Publicado em 30 de maio de 2021 às 08:55
O problema da falta global de semicondutores - que tem parado a indústria automotiva em todo o mundo, incluindo no Brasil, e muitos achavam que poderia ser resolvido até o fim do ano - está longe de ter uma solução. "Ainda não temos visibilidade de quando a produção deve ser normalizada, e nos parece mais provável que a situação se estenda para outras áreas da economia antes que uma solução seja alcançada", diz um relatório da Kinea Investimentos, gestora de recursos independente que faz parte do grupo Itaú. >
Recentemente, até a Intel, uma das maiores fabricantes do produto, admitiu que serão necessários "alguns anos" para a indústria se reequilibrar. "Temos alguns anos até que possamos atender essa demanda crescente", disse o presidente da empresa, Pat Gelsinger, para o canal de TV americano CBS. Especialistas falam em pelo menos dois anos de escassez.>
Com a alta demanda por processadores, que deve continuar subindo com o rápido desenvolvimento tecnológico, e a demora para a construção de novas fábricas, preços de produtos como celulares podem aumentar 15%, segundo a consultoria KPMG (ler mais abaixo). Por outro lado, o problema tem impulsionado o setor no mercado financeiro. As ações da maior produtora de chips do mundo, a Taiwan Semiconductor Manufacturing (TSMC), subiram 130% nos últimos 12 meses.>
O gestor de ações globais da Kinea, Ruy Alves, conta que, desde o fim de 2020, tem ampliado os investimentos não só nas produtoras de semicondutores como nas companhias que fornecem equipamentos para elas, dado que novas fábricas serão necessárias nos próximos anos.>
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Para Alves, o gargalo no segmento dos chips mais modernos, usados em celulares e cuja venda tem maior lucratividade, deve durar até 2022. Na Samsung, por exemplo, a chegada de um novo modelo de celular ao mercado atrasou globalmente devido à falta dos semicondutores, segundo noticiou a imprensa coreana. Em nota, a companhia informou estar "fazendo todos os esforços para mitigar qualquer possível impacto" e "trabalhar ativamente com nossos parceiros para superar quaisquer desafios de fornecimento". A empresa destacou, porém, que seus últimos modelos já estão disponíveis no Brasil.>
No caso dos chips menos sofisticados, que são utilizados na fabricação de cafeteiras, por exemplo, a normalização deve levar ainda mais tempo. "Não há previsão. Nessa área, a indústria é muito segmentada e o problema deve ser resolvido depois", diz Alves.>
Apesar de diferentes fatores terem contribuído para a escassez de semicondutores, foi a pandemia que deixou claro que a cadeia de abastecimento global do produto é frágil. Chips minúsculos que estão em qualquer dispositivo eletrônico hoje - de celulares a aviões -, os semicondutores passaram a ser disputados globalmente quando a quarentena aumentou a demanda por computadores, celulares e videogames. Do lado da oferta, as interrupções do trabalho em fábricas decorrentes da quarentena também geraram essa crise industrial.>
Um dos pontos críticos na cadeia dos semicondutores é a concentração da produção em Taiwan. Uma única empresa - a TSMC - é responsável por 84% da produção dos menores e mais modernos chips do mundo. Com um faturamento de US$ 48 bilhões (R$ 250 bilhões) em 2020, ela detém uma tecnologia que nenhuma de suas concorrentes - a coreana Samsung e a americana Intel - consegue copiar atualmente.>
Quando a maior seca dos últimos 46 anos atingiu Taiwan no ano passado, a produção nas plantas locais da companhia teve de ser reduzida. Isso porque as fábricas de chips utilizam um grande volume de água.>
Além de a oferta ter diminuído por causa da seca e das paralisações provocadas pela pandemia, a demanda também aumentou com a China estocando processadores em larga escala. Pequim não só se precaveu à possível escassez decorrente da quarentena como também optou por expandir os estoques para se prevenir em meio à guerra comercial com os EUA.>
Já neste ano, quando ao menos a covid-19 deu uma trégua na Ásia, uma fábrica de semicondutores pegou fogo no Japão. A planta fornecia chips para a indústria automobilística.>
Não bastassem todos esses problemas, analistas afirmam que a disputa política e econômica entre China e EUA ameaça o abastecimento futuro dos semicondutores. Taiwan diz ser independente da China desde a Revolução Chinesa de 1949. A maioria dos países e organismos internacionais, porém, não reconhece a independência do território, que tem um acordo de proteção militar com os EUA.>
Nos últimos meses, a tensão entre Taipei e Pequim se intensificou, com caças chineses invadindo o espaço aéreo do inimigo e a chegada de um porta-aviões americano à região. A revista The Economist afirmou que Taiwan é hoje o lugar mais perigoso da Terra e que uma guerra no país seria uma catástrofe não só em termos humanos, mas também econômicos - tudo por causa dos chips. >
