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Economia capixaba

O ES cresceu, mas precisa transformar crescimento em desenvolvimento

PIB capixaba avançou 4,7% no segundo trimestre de 2026, mas o crescimento econômico, sozinho, não garante mais renda, produtividade e desenvolvimento para a população

Publicado em 09 de Setembro de 2026 às 08:43

Públicado em 

09 set 2026 às 08:43
Felipe Storch

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Felipe Storch Felipe Storch

O Espírito Santo encerrou o segundo trimestre de 2026 com um resultado econômico expressivo. O Produto Interno Bruto estadual alcançou R$ 72,1 bilhões, o maior valor nominal já registrado em um trimestre. Na comparação com o mesmo período do ano anterior, a economia capixaba cresceu 4,7%. No primeiro semestre, a expansão chegou a 4,8%, mais do que o dobro do crescimento de 2% observado no Brasil.


Os números devem ser comemorados. Eles demonstram a capacidade de reação da economia capixaba, a força de setores relevantes e os efeitos de um ambiente institucional que, ao longo dos últimos anos, tem contribuído para atrair investimentos. Também ajudam a sustentar o emprego, ampliar a arrecadação e melhorar as expectativas dos empresários. O problema começa quando um bom resultado conjuntural é confundido com a solução dos desafios estruturais do Estado.

Vista aérea de Portocel, porto da Suzano (51%) e da Cenibra (49%), localizado em Aracruz
Vista aérea de Portocel, em Aracruz: Portos e indústria impulsionam a economia capixaba, mas desenvolvimento exige mais  Portocel/Divulgação

O crescimento do PIB mostra que a economia produziu mais bens e serviços. Não informa, sozinho, como essa riqueza foi distribuída, quantos empregos de qualidade foram criados, quanto a produtividade avançou ou se a capacidade de crescimento futuro aumentou. Uma economia pode crescer rapidamente durante determinado período, impulsionada por commodities, investimentos de grande porte ou condições externas favoráveis, sem que esse movimento se traduza integralmente em ganhos permanentes de renda e bem-estar.


Essa distinção é particularmente importante no Espírito Santo. A economia capixaba possui elevada participação de atividades ligadas à produção de commodities, como petróleo, mineração, siderurgia, celulose, rochas ornamentais e café. São setores fundamentais, competitivos e capazes de gerar divisas, investimentos e receitas públicas. Entretanto, seu desempenho também está exposto a preços internacionais, decisões de grandes empresas e oscilações da economia mundial.


Isso significa que parte do crescimento pode decorrer de movimentos que não estão inteiramente sob o controle do Estado. Uma alta na produção de petróleo, uma boa safra ou a valorização de uma commodity podem elevar rapidamente o PIB. Da mesma forma, uma queda de preços, ou um problema climático, ou a desaceleração de um parceiro comercial pode inverter o cenário. O crescimento atual é relevante, mas sua sustentabilidade dependerá da capacidade de utilizar essa boa fase para reduzir vulnerabilidades.


É nesse ponto que surge uma pergunta essencial: a economia capixaba está apenas produzindo mais ou também está se tornando mais produtiva, diversificada e preparada para o futuro?


A diferença não é apenas conceitual. O crescimento baseado na ampliação do uso de recursos aumenta a produção por meio de mais trabalhadores, máquinas, terras ou matérias-primas. Já o crescimento da produtividade permite produzir mais valor com os mesmos recursos. É a produtividade que sustenta, no longo prazo, salários maiores, empresas competitivas e melhoria da renda por habitante sem gerar pressões permanentes sobre os custos.


O Espírito Santo precisa aproveitar o ciclo atual para ampliar os efeitos do crescimento sobre toda a estrutura econômica. Os grandes investimentos industriais e logísticos podem produzir encadeamentos com fornecedores locais, prestadores de serviços, empresas de tecnologia e pequenos negócios. Mas isso não acontece automaticamente. Sem mão de obra preparada, infraestrutura adequada, acesso a financiamento e capacidade empresarial, uma parcela importante das compras e dos empregos qualificados pode ser atendida por agentes de fora do Estado.


