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Comédia argentina satiriza com inteligência o mundo das artes

"Minha Obra-Prima", em cartaz no Estado, confirma a boa forma dos cineastas Andrés e Gastón Duprat, do sucesso "O Cidadão Ilustre"

Publicado em 26/04/2019 às 20h35
Minha Obra-Prima. Crédito: MARIO CHIERICO
Minha Obra-Prima. Crédito: MARIO CHIERICO

Com a economia em crise, a Argentina continua provando ao Brasil que dá, sim, para fazer cinema de qualidade com pouco dinheiro. Quer exemplos? Dois longas-metragens bem acima da média saíram dos pampas para conquistar festivais mundo afora na temporada passada: “O Anjo” e “Minha Obra-Prima”, este em cartaz no Estado.

“O Anjo”, cinebiografia do serial killer Carlos Robledo Puch concebida por Luis Ortega com “pimenta” e sensualidade – em uma interpretação magistral de Lorenzo Ferro –, conquistou fãs apaixonados no Festival de Cannes. Por sua vez, o Festival de Veneza aplaudiu “Minha Obra-Prima”, mais uma comédia de costumes inteligente gestada na cabeça paranoica dos irmãos Andrés e Gastón Duprat.

São deles títulos originais, que passeiam entre a acidez social e a comédia rasgada, mas sempre recheada de ironia, como “O Homem ao Lado” (2009), “Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto” (2011) e “O Cidadão Ilustre” (2016), este último cultuado por aqui e representante da Argentina no Oscar 2017.

Em comum, os filmes dos Duprat (normalmente, Gastón dirige e Andrés faz o roteiro) não têm pudor em personificar o que há de pior na sociedade, como o escritor recluso que é perseguido pelos moradores de uma cidadezinha de forma grotesca por não aceitar bem uma homenagem, como visto em “O Cidadão Ilustre”.

Nesta mesma vibe politicamente incorreta, temos Renzo Nervi (em interpretação memorável do veterano Luis Brandoni), um artista plástico sociopata, recluso e inconformado com os rumos comerciais que a arte vem tomando.

Alex (Raúl Arévalo, também muito bem no papel), seu ex-agente, é tudo o que Nervi mais detesta: personifica o “capitalismo voraz consumindo a arte”, como o pintor adora defini-lo. Cultado e odiado na mesma intensidade, Renzo, um anti-herói quixotesco, sofre um acidente, o que traz Alex de volta para a sua vida.

QUESTIONAMENTOS

Dizer mais sobre a história pode atrapalhar o prazer de acompanhar uma trama deliciosa, recheada de humor e críticas sobre a superficialidade do mercado cultural. Como visto no também excelente “The Square: A Arte da Discórdia” (2017), vencedor da Palma de Ouro, há o questionamento sobre o que é arte, sua importância, e a forma como ela é consumida.

Ninguém é poupado das críticas. Como uma metralhadora giratória, os Duprat satirizam os marchands, que querem ganhar dinheiro a todo custo; os donos de galeria, sempre querendo passar alguém para trás; e o público, que, segundo o filme, nem sempre sabe apreciar a boa arte. Em alguns casos até prefere ser enganado para não parecer desinformado.

Renzo destila seu veneno em frases impagáveis, do tipo: “para ser um artista de sucesso é necessário ser ganancioso e egoísta”, ou “quem faz arte não sabe fazer outra coisa ou tem algum tipo de deficiência”, ou mesmo “faço algo perfeitamente inútil e também não interessa a ninguém”.

Pode soar agressivo, ou de mau gosto, mas a atuação acima do tom de Luis Brandoni é proposital e faz de “Minha-Obra Prima” uma comédia impagável.

O roteiro analisa de forma cirúrgica o métier das artes. Não poderia ser diferente, afinal, Andres Duprat, além de escritor, é diretor do Museu Nacional de Belas Artes da Argentina. Isso contribui para um dos vários méritos do filme, que é fugir da caricatura por mais que as situações apresentadas no decorrer da trama discorram para o exagero. Um humor que será melhor digerido por paladares mais refinados, como uma boa obra de Andy Warhol.

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