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Análise econômica

Como o El Niño pode pesar no bolso dos brasileiros até 2027

Após a desaceleração dos impactos do petróleo, clima pode pressionar alimentos, energia elétrica e dificultar a queda da inflação nos próximos meses

Publicado em 13 de Julho de 2026 às 08:18

Públicado em 

13 jul 2026 às 08:18
João Pedro Prata

Colunista

João Pedro Prata

Depois de um início de ano turbulento, o consumidor e o investidor brasileiro finalmente começam a respirar um pouco mais aliviados. O primeiro semestre de 2026 foi marcado por fortes choques internacionais, puxados sobretudo pelos conflitos no Oriente Médio, que dispararam o preço do petróleo e contaminaram fretes, combustíveis e a cadeia industrial. Felizmente, o pior dessa tempestade geopolítica ficou para trás, com o recuo do barril, os bens industriais começam a desacelerar, e o Boletim Focus interrompeu a sequência de revisões para cima, estabilizando a projeção do IPCA em torno de 5,30%.


O risco inflacionário do segundo semestre deixou de ser o preço da energia internacional e passou a ser o clima. O grande vilão atende pelo nome de Super El Niño.

Nasa capta imagem do El Niño - fenômeno meteorológico que eleva as temperaturas
Nasa capta imagem do El Niño - fenômeno meteorológico que eleva as temperaturas Sentinel-6 Michael Freilich / Nasa

Como um choque de oferta clássico, o fenômeno meteorológico atua em duas frentes cruciais para o bolso do cidadão: o prato de comida e a conta de luz. Estimativas históricas apontam que um ciclo forte do El Niño pode acrescentar 0,3 ponto percentual ao IPCA no ano de sua ocorrência e outros 0,4 pontos percentuais no ano seguinte.


No campo, a conta já começou a chegar. O El Niño bagunça o regime de chuvas, trazendo excesso de precipitação para o Sul, seca severa para o Norte e Nordeste, e uma forte irregularidade para o Centro-Oeste (o coração produtor de grãos do país). Na prática, estima-se que a alimentação no domicílio possa subir 8% em 2026. Alimentos in natura, como hortaliças e frutas, sofrerão com forte volatilidade até dezembro. Para além disso, o atraso na colheita de culturas como o café e a quebra de safra da soja e do milho encarecem a ração animal, pressionando adiante o preço de carnes, aves e suínos.

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Na outra ponta, o setor elétrico sofre o impacto combinado do calor e da falta de água. As temperaturas elevadas aumentam o uso de refrigeração, disparando o consumo de energia quando os reservatórios do Norte e Nordeste operam em níveis baixos. Sem água suficiente nas hidrelétricas, o país é obrigado a acionar usinas termelétricas, que geram uma energia muito mais cara. O resultado direto é o acionamento das temidas bandeiras tarifárias (amarela ou vermelha) na conta de luz. No mercado livre, contratos já flertam com o patamar de R$ 280/MWh.


Diante desse cenário, a cautela adotada pelo Banco Central faz todo sentido. Embora julho e agosto tragam leituras mensais de inflação mais comportadas, o fantasma climático torna o comportamento do IPCA imprevisível entre o final de 2026 e o início de 2027.


Para o investidor, a mensagem é de vigilância. Momentos de calmaria temporária não devem ser confundidos com o fim do ciclo inflacionário. Em um cenário em que o termômetro e o pluviômetro mandam mais na economia do que a geopolítica, manter uma carteira de investimentos diversificada continua sendo a melhor estratégia para blindar o poder de compra.

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João Pedro Prata

Atua no mercado financeiro desde 2017. É assessor de investimentos na Valor Investimentos e membro do Ibef/ES. É formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

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