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"Cachorro Doido"

Enivaldo: a queda de um líder ambíguo e não tão leal a Casagrande

O agora ex-líder do governo, destituído no dia 30, era eficiente na votação dos projetos mais importantes do Executivo, mas tinha postura heterodoxa, liberou derrubada de vetos, deixou o governo em sinucas de bico e ficou entre Casagrande e Erick Musso

Publicado em 07 de Dezembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

07 dez 2019 às 04:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Enivaldo ficou entre Erick Musso e Renato Casagrande Crédito: Amarildo
Três dias após o sobressalto que o governo Casagrande tomou com a reeleição surpresa do presidente Erick Musso na Assembleia (apoiada por Enivaldo dos Anjos e revista na última quarta-feira, 4, pelo próprio Erick), o governador anunciou a destituição de Enivaldo do cargo de líder do governo, substituindo-o pelo deputado Eustáquio de Freitas. É óbvio que os dois fatos estão relacionados.
O anúncio marcou a queda de um líder cujas marcas maiores sempre foram a ambivalência e a ambiguidade: Enivaldo era, sim, do “time Casagrande”, mas é hoje, antes de tudo, como provou em 27 de novembro, do “time Erick Musso” (e do “time Enivaldo dos Anjos”). Definitivamente, não era um líder de governo que mostrasse fidelidade canina ao governo em plenário. Sua lealdade era “incondicional” até o ponto em que se chocava com suas próprias pautas e planos políticos.
Para fazer justiça ao deputado, em todas as votações mais importantes de projetos do governo no plenário, ele se portou como um verdadeiro líder, dos mais combativos, defendendo com garras e presas caninas os projetos do governo, partindo para cima dos adversários e travando debates ferozes e épicos com alguns opositores do governo (Pazolini que o diga: rendeu até cordel aqui).
Desse ponto de vista, foi um líder eficiente, que sempre entregou ao governo o produto que se esperava dele: vitórias em plenário em todas as votações mais importantes. Foi assim na nova lei de promoções da PMES, na criação da fundação iNOVA para gerir hospitais, na criação do Fundo Soberano e do Fundo de Infraestrutura, na manutenção do veto de Casagrande ao projeto de “ideologia de gênero” e, mais recentemente, no dia 25 de novembro, na votação dos dois primeiros projetos da reforma da Previdência estadual.
Por outro lado, em algumas situações, Enivaldo agia meio como “cachorro doido”, como ele mesmo se denominou na última segunda-feira (2): por conta própria, surpreendendo e até contrariando o próprio governo. Por vezes assumia posturas heterodoxas, que não condiziam exatamente com o comportamento esperado de um líder do governo. Mais de uma vez, costurou acordos diretamente com a Mesa Diretora da Assembleia, sem consultar o Palácio Anchieta, à revelia do secretário-chefe da Casa Civil, Davi Diniz, e do próprio governador – como ambos chegaram a admitir à coluna. Mais de uma vez, liberou a base para derrubar, em plenário, vetos apostos pelo próprio governador a projetos de autoria de deputados (inclusive dele mesmo).
Pode parecer pouca coisa, mas é, no mínimo, extremamente raro. Não há, nos últimos anos, notícia de outro líder que tenha liberado a base em votações de vetos. Tanto que, numa dessas oportunidades, o deputado Majeski chegou a perguntar a Enivaldo, com um quê de sarcasmo, se ele havia se tornado “líder da oposição”. Outro sinal de como isso é raríssimo era a festa feita por deputados em plenário quando conseguiam derrubar os vetos de Casagrande a seus projetos.
Festa no plenário com derrubada de cinco vetos do governador, no dia 20 de maio, com o aval de Enivaldo. Na foto, Lorenzo Pazolini, Janete de Sá, Hércules Silveira, Torino Marques e Capitão Assumção Crédito: Assembleia Legislativa
Pragmático, questionado pela coluna, Enivaldo se justificava dizendo que era uma questão de estratégia: que era melhor abrir mão desses vetos e agradar a deputados da base deixando passarem os seus projetos, contanto que as matérias realmente prioritárias para o Palácio Anchieta fossem aprovadas. Para Enivaldo, era isso que importava de verdade ao governo e era esse o critério que contava para a avaliação de seu desempenho como líder. Sua eficiência, assim, deveria ser julgada exclusivamente em função da aprovação desses projetos do governo. Mas há controvérsias.
Também por mais de uma ocasião, Enivaldo deixou o governo (e o próprio governador) em sinucas de bico, levando Casagrande a entrar em cena urgentemente para agir como bombeiro e apagar incêndios causados a partir de fósforos riscados por seu irascível líder, não só em medidas tomadas por ele à frente de CPIs como a da Sonegação, mas também em discursos de ataques diretos a algumas empresas e instituições com quem o governo prefere cultivar uma boa relação institucional. Não que Enivaldo não possa nem deva fazer isso. Como parlamentar, essa sua atuação é legítima. Mas, como líder do governo, deixava o próprio governo em situações politicamente delicadas.
E daqui para a frente? Se, com a “coleira” de líder do governo, esse “cachorro doido” já era indomável, o que esperar agora, que está livre dessa amarra? A expectativa é que Enivaldo passe a morder ainda mais as canelas do governo que ele mesmo liderava no plenário até o último dia 30, podendo até, em algumas situações, flertar e perfilar-se com a oposição ao Palácio.
Na sessão da última segunda-feira (2), a primeira após sua destituição, o autodenominado “cachorro doido” deu vários sinais nesse sentido: avançou em secretários do governo Casagrande, como Davi Diniz (Casa Civil) e Flávia Mignoni (Comunicação). Um dia depois, provando que não há mais (se é que um dia houve) coleira que o segure, a CPI da Sonegação, presidida por Enivaldo na Assembleia, convocou nada menos que 24 pessoas para depor no dia seguinte, entre elas representantes da Fundação Renova, os presidentes das mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton e de cinco empresas seguradoras.

