> >
Guerra pode impactar preço dos combustíveis, mas sem risco de desabastecimento

Guerra pode impactar preço dos combustíveis, mas sem risco de desabastecimento

Disparada do petróleo amplia defasagem sobre o diesel e joga pressão por reajuste nos preços internos; empresa disse que não há risco de interrupção das importações e exportações neste momento

Publicado em 2 de março de 2026 às 20:32

RIO DE JANEIRO - A escalada das cotações internacionais do petróleo após o início da guerra do Irã joga pressão sobre os preços dos combustíveis no país e pode atrasar o ciclo de queda da taxa de juros. Especialistas, porém, não veem risco de desabastecimento.

Analistas brasileiros e internacionais dizem que o impacto sobre os preços vai depender da duração e da intensidade do conflito, principalmente em relação ao fechamento do Estreito de Hormuz por um prazo mais longo.

Por lá, passa cerca de um quinto da produção mundial de petróleo. O destino da maior parte desse volume são grandes consumidores asiáticos, como China e Índia.

Enchendo o tanque do carro com combustível, gasolina
Preço dos combustíveis pode aumentar por causa da guerra no Irã Crédito: Pixabay

O sócio da Leggio Consultoria, Marcus D'Elia, diz que, por enquanto, espera-se muita volatilidade nas cotações internacionais, mas o preço do barril deve ser contido pela sobra de óleo no mundo, resultado de a demanda crescer menos que a oferta.

Na sua opinião, um conflito de até dez dias manteria o barril entre US$ 80 e US$ 100, mas de forma temporária, já que os principais clientes do Oriente Médio têm estoques suficientes para substituir 100 a 200 dias de importação.

"Se a interrupção do estreito se prolongar por até 40 dias, outras regiões, como EUA e União Europeia, poderiam consumir os próprios estoques também, reduzindo a pressão de demanda e, com isso, contendo a alta de preços."

Em relatório divulgado nesta segunda, analistas do Scotiabank ressaltaram que o cenário atual tem impactos macroeconômicos conflitantes para o país. Por um lado, amplia as receitas com a exportação de petróleo e, consequentemente, valoriza o real. Por outro, "preços de energia estruturalmente mais altos são altamente inflacionários e quase certamente dificultariam o ciclo iminente de cortes de juros recentemente sinalizado pelo Banco Central".

André Valério, economista sênior do banco Inter, também ressalta esses dois movimentos. O aumento do preço do petróleo em dólares pressiona o custo dos combustíveis domesticamente. Por outro lado, o real tende a se beneficiar pelo Brasil ser um exportador líquido de commodities.

"Com o real sendo uma moeda bastante sensível às variações do petróleo, podemos ver uma apreciação que compense o aumento do preço", afirma o economista.

Em relação aos juros, Valério avalia que nada muda em princípio. Ele continua esperando o início do ciclo de cortes da taxa básica para a reunião de 18 de março do Copom (Comitê de Política Monetária). "A incerteza causada pelo conflito pode levar o Copom a encerrar o ciclo de cortes antes da hora, mas isso dependerá da duração e tamanho do conflito."

Marco Mecchi, diretor de investimentos da Azimut Brasil Wealth Management, também afirma que o impacto na economia brasileira é ambíguo. Preços mais altos tendem a melhorar a balança comercial, mas pode haver pressão sobre inflação e curva de juros.

Lilian Linhares, sócia e head da Rio Negro Family Office, afirma que a escalada da guerra acende um alerta para o Banco Central, mas diz que é importante separar o impacto imediato do estrutural.

"A guerra no Irã pode até tornar o discurso do Banco Central um pouco mais cauteloso, eventualmente reduzindo o ritmo ou a magnitude dos cortes. Mas, neste momento, não parece suficiente para alterar o cenário base, que ainda aponta para o início de um ciclo gradual de queda da Selic [neste mês]."

Preço do combustível

A Petrobras já vinha operando com elevadas defasagens nos preços dos combustíveis, principalmente o diesel. Nesta segunda-feira (2), com petróleo na casa dos US$ 80 por barril, a diferença entre os preços internos e externos dos combustíveis atingiu o maior patamar desde janeiro de 2025.

Na abertura do mercado, o diesel vendido pelas refinarias da estatal custava R$ 0,73 por litro abaixo da paridade de importação calculada pela Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis). Na gasolina, a diferença era de R$ 0,42 por litro.

São as maiores defasagens desde janeiro de 2025, quando a Petrobras promoveu o último aumento no preço do diesel vendido por suas refinarias. Naquela ocasião, a defasagem chegou a superar os R$ 0,80 por litro. O reajuste foi de R$ 0,22 por litro.

Procurada, a Petrobras ainda não se manifestou sobre o preço dos combustíveis. A empresa costuma esperar o estabelecimento de novos patamares de preços internacionais antes de decidir por reajustes, principalmente em momentos de grande volatilidade.

As ações da companhia reagiram positivamente à alta do petróleo, já que a maior parte de sua receita vem hoje da exportação da commodity.

As ações preferenciais da Petrobras avançavam 4,58%, cotadas a R$ 41,13 – o papel dá prioridade no recebimento de dividendos, mas não confere direito a voto. Na máxima do pregão, as ações chegaram a R$ 41,53, valorização de 5,59%.

Exportador de petróleo, o Brasil não depende do Estreito de Hormuz para garantir o abastecimento de combustíveis. O país depende de diesel importado, mas a maior parte vem dos Estados Unidos e da Rússia, diz o presidente da Abicom, Sérgio Araújo.

"Não vejo nenhum risco para o suprimento", afirma ele. "Há uma pressão maior sobre a Petrobras porque as defasagens estão muito elevadas."

A Petrobras disse, na nota enviada à reportagem, que seus fluxos de importação "são majoritariamente fora da região de crise e as poucas rotas que existem podem ser redirecionadas". "A Petrobras reforça que não há risco de interrupção das importações e exportações no momento."

Este vídeo pode te interessar

  • Viu algum erro?
  • Fale com a redação

Tópicos Relacionados

Petróleo Guerra Combustíveis Combustível

A Gazeta integra o

The Trust Project
Saiba mais