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Vidas marcadas por acidentes de trabalho em pedreiras do Estado

O Espírito Santo é o maior produtor brasileiro de rochas, mas também lidera em número de vítimas

Publicado em 24/01/2017 às 18h04
Atualizado em 13/07/2020 às 21h37

*Patrik Camporez

Cinco de outubro de 2006: Reginaldo Moura, então com 20 anos, trabalhava havia 60 dias em uma pedreira de exploração de granito em Barra de São Francisco, Noroeste do Espírito Santo. Era o seu primeiro emprego. Começa a chover, ele corre para se cobrir atrás de uma rocha, já que o local não tem abrigo, nem área de proteção. Mas, bastou alguns minutos de chuva para a pedra escorregar em cima do operário e de um colega, que morreram esmagados.

Na comunidade de São Gabriel de Baunilha, em Colatina, outra vítima. Adriano de Souza foi atingido por uma máquina escavadeira no momento em que fazia a limpeza da praça de trabalho. Morreu no dia seguinte, 18 de fevereiro de 2013, com apenas 18 anos. Um ano antes, Gilson dos Santos Mariano, o Delo, 26 anos, também se acidentou. De acordo com a família, o operário, que trabalhava numa empresa de Cachoeiro de Itapemirim, no Sul, teve que realizar a função de outro profissional, sem ter capacitação.

“Meu filho tomou um choque e, ao mesmo tempo, um parafuso entrou no pulmão. Caiu de uma altura de 10 metros e morreu em cinco minutos”, lembra, aos prantos, Dona Arlinda dos Santos Mariano, de 70 anos.

Colhidas nos grotões do Espírito Santo, as histórias de Reginaldo, Delo e Adriano misturam-se com as de outros 54 trabalhadores que morreram na atividade só nos últimos cinco anos. Nesse mesmo período, 1.602 acidentes foram registrados. Boa parte dos acidentados não conseguiu voltar a trabalhar devido à gravidade das sequelas.

Mais da metade dos casos acontece dentro das pedreiras, na área de extração. Para termos uma ideia do risco, a taxa de letalidade da atividade é de 31 óbitos para cada mil acidentes. A média estadual nos demais segmentos é de 6 mortes. Os dados são do Ministério da Previdência e do Sindicato dos Trabalhadores do Mármore e Granito do Estado (Sindimármore).

Em busca das causas de tantas vítimas, A GAZETA percorreu estradas, comunidades e vilas que se formaram no entorno das pedreiras. Foram três meses de investigação e mais de 2 mil quilômetros rodados com o objetivo de contar as histórias de vida ligadas à extração de rochas nas maiores jazidas da América Latina.

A reportagem também vasculhou relatórios ambientais, boletins de ocorrência policial, e foi a cartórios e escritórios locais do Ministério do Trabalho, de órgãos de fiscalização e dos sindicatos de trabalhadores, com a intenção de identificar os problemas que abrem caminho para as mortes.

A GAZETA foi aonde o trabalho precário e clandestino ajuda a perpetuar as condições de pobreza e esgotamento ambiental nessas regiões, em áreas de difícil acesso, mas totalmente vigiadas, devido à concentração de riquezas minerais. Flagramos trabalhadores sem carteira assinada, equilibrando-se sobre ribanceiras sem utilizar qualquer equipamento de segurança.

O espaço onde manuseiam explosivos caseiros, sem a autorização do Exército, é o mesmo onde preparam as refeições. Não há banheiro e as necessidades fisiológicas são feitas no meio do mato. Em muitos casos, o trabalho é degradante e insalubre, permeado por jornadas exaustivas, uso de ferramentas desgastadas e sem manutenção, falta qualificação para o manuseio de equipamentos e as instalações elétricas são improvisadas.

Riqueza e pobreza

Milhares de toneladas de rochas ornamentais cruzam o planeta todos os dias para abastecer mercados da Europa, China, Oriente Médio e, principalmente, Estados Unidos. O Espírito Santo detém o título de maior produtor brasileiro de rochas, daqui saem 80% das exportações, mas também é aqui onde mais se tem vítimas. Nas duas últimas décadas, foi registrada a morte de um trabalhador a cada 40 dias. São quase 100 vidas perdidas a cada 10 anos, de acordo com o Sindimármore. A entidade já denunciou a situação até na Organização das Nações Unidas (ONU).

Nas pedreiras, a sobrecarga de trabalho também é um problema. “Tinha que trabalhar aos sábados e domingos, sem folga, igual a uma máquina. Às vezes 16, 17 horas por dia. Tinha horário para entrar no trabalho, mas não tinha hora para sair. Chega uma hora que o corpo nem a mente obedecem”, relata Elio dos Santos Batista, 43 anos, de Barra de São Francisco. Nessas condições, qualquer desatenção pode ser fatal. “Tomei um escorregão em cima da pedra e caí de uma altura de sete metros. Tive traumatismo craniano, fiquei em coma 12 dias, mais 18 dias na UTI. As sequelas são para o resto da vida. Perdi o equilíbrio do corpo, tenho dificuldade para falar e não consigo virar o pescoço”.

O operário trabalhava na altura, manipulava explosivos com cordel e água. Hoje só tem 30% da capacidade de respiração, anda com dificuldade, sempre ofegante. Depois de 60 dias na cadeira de rodas, teve que reaprender a andar. Outros seis amigos dele sofreram acidentes graves, por queda. “As pessoas vão fazer bicos, não têm capacitação, por isso sofrem acidentes e morrem. Um irmão meu quebrou a coluna cervical, depois que caiu do caminhão desgovernado em uma pedreira, e também foi encostado”.

Devido à concentração de vilas e comunidades no entorno das pedreiras, é comum encontrar casas com mais de uma vítima na família. “Aqui todos têm um ente que morreu ou foi amputado em pedreira. Mas não tinha que ser assim. É a maior dor do mundo você ver seu filho sair para trabalhar e voltar morto em um caixão”, afirma a mãe de Delo. Depois que o filho morreu, Arlinda foi morar em outra cidade, para tentar diminuir a dor. Ficou fora dois anos, porque tudo na vila lembrava Delo, mas depois voltou para Itaoca, em Cachoeiro. “Mesmo longe da vila, a dor não passa um segundo do dia. Então decidi voltar e encarar. Tem uma camisa de trabalho dele que nunca lavei. Guardo do jeito que ele deixou, pois ainda tem o cheiro do seu suor”.

A família de Reginaldo também não conseguiu superar o baque do acidente. “Minha família ficou destruída. Eu também trabalhava com pedras, mas saí do emprego logo depois. Minha mãe não conseguiu superar”, conta o irmão, Eliezer Moura de Assis, 32 anos. Além da saudade, outro sentimento presente é o de revolta, principalmente porque a maior parte dos trabalhadores morre jovem, antes dos 36 anos, por causa de alguma irregularidade no ambiente de trabalho.

Outra queixa constante é a falta de apoio da empresa, depois que o filho ou marido morre. Segundo a mãe de Adriano, Neusa Nobre de Souza, de 46 anos, a pressão por mais produção fazia com que o filho obedecesse os encarregados mesmo sabendo do risco. “Me dói muito saber que, no outro dia, a empresa voltou a funcionar normalmente, como se nada tivesse acontecido. Um operário como ele não era para ficar a menos de 30 metros de distância de uma máquina daquela. É um descaso com o ser humano”.

Como punição pela morte de Adriano, a empresa firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) se comprometendo a doar R$ 35,4 mil a uma entidade local e a recolher R$ 6 mil ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), além de dar treinamento aos funcionário e manter serviço de medicina e segurança do trabalho em suas instalações.

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