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Crítica: Tarantino mais comportado e nostálgico em "Era uma vez... em Hollywood"

"Era Uma Vez... em Hollywood", nono (e penúltimo) filme de Quentin Tarantino, mostra o diretor menos violento e mais focado na narrativa

Publicado em 22/08/2019 às 23h44
Atualizado em 06/01/2020 às 13h10
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Filme "Era uma Vez.... Em Hollywood". Crédito: Sony Pictures/divulgação

Quentin Tarantino tinha seis anos há pouco mais de cinco décadas, em 9 de agosto de 1969, quando a atriz Sharon Tate e um grupo de amigos foram cruelmente assassinados por seguidores de Charles Manson, em Los Angeles. A violência daquele crime e dos que a mesma turma cometeu em seguida (sempre tentando incriminar o grupo de militantes negros Panteras Negras) marcou o fim do clima de "paz e amor" que reinava na Califórnia, onde a Família Manson vivia de modo anti-establishment, regados a sexo livre e drogas psicodélicas. A revolucionária década de 1960 acabou abruptamente naquela noite de agosto de 69 – no ano seguinte, ainda, Janis Joplin e Jimi Hendrix morreram e os Beatles anunciaram seu fim. O sonho havia acabado.

Essa época de transformações é agora “homenageada” pelo mesmo Tarantino que acompanhou tudo de perto quando era uma criança. “Era uma Vez... em Hollywood”, que estreia quinta-feira (15), é o nono (e penúltimo) filme da carreira do diretor e talvez o que mais se afaste do que o cineasta tenha feito até hoje.

O filme se passa basicamente durante três dias na Hollywood de 1969 e acompanha as jornadas do ator Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt). Dalton e Booth são unha e carne; o primeiro é um ator famoso por suas peripécias físicas em cena, mas é seu dublê quem as realiza – começa por este ponto, inclusive, a discussão que Tarantino faz entre o real e a ilusão em seu novo trabalho.

O diretor e roteirista desenvolve seus personagens em camadas, o que é muito ajudado pelas atuações. DiCaprio tem a experiência de caminhar entre ser galã e ter pretensões artísticas, enquanto Pitt confere carisma suficiente a Booth para que acreditemos que ele é o sujeito mais legal do mundo e não consigamos entender ao certo o motivo por que se contenta em ser um dublê quando poderia muito bem alçar voos mais altos.

Ao mesmo tempo que Dalton e Booth representam a dualidade hollywoodiana, Sharon Tate (Margot Robbie) representa a inocência da época, o que a indústria poderia se tornar, um ideal. Robbie recria a esposa Roman Polanski com delicadeza e adoráveis detalhes.

No meio da narrativa dos três protagonistas Charles Manson (Damon Harriman) surge aos poucos; primeiro por personagens secundários, que orbitam em torno do líder da seita, e depois pela figura do próprio. Vale ressaltar, porém, que “Era Uma Vez... Em Hollywood” não é um filme sobre Manson ou seus crimes, é um filme sobre Hollywood, sobre Los Angeles, sobre o que a indústria era, poderia ser e o que se tornou.

REFERÊNCIAS

Um apaixonado por cinema, Tarantino enche seu filme de homenagens e referências à Sétima Arte – de Bruce Lee a Steve McQueen, passando também por filmes e séries de televisão da época, além de localidades que ficaram famosas em Los Angeles.

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Filme "Era uma Vez.... Em Hollywood". Crédito: Sony Pictures/divulgação

A maior homenagem do filme talvez seja à própria cidade. Sim, a Los Angeles do cineasta é praticamente um personagem na trama, com todas as suas cores e contradições, de pessoas “normais” a artistas renomados, mundos distintos.

Em suas quase três horas de duração, o filme é bem menos violento do que se espera de um Tarantino, mas também é muito mais engraçado e dramático. “Era Uma Vez... em Hollywood” é uma carta de amor do diretor ao cinema, uma ode à cultura pop. As mortes daquele 9 de agosto não foram só físicas, representaram mais, levaram o cinema (e o mundo) para uma nova época que, de certa forma, possibilitou o surgimento de diretores como Tarantino. E ele sabe disso.

NOTA: 9

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