Publicado em 16 de agosto de 2025 às 06:00
Pensar na vida adulta sem as telas parece praticamente impossível. Do trabalho à organização das tarefas de casa, tudo passa pelo celular ou pelo computador. Ocorre que essa dinâmica digital também tem se transformado na rotina de muitas crianças e adolescentes. Hoje, os mais novos já usam a internet para quase tudo, da comunicação com os colegas até a resolução das atividades escolares. >
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que as gerações mais novas estão cada vez mais conectadas. Levantamento divulgado em 2024 mostrou que 84,2% das pessoas na faixa etária entre 10 e 13 anos estão ligadas às redes no Brasil. A proporção era de 66% no início da série histórica, em 2016. Já um estudo inédito divulgado em 2025, produzido pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, mostrou que o uso de internet e a posse de aparelho celular também cresceu entre as crianças brasileiras até 8 anos.>
Com pais e filhos com os olhos voltados às telas, emerge uma preocupação sobre a diminuição das interações no mundo real, em meio a tantas distrações provocadas pelos dispositivos móveis. Essa dinâmica tem ultrapassado os limites dos lares e sido levada à discussão nas escolas, onde os pequenos passam boa parte do tempo, às vezes até mais que com os familiares.>
O impacto negativo dos meios digitais entre crianças e adultos tem sido comprovado por meio de estudos recentes, como destaca a coordenadora de Educação Infantil do Itaú Social, Juliana Yade.>
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“Recentemente, eu vi numa pesquisa que a média de duração de conversa entre crianças e adultos era de duas horas em 1979. Hoje, esse tempo de conexão passou para dez minutos. Filósofos e psicólogos dizem o quanto que a gente aprende na relação com o outro. É notório que a tela tira essa perspectiva da interação. Então, uma pessoa fica no quarto, outra fica na sala e essa interação pouco acontece dentro do ambiente familiar”, reflete.>
Juliana Yade destaca ainda que o uso excessivo de telas por parte dos mais novos colocou o processo educacional frente a um desafio, devido à capacidade de afetar a construção cognitiva de crianças e adolescentes.>
Juliana Yade
Coordenadora de Educação Infantil do Itaú SocialPara o head de Educação Midiática do Instituto Vero, Victor Vicente, o caminho para aprimorar a interação entre pais e filhos é a educação digital, que deve ser abordada não só nas escolas, mas também em casa.>
“É importante reconhecer que nenhuma geração está completamente preparada para lidar sozinha com esse cenário. Tanto adultos quanto jovens precisam aprender mais sobre o ambiente digital, e esse aprendizado pode acontecer em conjunto, por meio do diálogo e da escuta”, contextualiza.>
A coordenadora de Educação Infantil do Itaú Social, Juliana Yade, faz a mesma avaliação. “Os pais precisam de um processo educativo muito profundo para pensar estratégias de como utilizar o celular sem ele se tornar o único instrumento de relação dentro de uma casa. Isso é bastante sério e a gente precisa pensar em um pacto social mesmo, para mudar essa situação”. >
Para as escolas passou a vigorar uma lei federal que restringiu o uso de celulares. Victor Vicente destaca que a medida resultou em melhora nos níveis de aprendizagem em alguns casos, mas que ainda é necessário olhar outros pontos para avaliar a efetividade. O head do Instituto Vero entende que adotar a mesma prática em casa, no entanto, não é a melhor decisão.>
“Em geral, o que temos visto nas escolas é que a proibição por si só não resolve todos os desafios da educação digital, mas pode ser mais bem recebida quando vem acompanhada de escuta, diálogo e alternativas pedagógicas para o uso da tecnologia no contexto escolar. A proibição rígida em casa tende a gerar mais tensão do que aprendizado. É mais eficaz estabelecer acordos do que regras autoritárias”, pontua.>
O especialista acrescenta que os pais podem, por exemplo, definir momentos livres de tela (como durante as refeições ou antes de dormir), criar momentos para assistir a conteúdos junto dos filhos e manter canais abertos para o diálogo: “O mais importante é que a criança não se sinta sozinha nesse universo, nem vigiada, nem abandonada”, sintetiza.>
Juliana Yade salienta que o caminho está justamente em uma prática que acabou ficando em segundo plano com a emergência dos dispositivos móveis: a descontração e o contato em momentos prazerosos.>
“A brincadeira, os jogos, a literatura, o jogo com palavras têm a capacidade de conectar as pessoas e reconectá-las a elas mesmas. É muito importante que em família haja espaço para as conversas e a ludicidade, que é um elemento tão importante para a nossa sobrevivência”, observa.>
Os mecanismos defendidos pelos especialistas em educação têm sido testados na prática, como no Colégio Madan, em Vitória. O diretor da instituição, Daniel Rojas, também entende que não basta somente proibir o uso de celular e reforça o entendimento de que é necessário possibilitar outras formas de interação para crianças e adolescentes se sentirem mais confortáveis com as famílias. >
Daniel Rojas
Diretor do Colégio MadanO diretor da escola destaca que a instituição tem oferecido, por exemplo, atividades recreativas nos intervalos, disponibilizando jogos como pingue-pongue para os estudantes se distraírem entre uma aula e outra.>
“A gente oferece outras atividades para que os estudantes interajam, não sintam falta do celular e fortaleçam ainda mais a amizade entre eles.”>
Além dos intervalos, a escola oferece atividades extraclasse, como campeonatos esportivos entre as turmas e festas juninas, por exemplo, que contribuem para a socialização na vida real.>
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