Publicado em 7 de fevereiro de 2021 às 13:14
- Atualizado há 5 anos
O ritmo do programa de imunização nacional contra a Covid-19 se tornou um dos principais fatores que estão embasando as projeções de crescimento da economia em 2021. >
A avaliação é que não há como separar as duas questões, principalmente diante do recrudescimento da pandemia neste início de ano e da falta de espaço no Orçamento para bancar um programa robusto de estímulos fiscais.>
Há divergências, no entanto, em relação ao cenário atual na área de saúde. Algumas instituições e consultorias estão revisando para baixo suas estimativas devido à demora no processo de vacinação e ao aumento no número de casos e mortes neste início de ano.>
Na avaliação de outras, o país terá doses suficientes para imunizar rapidamente a parcela mais idosa da população e possui um sistema de saúde capaz de agilizar esse programa.>
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A economista Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, afirma que tem uma projeção mais cautelosa em relação ao crescimento projetado para este ano, de 2,9%, abaixo da mediana do mercado, de 3,5%, apurada pelo Banco Central na pesquisa Focus.>
Ela considera que somente ao longo do segundo semestre haverá um percentual mais expressivo da população vacinada.>
"Uma das razões é justamente a pandemia e o ritmo de vacinação. Ainda que você consiga vacinar ao longo do primeiro semestre os principais grupos de risco, dado que a maior parte da população ainda não estará vacinada, o receio em relação à pandemia, inclusive o medo de consumo de alguns serviços, ainda estará presente", afirma Ribeiro.>
A projeção é a mesma do Santander Brasil, que anteriormente tinha uma estimativa de crescimento de 3,4%, mas reviu o dado após o aumento no número de infecções e mortes neste ano.>
Lucas Maynard, economista da instituição, afirma que o ritmo de vacinação é fundamental para permitir a retomada dos segmentos mais afetados pela pandemia.>
"O canal para fazer essa ponte entre vacinação e atividade econômica é a mobilidade. Com o recrudescimento da pandemia, já se pode observar a partir de janeiro uma reversão daquele processo de reabertura", afirma Maynard.>
"Se a vacinação atrasar, a gente entende que as medidas restritivas permanecerão por mais tempo. Demorará mais para voltar à trajetória ascendente que a gente vinha observando no ano passado.">
Gabriel Barros, sócio e economista-chefe da RPS Capital, afirma que o plano nacional de imunização está atrasado, mas diz que houve algum progresso nas últimas semanas e que as informações já divulgadas apontam para uma oferta de cerca de 400 mil doses neste ano, entre vacinas que demandam uma ou duas aplicações.>
Segundo Barros, o país tem atualmente uma média de 250 mil pessoas vacinadas por dia, mas possui capacidade para vacinar até 700 mil por dia, desde que tenha as doses.>
Para ele, a velocidade do programa é importante para que não se perca o esforço de redução de jornada e salário, que preservou cerca de 10 milhões de empregos em 2020.>
Ele afirma que muitas das empresas que aderiram ao programa, que deu também estabilidade temporária aos trabalhadores, estarão livres para cortar esses postos a partir do final deste trimestre. Por isso, é importante que elas tenham a perspectiva de retomar suas atividades.>
"A previsibilidade da entrega da vacina influencia a decisão das empresas de demitir ou não. Como a gente está tendo algum progresso nesse front de vacinas, isso deve influenciar positivamente para que as empresas consigam manter os empregados. Por outro lado, se a vacinação atrasar, a gente pode jogar fora todo esse esforço que foi feito no ano passado", afirma Barros, que projeta crescimento de 4% em 2021.>
Na semana passada, o novo presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, afirmou que a instituição projeta uma alta de 4% neste ano, mas que um atraso no plano de vacinação de seis meses, por exemplo, pode reduzir o valor pela metade.>
O economista do Itaú Unibanco Luka Barbosa afirma que o avanço no programa de vacinação será importante para a recuperação de atividades que respondem por 40% do PIB e que foram as mais afetadas pela queda na atividade devido à pandemia, como educação, saúde, alimentação fora de casa, entretenimento e cultura.>
"Pode ser que seja mais rápido e você tenha uma normalização já no segundo trimestre. Com certeza esse vai ser um motor de crescimento importante para a economia brasileira e mundial", afirma Barbosa.>
Para ele, outros fatores já puseram o Brasil em uma trajetória de recuperação econômica, como juros baixos, mercado imobiliário em expansão, recuperação da economia global com muito estímulo fiscal e monetário, comércio global acelerando e puxando preço de commodities.>
"Não é só a vacina que vai gerar a recuperação. Há vários motores contribuindo para o crescimento, compensando a retirada dos estímulos. Não é algo que estou projetando, é algo que já está acontecendo", afirma.>
O economista José Márcio Camargo, da Genial Investimentos, também está entre os que revisaram a projeção de crescimento do PIB para este ano, de 3,5% para 3%, devido ao avanço da pandemia, mas, em sua avaliação, as perspectivas para o processo de vacinação são positivas.>
Ele diz que a expectativa é ter mais de 300 milhões de doses ao longo de 2021 e que a atual trajetória aponta para a imunização de 100% da população com mais de 60 anos em quatro meses.>
"Se tiver vacina --esse é o ponto mais importante. O processo de vacinação no Brasil não está tão rápido quanto todo o mundo gostaria, mas também não está tão lento. Está muito melhor que em alguns países europeus e da América Latina, mas pior que em Israel e nos EUA", afirma Camargo.>
"Nosso cenário parte do pressuposto de que o governo vai conseguir vacinas. Os contratos estão assinados, os insumos já estão vindo. Todos os países têm algum problema com a oferta de vacina. O Brasil está em uma posição relativamente boa em relação à maior parte dos países", afirma.>
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