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Crise na Amazônia pode ter impacto bilionário nas exportações do ES

Se ameaças forem cumpridas, acordo União Europeia-Mercosul não deve sair, fazendo com que o Estado deixe de vender US$ 1,8 bilhões e reduza a quantidade de produtos que são vendidos atualmente

Publicado em 23/08/2019 às 13h03
Atualizado em 29/08/2019 às 21h39
Navio no Porto de Vitória: comércio exterior do ES pode ser impactado por crise. Crédito: Vitor Jubini
Navio no Porto de Vitória: comércio exterior do ES pode ser impactado por crise. Crédito: Vitor Jubini

A situação dos incêndios na Amazônia tem levantado preocupação em todo o mundo. Além das questões ambientais, os possíveis problemas econômicos, que vêm a reboque das críticas ao modo como o governo Bolsonaro vem conduzindo a situação das queimadas, têm sido discutidos por especialistas. A crise, inclusive, pode ter impacto bilionário nas exportações do Espírito Santo, por conta do risco de líderes europeus se oporem ao acordo de livre comércio entre União Europeia (UE) e o Mercosul

Países como França, Alemanha, Irlanda e Finlândia cogitam até barrar a importação de produtos com origem no Brasil se o país não cumprir seus compromissos ambientais.

Até mesmo produtos que são vendidos para outros mercados como a soja, podem ser impactados. Com a economia globalizada, outros países e empresas podem ser pressionados a impor barreiras aos produtos brasileiros.

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O Espírito Santo pode ser diretamente afetado por essas barreiras já que tem na União Europeia um dos principais destinos dos produtos que são aqui produzidos. Em 2018, por exemplo, os países europeus compraram US$ 1,8 bilhão de empresas capixabas. Neste ano, até julho, foram mais de US$ 770 milhões.

Acredita-se que o acordo entre UE e Mercosul dobre as exportações do Espírito Santo para a Europa. Fato que não deve acontecer se as ameaças dos líderes europeus forem cumpridas. Assim, além dos cortes no que já é vendido atualmente, o Estado deixaria de receber futuramente mais US$ 1,8 bilhão.

Entre os produtos mais vendidos pelo Espírito Santo que têm relação com o agronegócio estão café, celulose, pimenta, mamões, gengibre, goiaba, manga, entre outros. A carne de boi, que também tem uma grande entrada no mercado europeu é outra cujo mercado que pode sofrer - o governo da Finlândia disse que a UE deve considerar banir a importação da carne bovina brasileira. No entanto, o Frisa, um dos importadores capixabas de carne de boi, destacou que por enquanto nada mudou.

Eucalipto: sempre houve preocupação de estrangeiros com as plantações e a Amazônia. Crédito: Divulgação
Eucalipto: sempre houve preocupação de estrangeiros com as plantações e a Amazônia. Crédito: Divulgação

O mestre em Planejamento e Desenvolvimento e coordenador do curso de Gestão do Agronegócio da UVV, Wallace Millis, lembra que não é de hoje que os europeus se preocupam com as questões ambientais do Brasil, sobretudo da Amazônia.

"Lembro quando a Aracruz Celulose enviava representantes para a Europa para fechar acordos eles precisavam levar um mapa do Brasil para mostrar onde era a plantação de eucalipto e onde era a Amazônia. Com isso eles mostravam que o negócio não impactava a floresta", comenta.

"Hoje essa preocupação é ainda maior. Temos que usar os dados científicos a nosso favor para estancar o problema. Não adianta culpabilizar X ou Y. É 'apagar o incêndio' e buscar a sustentabilidade mais uma vez", acrescenta.

"Os produtos do agronegócio brasileiro que são vendidos no exterior possuem um símbolo de saudabilidade, que é cada vez mais exigida pelo consumidor europeu. Com as queimadas que podem ser para expandir a produção agrícola, o mercado europeu pode virar as costas para os nossos produtos. 'Estou financiando a queimada. Melhor não consumir os produtos do Brasil', eles devem pensar", conclui Millis.

O gerente de políticas públicas do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), Luis Fernando Guedes Pinto, avalia que, do ponto de vista econômico, o principal efeito é de inversão da reputação que foi criada nos últimos anos.

Luis Fernando Guedes Pinto, gerente de políticas públicas do Imaflora

O que estamos vendo é uma mudança na trajetória. São incêndios que têm como plano de fundo uma disputa por terras que, no primeiro momento, não vão aumentar a produção

"Fora isso, há também os prejuízos ambientais e sociais. A recuperação da biodiversidade pode levar séculos e pelo lado social existem pessoas sendo expulsas de suas terras e outras sendo mortas", relata.

DIÁLOGO

Mesmo com as ameaças de rompimento comercial, há quem aposte no diálogo para resolver os problemas econômicos que a situação ambiental pode gerar.

"Há um risco de que as exportações em todo o Brasil sejam retaliadas, que acreditamos ser pequeno. Temos especial preocupação com todas as exportações do agronegócio e da celulose. Acreditamos, entretanto, que o Brasil vai ajustar o diálogo, abrir mão desse tom mais agressivo e trazer o jogo para o campo técnico", diz o presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), Léo de Castro.

"A federação é totalmente favorável e trabalha por um desenvolvimento sustentável. Ao longo dos últimos anos a legislação ambiental do Brasil ficou muito defasada, e levou algumas pitadas de ideologia para um assunto que é técnico. Por isso, reafirmamos que os licenciamentos ambientais no país precisam ser revisados. É imprescindível que critérios claros sejam seguidos e que prazos sejam determinados para enfrentar essas questões tão urgentes relacionadas ao meio ambiente no Brasil", acrescenta.

JOGO POLÍTICO

Há também quem acredite que o posicionamento dos líderes europeus faça parte de um jogo político que tem como objetivo conquistar maior apoio popular. O presidente do

, Marcilio Machado, por exemplo, avalia dessa forma.

Imagens da queimada na região da Amazônia brasileira, exibidas na TV Globo, em agosto de 2019. Crédito: TV Globo
Imagens da queimada na região da Amazônia brasileira, exibidas na TV Globo, em agosto de 2019. Crédito: TV Globo

"Eu venho acompanhando essa negociação da UE com o Mercosul há muito tempo. E um dos maiores problemas sempre foi a resistência dos agricultores franceses. O Macron [presidente francês] está com a popularidade em baixa, enfrentando protestos há meses, e está usando a Amazônia e o Brasil como um inimigo externo para conseguir recuperar a popularidade", opina. "Se não fosse a Amazônia, seria outro problema para cancelar o acordo com o Mercosul", completa.

Ainda assim, Marcilio diz que acredita na diplomacia para que o acordo comercial entre os dois blocos seja confirmado. "O Brasil está caminhando para se tornar potência mundial. Devemos abraçar os mercados, fazer pontes ligando o Brasil com o mundo e vamos precisar de diplomacia. Sou otimista porque a diplomacia brasileira sempre foi bem vista pelos outros países."

OUTRAS OPÇÕES

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Espírito Santo (Faes), Júlio Rocha, entende que caso as promessas de rompimento de acordo comercial sejam confirmadas, o Brasil deve buscar o comércio com outros países.

"Seria um atraso se deixássemos de vender para a Europa, mas existem outras regiões para as quais que podemos vender e já estamos investindo nelas, como China, Índia, Indonésia e Vietnã", comenta.

Rocha também vê um pano de fundo político para a questão da Amazônia. "Esse assunto tem um viés político-ideológico. As pessoas colocam toda a culpa no agronegócio, mas não é assim. Eu queria é que o satélite conseguisse registrar e identificar quem ateou o fogo”, justifica. 

 

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