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Risco para a economia

Como efeitos do super El Niño podem afetar o agronegócio do ES

Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, o fenômeno atinge a categoria de "forte" ou "super" quando as temperaturas permanecem 1,5°C acima da média por vários meses; aumento este ano pode chegar a 3°C

Publicado em 27 de Maio de 2026 às 11:15

Leticia Orlandi

Publicado em 

27 mai 2026 às 11:15
Plantação de alface: hortaliças devem ser as mais afetadas pelo efeito do El Niño. Ricardo Medeiros

A possibilidade da formação de um fenômeno conhecido como Super El Niño nos próximos meses tem acendido o alerta em diversos setores produtivos no Brasil. Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Central e Leste, o fenômeno atinge a categoria de "forte" ou "super" quando as temperaturas permanecem 1,5°C acima da média por vários meses. Projeções atuais indicam que o aquecimento pode chegar a 3°C, um patamar raramente visto e que altera significativamente a circulação atmosférica global. 


A Gazeta ouviu especialistas para entender como essa escala acima do normal do fenômeno pode afetar a economia do Espírito Santo, especialmente no agronegócio.


Segundo a NOAA (Agência Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), há 96% de probabilidade de o fenômeno estar plenamente ativo nos próximos meses, com chances reais de atingir níveis históricos de intensidade.


No Brasil, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) emitiu nota indicando que o fenômeno tem potencial para provocar impactos significativos, transformando padrões sazonais em eventos de alto impacto, como inundações massivas no Sul e secas severas na Amazônia e no Nordeste. 


Especificamente para a região Sudeste, o que envolve o Espírito Santo, as perspectivas do Cemaden apontam que o fenômeno pode comprometer parte da estação chuvosa, vindo acompanhado de altas temperaturas que afetam a recuperação dos reservatórios hidrelétricos e elevam o risco hidrológico, com enchentes, inundações e secas severas.


Além disso, há risco potencial intensificado sobre áreas agrícolas do Sudeste relacionado à redução da quantidade de água no solo, tornando-se insuficiente para atender às necessidades das lavouras, o que pode resultar em perdas diretas de produtividade.


No Espírito Santo, conforme explica a professora de Oceanografia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), doutora Kyssyanne Oliveira, a maior consequência direta não é necessariamente uma mudança comprovada no volume total de chuvas, mas sim o aumento expressivo da temperatura, com a atuação do fenômeno podendo ser sentida já a partir de agosto. 

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Esse calor excessivo, muitas vezes potencializado por bloqueios atmosféricos frequentes, impacta diretamente o agronegócio capixaba, especialmente cultivos sensíveis como as hortaliças, que não toleram extremos térmicos, e o café, principalmente na região centro-norte do Estado. 


"A necessidade de consumo de água para irrigação aumenta com as temperaturas elevadas, agravando a pressão sobre os recursos hídricos em um período de maior demanda energética e humana", lembra.


Outro fator de risco para o produtor rural capixaba são as tempestades curtas e intensas de verão. Como uma atmosfera mais quente armazena mais vapor, essas chuvas rápidas podem causar enxurradas e erosão do solo em vez de infiltração benéfica para as plantas. 


O setor pesqueiro também enfrenta desafios, pois o aquecimento do Atlântico, que tende a responder ao El Niño, afeta a pesca oceânica. No campo econômico, a segurança alimentar pode ser afetada pelo aumento de preços de insumos ou produtos importados, caso haja quebras de safra em outras regiões ou países. 


Já Hugo Ramos, meteorologista do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), lembra que modelos climáticos globais indicam com 96% de certeza a ocorrência do fenômeno El Niño, com uma probabilidade de 30% de que atinja a categoria de "super" até o encerramento do ano.


O fenômeno, que deve começar a ser sentido com mais intensidade a partir de julho e agosto deste ano, tem como característica central para o Estado o aumento das temperaturas acima da média, especialmente durante a primavera e o verão (outubro a março). De acordo com Ramos, esse "verão mais quente" é o elemento principal que desencadeará diversos impactos na produção rural.


O meteorologista alerta para a possibilidade de chuvas intensas e pontuais. Esses episódios podem causar erosão e lixiviação, quando o grande volume de água em curto espaço de tempo pode remover nutrientes do solo e carregar adubos e plantios em encostas para o leito dos rios.


Outras consequências são alagamentos e impactos em culturas como café, cacau, pimenta, mamão e banana. Essas lavouras podem ter a produtividade afetada tanto pelo excesso de calor quanto por períodos de estiagem severa entre as chuvas.


O excesso de calor, segundo Hugo Ramos, também preocupa devido à perda acentuada de água armazenada no solo por evaporação, o que prejudica o desenvolvimento das plantas e a produtividade final. Além disso, a pecuária pode ser afetada pelo alagamento de áreas de pastagem, resultando na perda de alimentação animal.


Hugo Ramos ressalta que, independentemente da intensidade final do fenômeno, os impactos devem ser sentidos e exigem atenção. A orientação do Incaper é que o produtor rural acompanhe rigorosamente os boletins meteorológicos diários e as tendências climáticas para planejar melhor o manejo das lavouras e minimizar os transtornos.


O que é o El Niño?

El Niño e La Niña são fenômenos climáticos naturais que fazem parte de um mesmo sistema de variações no Oceano Pacífico tropical e na atmosfera.


Durante o El Niño, as águas da superfície do Pacífico central e oriental ficam mais quentes do que o normal. Já durante o La Niña ocorre o oposto: essas águas ficam mais frias do que a média.


Essas mudanças alteram a circulação da atmosfera e influenciam padrões climáticos em diferentes regiões do planeta.


Os fenômenos geralmente acontecem a cada dois a sete anos e podem durar meses — às vezes mais de um ano.

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