de novembro de 2019 às 05:00
- Atualizado há 6 anos
Quando o assunto é ovo, o capixaba lembra logo de Santa Maria de Jetibá. Com 20 milhões de aves, o município da Região Serrana do Espírito Santo é o maior produtor de ovos do país. Mas nem só de ovo vive a “terra das galinhas”. Para além do alimento, o esterco produzido nas granjas também é importante para a economia local. O dejeto é utilizado pelos produtores rurais da região e também por fábricas de fertilizantes. >
A qualidade do produto é garantida graças às granjas automatizadas. Tudo é feito por máquinas: desde o tratador de ração, passando pela coleta de ovos (transportados por esteiras) até a limpeza, com o esterco retirado automaticamente das esteiras. No processo, ninguém coloca a mão no esterco e nas aves, o que diminui a mão de obra e ajuda no controle sanitário do galpão.>
Gerente de produção da granja Ovos Pommer, de Santa Maria de Jetibá, que produz 70 toneladas de esterco cru por dia, Dener Vieira Júnior afirma que o processo feito de forma automatizada ajuda na etapa de compostagem.>
“Tem menor proliferação de moscas e você passa por um processo melhor de compostagem. Na máquina de compostagem, as fezes são misturadas ao pó de serra para diminuir a umidade do esterco, deixá-lo mais seco, no ponto de comercialização para facilitar para o produtor rural. Quanto mais tempo na composteira, melhor”, explica.>
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A máquina trabalha 24 horas por dia revirando o adubo. O esterco fica de 21 a 28 dias na compostagem, e só depois está pronto para ser comercializado.>
“Aí ele fica seco, pronto para o consumo. A gente vende diretamente para o produtor e também para empresas de fertilizantes, que fazem o complemento necessário de acordo com a necessidade do produtor”, afirma o gerente de vendas Lenon Krauser.>
O esterco é vendido em média por R$ 110 a tonelada. O preço varia de acordo com a distância da entrega e a quantidade comprada.>
Cerca de 50% do esterco gerado na granja de Santa Maria de Jetibá vai para a fábrica de fertilizantes Natufert, em Ibatiba, no Sul do Estado. Lá, o material é transformado em adubo, que posteriormente será usado pelos produtores.>
Na primeira etapa do processo, todo o produto que vem da granja é separado e colocado nas 13 baias de compostagem - cada uma com capacidade para armazenar 90 toneladas do composto - para começar a ser tratado.>
“Iniciamos o nosso processo de tratamento para eliminar os patógenos, potencializando o composto orgânico e transformando, enfim, em um fertilizante de base orgânica”, comenta o diretor técnico da fábrica, Maurício Flávio de Carvalho Cota.>
Depois que o composto adquire a temperatura e a umidade adequadas, o que pode demorar algumas semanas, ele é levado para a segunda fase do processo: o peneiramento. Após passar pela peneira, o composto sai farelado, o que já consiste em um tipo de adubo orgânico.>
Mas há outras opções de adubo. Em uma delas, parte do produto é levado para a máquina de granulação e secagem, onde o composto entra em forma de pó e sai em formato de grãos. Depois, já pode ser ensacado ou seguir para a terceira etapa do processo, na qual é misturado com fontes minerais de nutrientes. >
Na fábrica em Ibatiba, para onde parte do esterco produzido em Santa Maria de Jetibá é levado, são produzidas 40 mil toneladas de adubo orgânico por ano. Todo o processo de transformação em adubo passa por um controle intenso de qualidade.>
“O controle de qualidade funciona desde o recebimento das matérias primas - todas passam pelo laboratório -, e durante todo o processo a gente faz amostragens e acompanhamentos, respeitando as exigências do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa)”, esclarece Hyasmim Cruz, analista de qualidade.>
O diretor técnico da fábrica, Maurício Flávio de Carvalho Cota, explica que trata-se de um adubo ecologicamente correto e com melhor custo-benefício para o produtor rural.>
“Ele diminui a acidez do solo, diminui a salinização e ainda ajuda a recompor a porção biológica dos solos. É agronomicamente eficaz, porque libera uma variedade de nutrientes muito grande e tem uma disponibilidade muito acentuada dos elementos. É economicamente eficaz também. O produtor que faz conta consegue perceber claramente o custo-benefício dos produtos com aumento de produtividade e rendimento das culturas”, garante.>
Produtor de café com mais de 57 mil pés plantados em quase 40 hectares de terra, Célio Carvalho conhece bem os benefícios de utilizar o adubo orgânico feito a partir dos dejetos da avicultura. “Fiz metade com adubo mineral e metade com orgânico mineral. Na hora de ensacar o café, vi o rendimento no orgânico mineral mais do que o químico. Fica um café melhor, mais graúdo”, defende.>
O esterco que não vai para a fábrica de fertilizantes é vendido diretamente para produtores rurais de hortaliças, mamão e café. Na década de 1960, o início das granjas em Santa Maria de Jetibá não se deu pela produção de ovos, mas sim pela produção de esterco. Era uma forma de resolver o problema dos produtores rurais da região. O esterco de galinha é rico em nutrientes, principalmente o nitrogênio. Depois de compostado, ajuda a reter a umidade do solo.>
“É uma solução para a agricultura. Todo esse cinturão verde que nós vemos na Região Serrana do Estado, a produção de fruticultura, reflorestamento, café, toda a agricultura do Estado e até nas divisas do Espírito Santo, são abastecidas com adubo orgânico ou com esterco da avicultura”, conta Nélio Hand, diretor da Associação de Avicultores do Estado.>
O Espírito Santo tem 235 avicultores, que geram, por mês, 50 mil toneladas de esterco. Hand explica que esse volume ainda não é um problema, mas há alternativas para o futuro.>
“A desidratação do esterco, do dejeto da ave, seria uma boa alternativa. Você reduz o percentual de umidade de 70 para 15 a 20%. Outra opção, que já é utilizada por outras atividades aqui no Estado, é a bioenergia. Isso é uma tecnologia que ainda não é muito falada no Brasil, mas já existem plantas que estão testando esse tipo de biocombustível no Sul do país e em Minas Gerais”, explica. >
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