São Paulo - A B3 acionou o mecanismo de circuit breaker após os ativos brasileiros apresentarem forte queda nesta segunda-feira (26), após o presidente Lula (PT) vencer o segundo turno das eleições presidenciais contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), frustrando apostas do mercado na vitória do senador. Dólar e juros também dispararam.
A Bolsa brasileira retomou as negociações por volta das 10h45. Às 13h42, o Ibovespa registrava queda de 15,80%, aos 172.676 pontos, e caminhava para fechar no menor patamar desde junho deste ano. Na mínima, recuou 17,34%.
No mesmo horário, o dólar disparava 8,72%, a R$ 5,425. Na máxima do dia, a alta chegou a 12,37%, levando a moeda americana a R$ 5,604. A cotação da moeda americana retoma patamares registrados em dezembro de 2025.
O estresse também se refletia nos juros futuros e na Bolsa. Às 13h43, a taxa DI para janeiro de 2027 subia para 13,727%, alta de 25 pontos-base, enquanto a taxa DI para janeiro de 2031 avançava 281 pontos-base, para 15,455%.
Em meio à turbulência, o Tesouro Nacional cancelou leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação (IPCA+). Quando os juros futuros sobem, os investidores tendem a exigir uma remuneração maior para comprar títulos novos, o que pode elevar o custo de financiamento da dívida pública.
O risco-Brasil, indicador que mede a percepção dos investidores sobre o risco de investir no país, registrava alta de 19,6% às 13h45. A elevação do índice sinaliza uma maior desconfiança do mercado em relação à capacidade do Brasil de honrar seus compromissos financeiros, o que pode encarecer a captação de recursos no exterior por empresas e pelo governo.
O movimento reverte a valorização dos ativos após o primeiro turno das eleições, quando prevalecia a expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro e de um ajuste fiscal mais rigoroso sob seu governo. No pregão seguinte à primeira rodada da eleição, a Bolsa subiu 7,70%, aos 206.911 pontos, em recorde em termos nominais e reais. O dólar, por sua vez, caiu 4,11%, a R$ 5,001, na maior queda diária desde 2018, quando a moeda havia recuado 5,50% em uma única sessão.
Nesta segunda-feira (26), entre as poucas ações em alta estão as de empresas exportadoras, que recebem boa parte de suas receitas em dólar e podem se beneficiar da valorização da moeda americana. O maior ganho era da Suzano, cujas ações avançavam 8,91% por volta das 13h45. Já a Vale, uma das empresas de maior peso no Ibovespa, subia 5%. Também registravam ganhos as ações da Embraer, WEG, Bradespar e Klabin.
Para os investidores, a continuidade de Lula na Presidência aumenta o temor de que não haja medidas suficientes para ajustar as contas públicas. A expectativa de menor controle fiscal tende a elevar o prêmio de risco exigido pelos investidores para financiar o governo, pressionando a curva de juros. Taxas mais altas, por sua vez, podem encarecer o crédito para as empresas e reduzir as perspectivas de lucro, pressionando o mercado acionário.
A percepção é reforçada por instituições financeiras. O JP Morgan rebaixou a recomendação do real e dos títulos públicos nacionais de "overweight" para "marketweight" após a vitória de Lula.
De acordo com Vinicius Moreira e sua equipe, o resultado, considerado inesperado, deve levar a uma "reavaliação significativa" dos ativos. Os analistas do banco também apontam preocupações com a postura da oposição diante do resultado, após Flávio Bolsonaro não reconhecer a derrota, além de incertezas sobre a composição do novo governo e a reação do mercado. Nesse cenário, os preços dos ativos e as expectativas dos investidores podem influenciar as perspectivas para a política econômica.
O BTG Pactual afirmou, em relatório, que espera uma venda expressiva de ações brasileiras nas próximas semanas, com o Ibovespa podendo atingir rapidamente os 170 mil pontos. Para o real, o banco projeta desvalorização de 10% a 15%. "Taxas de juros de longo prazo, uma moeda mais fraca e expectativas desancoradas podem levar o Banco Central a evitar um corte de juros mais agressivo no curto prazo", disseram os analistas.
Para Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, a forte queda da Bolsa reflete o aumento da aversão ao risco após o resultado eleitoral. Segundo ela, o acionamento do circuit breaker busca conter a pressão vendedora e evitar um efeito cascata de desvalorizações.
"Esse movimento defensivo dos agentes financeiros ocorre devido a um descompasso de expectativas do mercado em relação ao resultado das urnas, forçando os operadores a buscarem o dólar como refúgio enquanto aguardam sinalizações claras sobre as futuras diretrizes econômicas e fiscais do país", afirma.
Para Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos, a reeleição do Lula gera temores fiscais entre analistas. "O mercado entende que o governo pode continuar com gastos altos, crédito subsidiado, políticas mais populistas e aumento da relação entre dívida e PIB (Produto Interno Bruto). Então, os juros teriam trajetória de alta."
Segundo ele, a leitura tem impacto sobre a Bolsa, já que empresas com receitas em dólar tendem a enfrentar melhor esse cenário, enquanto companhias do varejo podem ser mais prejudicadas pelos juros elevados.
A reação dos ativos já era esperada por agentes do mercado. Levantamento do Citibank com 73 gestores de fundos de ações e multimercado mostrou que 80% dos entrevistados esperavam que a vitória de Lula provocasse uma queda superior a 5% no Ibovespa nesta segunda-feira. Outros 7% projetavam recuo entre 1% e 5%, enquanto 3% esperavam valorização de 1% a 5%.
No câmbio, 63% dos gestores esperavam uma desvalorização superior a 5% do real, enquanto outros 28% estimavam recuo entre 2% e 5%. Já 6% projetavam valorização superior a 5% da moeda brasileira.
Para os analistas, contudo, a trajetória do dólar e da Bolsa no médio prazo dependerá das sinalizações sobre a política fiscal. "Pode haver um movimento muito forte no pós-eleição, mas sua consolidação vai depender das medidas do candidato eleito. A depender de como o vencedor conduzir a política fiscal, podemos ter uma reversão das expectativas iniciais", diz João Daronco, analista da Suno Research.
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