“Você consegue amar o próximo como você mesmo?”, o ensinamento cristão sobre a universalidade do amor é o principal questionamento do clipe impactante de “Das Estrelas”, lançado pela banda “As Bahias e a Cozinha Mineira”, na última sexta-feira (25). O single faz parte do 3º disco do grupo ainda em fase de produção e sem nome definido, com lançamento previsto para o fim de março.
De forma romântica e dramática, o clipe aborda a violência contra a população transgênera que, morta em vias, em rios, hotéis, motéis, em salões de beleza, em estações de trem, em praça pública, por bala, faca, espancada, fez do Brasil o país que mais mata transexuais e travestis no mundo, com 125 assassinatos notificados no ano passado. Os dados são da Organização Não Governamental austríaca Transgender Europe.
A data para o lançamento foi escolhida em função da celebração ao “Dia da Visibilidade Trans” comemorado amanhã. A música, além de reflexiva, é um convite para olhar o céu e, ao mesmo tempo, para seu universo interior.
“No passado, as civilizações, em tudo que faziam, tinham que olhar para as estrelas. Essa música é um convite a voltar a se conhecer, descobrir o mundo de novo e perceber que somos parte da natureza. Dessa forma, desejamos uma condição mais empática da sociedade, onde o olhar para o todo é essencial. Acredito na premissa que amar o próximo como a ti mesmo é se conectar à uma força maior”.
A explicação sobre a letra da canção é da compositora da música, Assussena Assussena, que junto com Raquel Virginia e Rafael Acerbi formam a banda iniciada em 2011, quando faziam História na Universidade de São Paulo (Usp). Na época, eles organizavam saraus e começaram a ganhar destaque entre os universitários. Ao mesmo tempo, Raquel e Assussena passavam por processos muito pessoais: a transição de gênero.
Ouça a música:
Militância
Diante do momento de restrição do amparo à população LGBTTT, Raquel declara que a banda desenvolve um diálogo com a sociedade diante dos paradigmas que vive o país. “É uma construção para a quebra do imaginário cultural que se tem da travesti sempre ligado a pornografia e também da violência contra nós. Como artistas temos esse papel de perguntar para onde estamos indo e se nós queremos destruir nossos talentos”.
Abordar o tema quando se está inserido nele nem sempre é fácil, conta Raquel. “Estamos falando sobre nossas vidas e não é fácil estar em exposição no país que mais mata trans. Querem que a gente dê respaldo para uma série de demandas sociais. E usamos a música como difusora de ideias, ela penetra muitos lugares. Os nossos corpos já levantam muito debate”.
Depois de dois álbuns “Mulher” (2015) e “Bixa” (2018), o grupo traz a temática sobre uma nova perspectiva: a do amor, em uma sonoridade mais pop e mais rock’n roll, em crônicas sobre o Brasil atual. Em síntese, Assussena cita Caetano: “Junto é pra brilhar e não pra morrer de fome”.