Publicado em 24 de julho de 2023 às 10:03
RIO DE JANEIRO - Uma carreira ainda jovem na estrutura dos governos, mas que paga salário inicial de quase R$ 21 mil na esfera federal, teve 150 novas vagas anunciadas na última terça-feira (18). Com conhecimento amplo sobre o papel do Estado, o especialista de políticas públicas e gestão governamental (EPPGG) elabora projetos essenciais para o desenvolvimento socioeconômico, como o Bolsa Família e o CadÚnico.>
Entre as responsabilidades do profissional está a avaliação de propostas de governo, com o objetivo de verificar se são viáveis. Para isso, produzem notas técnicas e relatórios que auxiliam na tomada de decisões baseada em evidências.>
Outra função é a gestão governamental, em que o servidor trabalha para conseguir os insumos necessários para implementar políticas públicas, como recursos humanos e tecnológicos.>
A profissão é caracterizada pela transversalidade, quando um mesmo especialista pode trabalhar em órgãos com finalidades distintas.>
>
"Durante a vida profissional, a possibilidade de estar em qualquer entidade da administração faz com que essa rede de pessoas aprimore sua visão e consiga construir melhores soluções e políticas", diz Roberto Pojo, EPPGG e secretário de Gestão e Inovação, vinculado ao MGI (Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos).>
Segundo dados do Sistema Integrado de Administração de Pessoal, os EPPGG trabalharam, em média, em cinco entidades federais diferentes entre 2001 e 2021.>
Os profissionais atuam nas negociações entre ministérios, quando é preciso desenvolver uma política que envolva mais de uma pasta. Portanto, conhecimentos em articulação e resolução de conflitos também desempenham um papel importante. Parte dos EPPGG alcançam posições de maior escalão, como ministérios e secretarias nacionais, segundo Pojo.>
O ingresso na carreira se divide em duas fases. A primeira é uma prova, que cobre conteúdos como ciência política, economia e gestão governamental.>
Para os aprovados, a segunda fase consiste em uma formação de três meses na Enap (Escola Nacional de Administração Pública), onde aprendem sobre aspectos relacionados à atuação profissional, incluindo economia no setor público e noções de direito constitucional. Após o curso, os alunos tomam posse como especialistas.>
O salário inicial é de R$ 20.924,79. Para cargos mais altos, a remuneração pode chegar a R$ 29.832,94.>
De acordo com Roberto Pojo, os especialistas ocupam cargos principalmente no Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), conduzindo pesquisas sobre políticas públicas, no MGI, em que auxiliam a gestão governamental, e no Ministério do Desenvolvimento Social, desenvolvendo projetos de assistência.>
Os funcionários podem ser realocados para entidades fora do Distrito Federal, de acordo com o secretário, e estão espalhados por todo o país. Além disso, viajam para diferentes Estados para avaliar a implementação de políticas públicas.>
A formação interdisciplinar que os alunos recebem no Enap permite uma transição mais suave entre os órgãos, de acordo com Iara Alves, diretora de educação executiva da instituição.>
Para avançar de posto, é preciso fazer estudos de aperfeiçoamento a cada três anos. "O programa tem cursos relacionados a políticas públicas e gestão e a cada ano é replanejado para ter temas atualizados e de acordo com as necessidades e prioridades governamentais", diz Iara Alves.>
Ela afirma que a próxima turma de EPPGGs terá mais aulas sobre desigualdades atreladas a minorias, como raça e gênero. Essa nova abordagem resulta do avanço de pesquisas sobre o assunto, que mostram que políticas públicas afetam grupos sociais de maneiras distintas.>
Elizabeth Hernandes é EPPGG há 23 anos e presidente da Associação Nacional dos Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental. A formação inicial dela é em Educação Física.>
Ela diz que se identificou com a carreira por ser, assim como ela, eclética. Com mestrado e doutorado em saúde, seu primeiro trabalho como EPPGG foi no ministério da mesma área. Desde então, passou por outros órgãos como o Ministério da Educação e a Presidência da República, e teve experiência em vários projetos sociais, incluindo o Bolsa Família. Hoje, atua na gerência da Imprensa Nacional.>
"Pertencer a uma carreira de Estado pode fazer diferença na vida das pessoas, e me faz colaborar para o melhoramento do país. Sou realizada com essa escolha que, no início, a vida fez para mim, mas hoje eu escolheria novamente.">
Assim como Elizabeth, os EPPGG costumam ter graduações variadas, já que o concurso não exige uma formação específica. Mas é comum que os aprovados tenham experiência profissional ou pós-graduação.>
Professor de administração da Universidade Federal da Bahia, Antônio Sérgio Fernandes diz que os especialistas costumam ter um perfil acadêmico, o que pode facilitar atividades da rotina, como a produção das notas técnicas e programas, feitos a partir de pesquisas.>
Apesar da formação específica da Enap, universidades públicas e privadas no país oferecem cursos na área que podem ajudar os interessados na carreira. O mestrado profissional é uma das principais modalidades para isso, segundo Fernandes, pela ênfase maior no trabalho prático do servidor.>
Criada em 1989, o EPPGG ainda não é amplamente conhecido. Fernando de Souza Coelho, professor de administração na USP, diz que isso está ligado ao fato de que os conceitos de políticas públicas e gestão governamental são abstratos para parte da sociedade.>
Por outro lado, a função vem se expandindo pelo país, adotada por governos estaduais e municipais, o que pode ampliar o conhecimento sobre seu papel. Segundo o professor, profissionais similares ao EPPGG estão presentes em cerca de dois terços dos Estados brasileiros e têm se difundido por municípios, sobretudo nas capitais.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta