Publicado em 23 de agosto de 2025 às 06:00
Nas salas de aula, cada aluno carrega um universo único em sua mente e, nesse cotidiano escolar, a neurodiversidade também está presente. Mas reunir esses cantos inexplorados da cabecinha dos estudantes aos desafios já conhecidos no processo de ensino-aprendizagem provoca um questionamento: as escolas estão preparadas para receber neurodivergentes? >
Antes de tentar responder à questão, é importante conhecer um pouco desse cenário: pela primeira vez no país, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou, este ano, dados relacionados a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O Censo 2022 apontava 51 mil diagnosticados no Espírito Santo, dos quais 2,1%, ou seja, 1.071 estavam em idade escolar (estudantes com 6 anos ou mais).>
A pesquisa, por enquanto, fez um raio-x apenas do TEA, mas há inúmeras neurodivergências presentes em salas de aula, como o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno Opositivo Desafiador (TOD), que precisam ser observadas e os alunos, acolhidos.>
Para a pedagoga Rayane Almeida Vasconcellos, especialista em Educação Especial Inclusiva, a inserção de estudantes com essas condições precisa ir além da matrícula garantida. >
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Rayane Almeida Vasconcellos
pedagoga e especialista em Educação Especial InclusivaRayane pondera que, apesar da "boa vontade e do desejo de acolher", muitas escolas ainda pecam com a ausência de professores com formação específica, recursos materiais e apoio técnico.>
"Em instituições particulares, mesmo sabendo da importância da inclusão, muitas vezes, não há disposição para investir em profissionais capacitados e especializados nem em salas de recursos adequadas. Já nas escolas públicas, a legislação garante direitos, mas nem sempre isso é cumprido na prática. O que vemos são muitos profissionais despreparados para atender às necessidades específicas de cada aluno neurodivergente, o que compromete diretamente o processo de ensino e aprendizagem", diz.>
Outro ponto a ser observado, continua Rayane, é o da proposta de ensino integral para alunos neurodivergentes, justamente pela falta de recursos, profissionais e planejamento pedagógico de qualidade para o período estendido no ambiente escolar.>
"Em vez de promover avanços, esse modelo pode gerar sobrecarga e desregulação, caso não seja conduzido com responsabilidade e personalização", argumenta a pedagoga.>
Rayane Vasconcellos explica que, no cotidiano escolar, cada aluno aprende de forma única – seja ele neurodivergente ou não. Logo, é necessário adaptar conteúdos de maneira lúdica, sensível e acessível, promovendo o interesse e o engajamento dos alunos nas atividades propostas. >
"A inclusão acontece quando o aluno deixa de ser tratado apenas como 'acolhido' e passa a ocupar um espaço de pertencimento e protagonismo, com estratégias construídas a partir das suas reais necessidades e de seus interesses”, sustenta Rayane. >
Camila Nasser Mancini, neuropsicóloga clínica e pesquisadora em neurodiversidade, pontua que, apesar de a discussão de inclusão escolar datar do início dos anos 2000, o ambiente escolar, 25 anos depois, ainda engatinha nos procedimentos de inclusão de forma efetiva. >
A boa notícia para mudança deste cenário, segundo Camila, que também é professora de Psicologia da Faesa, é que o tema tem sido tratado cada vez com mais frequência nos cursos atrelados à educação.>
Camila Nasser Mancini
neuropsicóloga clínicaReforçando o posicionamento da pedagoga Rayane, a psicóloga pontua que, para que mais professores atuem de forma inclusiva, é necessário um esforço de personalização e capacitação contínua, com tempo, valorização salarial, incentivos e assistências, por exemplo.>
"A inclusão começa a florescer, de fato, quando há interesse governamental atrelado a uma mudança substancial que nos permita entender a aprendizagem, a pluralidade humana e o direito à cidadania. Não existe mudança de conduta sem mudanças profundas no olhar sobre o outro", complementa Camila.>
Para integrar o ensino de crianças típicas e atípicas sem excluir nenhuma delas do aprendizado eficaz, a especialista argumenta que a aplicação do ensino não pode ser pensada de maneira generalizada para todos os alunos. Isto é, são necessárias ferramentas para um ritmo de aprendizagem que respeite as individualidades e necessidades de cada estudante. Ela ainda pontua que esses esforços vão além dos limites das escolas e universidades.>
Em resumo, as especialistas destacam que o melhor caminho para a construção de um ambiente escolar verdadeiramente inclusivo depende de compreensão e capacitação por parte dos professores, de políticas públicas voltadas para o respeito e o acolhimento da população neurodivergente e também da conexão entre sociedade escolar com a família de alunos atípicos.>
"São pilares que, quando alinhados, garantem o bem-estar, o desenvolvimento e a inclusão real dos alunos. Nesta parceria, que não pode ser substituída por laudos, relatórios ou atendimentos isolados, a inclusão é construída no cotidiano, na rotina e na autonomia do estudante", ressalta a pedagoga Rayane Vasconcellos.>
Por sua vez, a psicóloga Camila Nasser destaca que uma sala de aula diversa abre portas para o respeito humano em suas pluralidades, o que é fundamental em um país tão heterogêneo como o Brasil.>
"Acolher o outro aumenta as chances de construção de um ambiente agradável para todos. Com esses esforços, é possível entender que o direito à vida, à dignidade e à educação são inalienáveis e que não cabe a ninguém ditar o valor ou a relevância da existência, ou da aprendizagem do outro. É entender que a neurodiversidade faz parte da condição humana", conclui Camila.>
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