A FAMÍLIA DOS ANJOS: ENIVALDO E MAZINHO

Na coluna desta sexta-feira (6), enumeramos uma série de conexões entre a crise da Assembleia com o governo, as microcrises de alguns deputados entre si e as eleições municipais do ano que vem, sobretudo a prefeito de Vitória. Faltou citar um ator muito importante nessa peça: o vereador Mazinho dos Anjos.
Cumprindo o primeiro mandato na Câmara de Vitória, pelo PSD (o partido de Enivaldo), Mazinho é sobrinho do deputado e tem feito oposição à gestão do prefeito Luciano Rezende (Cidadania) em Vitória. Mais importante ainda: lançou, em novembro, sua pré-candidatura a prefeito de Vitória no ano que vem, em um polo de oposição a Luciano, enquanto o prefeito aposta no deputado Fabrício Gandini (também do Cidadania) para a sua sucessão. Na sessão da última segunda-feira (2), no plenário da Assembleia, Enivaldo colidiu com Gandini e com o Cidadania (por tabela, com Luciano).

O DISCURSO DO PRÉ-CANDIDATO “CADÊ A MUDANÇA?”

Durante o lançamento de sua pré-candidatura, as palavras com que Mazinho dos Anjos abriu seu discurso não admitem dúvida quanto a sua suposição: “Há sete anos foi prometida uma mudança para a cidade de Vitória, mas estamos esperando isso acontecer até hoje. A verdade é que não tivemos nada de novo, a não ser a manutenção dos serviços já consolidados há 20 anos. Falta sonhar alto e ser capaz de realizar”.

POR QUE ALGUÉM QUER SER PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA?

Não é só o poder nas mãos. Não é só o prestígio político. Não é só a prerrogativa de poder montar a pauta e determinar o que será votado ou não na Casa. O presidente na Assembleia tem o poder de nomear mais de 800 servidores comissionados e de administrar, com autonomia, um orçamento superior a R$ 200 milhões por ano. É mais do que a grande maioria dos prefeitos capixabas tem para gerir. Se a Assembleia fosse um município, teria a 15ª maior receita anual entre os 78 municípios capixabas (79 com ela).

CAMPEÃO DE AUDIÊNCIA NO PRÉDIO

Comentário de vários funcionários da Assembleia Legislativa: a Casa inteira parou para assistir ao aguardado pronunciamento de Enivaldo dos Anjos, na última segunda-feira (2), dois dias após ser derrubado do cargo de líder do governo. Todos os servidores, em todos os departamentos e gabinetes, pararam o que estavam fazendo para grudar nas telas dos computadores e televisores, sintonizados na TV Assembleia.

BRIZOLA DOS ANJOS

Algo que também chamou bastante a atenção no discurso de Enivaldo foi sua retórica no estilo brizolista. Nos primórdios de sua carreira política, em meados dos anos 1980, o ex-prefeito de Barra da São Francisco era mesmo do PDT de Leonel Brizola.

Cena Política: para quem dizia que Erick é "imaturo"...

Para alguns, Erick Musso demonstra maturidade política precoce para a sua idade, e essa virtude teria sido justamente o que lhe permitiu chegar tão alto, tão jovem: chegou à presidência da Assembleia aos 29 anos e até hoje, aos 32, mantém-se ali. Para outros, em alguns episódios – destacadamente esse da eleição precipitada da Mesa para o biênio 2021-2023 –, o jovem presidente revela uma imaturidade que não condiz com a fama e as qualidades que lhe são atribuídas. Seja como for, o jornalista Fábio Zanini, interino da coluna Painel, decidiu chamar Erick de Maduro, mas não em um sentido positivo, no último domingo (1º). Destacando a “manobra inédita [de Erick] na história recente do Espírito Santo”, fez duas notas intituladas “Venezuela é aqui”, na edição do último domingo (1º) da Folha de S. Paulo.

Venezuela capixaba?

Vitor Vogas

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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