Nos EUA, as gigantes de tecnologia, que sofrem com a falta de semicondutores, têm pressionado o governo para liberar financiamento para a construção de fábricas de semicondutores. O programa de US$ 2,3 trilhões de investimentos em infraestrutura do presidente Joe Biden prevê US$ 50 bilhões para a indústria de chips.>
Para o consultor Marcio Kanamaru, sócio da KPMG, o Brasil deveria pensar em alguma política semelhante. "Se o País quer evoluir globalmente, precisa de uma política industrial que traga essas fábricas. Isso é essencial para o futuro. Pode ser que nem todas as fábricas sejam acomodadas nos EUA. Aí o Brasil poderia ser uma opção.">
Kanamaru afirma que o problema da escassez dos chips pode ser minimizado até o início do ano que vem, mas não resolvido. "Se tudo for acelerado e fábricas começarem a ser construídas no próximo semestre, serão necessários pelo menos dois anos para a situação começar a se normalizar. Talvez fábricas menores possam ser construídas rapidamente para atender a demandas emergenciais.">
A falta de semicondutores em todo o mundo pressiona as empresas brasileiras que montam as placas eletrônicas usadas hoje por praticamente qualquer equipamento eletrônico. Elas relatam aumento de preços que se aproximam de 280% e atraso de até seis meses na entrega das matérias-primas.>
Na Standard America, que tem fábrica em Campinas e produz placas utilizadas pelas indústrias automotiva, agrícola, aeronáutica e médica, as linhas de produção tiveram de ser desligadas e religadas diversas vezes entre janeiro e março. "Teve semana que ficavam paradas um dia, em outra, quatro dias, sempre à espera de componente", diz o presidente da empresa, Hidalgo Dal Colletto. "Agora, também estamos tendo muito desafio de compra. O mercado está de ponta cabeça.">
Segundo Dal Colletto, semicondutores que antes da pandemia custavam R$ 1,80 agora são vendidos a R$ 6,80, uma alta de 278%. Na média, porém, os reajustes ficam em 30%. O empresário afirma estar repassando esse aumento aos clientes. >
Para o consultor Marcio Kanamaru, da KMPG no Brasil, esse incremento no preço dos componentes deve chegar à população também, mas de forma mais moderada. "Há uma expectativa de aumento de até 25% nos semicondutores neste semestre. Isso vai elevar a pressão sobre os fabricantes de celulares, que já têm buscado inúmeras eficiências operacionais para não repassar os aumentos aos clientes. Mas eles terão de repassar pelo menos uma parte, chegando a uma estimativa de aumento em até uns 15% nos celulares e eletrônicos.">
Além de mais caros, os componentes também demoram mais para chegar. Segundo Dal Colletto, os atrasos começaram há dez meses e, agora, o que era entregue por distribuidores em dois dias precisa de 180 dias. Quanto mais específico for o chip, maior o prazo de entrega. >
Dal Colletto conta que os fornecedores não dão prazo para regularização, mas ele trabalha com a hipótese de começar a ver uma normalização apenas no início de 2023. >
Com fábrica em Manaus e produção voltada sobretudo para as operadoras de telecomunicação, a Flex Industries passou a encomendar peças com um ano de antecedência - antes eram precisos seis meses. "Tem fornecedor que garante o abastecimento e, na data de entrega, diz que não vai cumprir com o prazo", diz o diretor comercial da empresa, Decio Libertini.>
Na Flex, linhas de produção também foram interrompidas por alguns dias entre novembro e janeiro devido à falta de semicondutores e hoje a empresa paga, em média, 20% a mais pelas peças. "O prejuízo é de milhões", acrescenta Libertini. >
O presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, destaca que todos os segmentos do setor estão sofrendo. As empresas mais afetadas são as que cancelaram encomendas no início da pandemia, imaginando que a demanda demoraria para retornar, como as montadoras. "Essas foram para o fim da fila. Informática e telecomunicações também estão sofrendo, mas menos, porque a demanda foi menor no ano passado.">
O executivo diz não ser possível precisar quando haverá uma normalização. "Deveremos ter esse problema, mas em uma situação menos grave, por dois anos, pelo menos. É uma indústria que exige investimento alto e poucos detêm a tecnologia.">
Apesar de a maior parte dos especialistas prever que o problema é de longo prazo, as montadoras de carros esperam não enfrentar mais paralisações por causa da falta de semicondutores a partir de 2022.>
"O componente é sofisticado e tem casos de ter 600 semicondutores em um determinado automóvel. É possível acontecer (novas paralisações) no segundo semestre, mas a gente espera ter um sistema mais estabilizado até o fim do ano", disse o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes, no início do mês.>
Desde o começo do ano, fábricas da Fiat, da GM, da Honda e da Volkswagen pararam linhas de montagem por não ter os disputados componentes. Toyota, Volvo, Renault e Mercedes-Benz tiveram paradas pontuais e redução ou atraso de produção. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.>
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