Transformar investimento em desenvolvimento exige políticas voltadas à integração das cadeias produtivas. Isso envolve mapear as necessidades das empresas que estão chegando, preparar fornecedores locais, apoiar processos de certificação, facilitar o acesso ao crédito e aproximar universidades, centros de pesquisa e setor produtivo. O objetivo não deve ser apenas receber uma nova planta industrial, mas aumentar a quantidade de valor que permanece e circula dentro da economia capixaba.


Também é necessário observar a qualidade dos empregos criados. Uma economia pode apresentar crescimento do PIB sem produzir aumento equivalente da renda da maior parte da população. Isso ocorre quando a expansão está concentrada em setores intensivos em capital, com elevada produção, mas geração relativamente limitada de postos de trabalho. Por isso, a avaliação da boa fase precisa considerar salários, formalização, produtividade do trabalho e possibilidades de progressão profissional.

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Outro desafio é a distribuição territorial do crescimento. Grandes projetos podem dinamizar municípios específicos sem produzir efeitos proporcionais nas demais regiões. O desenvolvimento capixaba será mais robusto se as oportunidades alcançarem também o interior e estimularem atividades conectadas às vocações locais. Agroindústria, turismo, tecnologia, economia do mar, logística e serviços especializados podem contribuir para uma estrutura produtiva mais diversificada e menos dependente de poucos setores.


A boa situação fiscal do Espírito Santo oferece uma vantagem importante nesse processo. Estados com contas organizadas conseguem investir, planejar e reagir melhor a crises. Contudo, responsabilidade fiscal não deve ser entendida apenas como controle da despesa. Ela também envolve qualidade do gasto, seleção rigorosa de projetos e avaliação de resultados. Investir mais é positivo, mas investir bem é o que efetivamente amplia a capacidade produtiva.


Cada novo investimento público precisa ser avaliado por sua contribuição para reduzir custos, elevar a produtividade e melhorar a vida das pessoas. Uma estrada não deve ser medida apenas por sua extensão, mas pelo tempo e pelo custo logístico que reduz. Um programa de qualificação precisa ser avaliado pela inserção profissional e pelo aumento de renda que proporciona. Uma política de incentivo deve demonstrar quantos investimentos adicionais, empregos e encadeamentos produtivos efetivamente gerou.


Há ainda uma dimensão de prudência. Períodos de expansão econômica elevam a arrecadação e criam a sensação de que o crescimento continuará indefinidamente. Esse é justamente o momento em que governos e empresas precisam evitar a acomodação. Receitas extraordinárias ou muito dependentes de commodities não devem financiar compromissos permanentes sem a devida segurança. Parte desses recursos precisa fortalecer a capacidade de investimento, formar reservas e preparar a economia para ciclos menos favoráveis.


O Fundo Soberano do Espírito Santo representa uma iniciativa coerente com essa lógica. Recursos derivados de riquezas naturais finitas podem ajudar a financiar a diversificação econômica e preservar oportunidades para as próximas gerações. Para cumprir esse papel, o fundo precisa combinar governança, transparência, disciplina financeira e critérios claros de retorno econômico e social.

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O resultado recente do PIB confirma que o Espírito Santo possui ativos importantes. Localização estratégica, base industrial, estrutura portuária, produção energética, agricultura competitiva e estabilidade institucional formam uma plataforma favorável ao crescimento. Ainda assim, essas vantagens não são permanentes. Outros Estados e países também disputam investimentos, modernizam sua infraestrutura e oferecem ambientes regulatórios mais simples.


A pior resposta ao bom desempenho seria tratar o crescimento como garantia de sucesso futuro. A melhor seria enxergá-lo como uma janela de oportunidade. O Espírito Santo pode utilizar a expansão atual para investir em produtividade, diversificar sua economia, fortalecer fornecedores locais, melhorar a qualidade dos empregos e aumentar a eficiência das políticas públicas.


O PIB recorde mostra o tamanho da economia que construímos. O desenvolvimento será medido pela capacidade de transformar essa riqueza em renda, oportunidades, serviços públicos melhores e crescimento sustentável. Mais importante do que celebrar o número de um trimestre é assegurar que a boa fase de hoje amplie as possibilidades econômicas dos capixabas de amanhã.

Leia mais na coluna Felipe Storch

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Felipe Storch

Felipe Storch Felipe Storch

Felipe Storch Damasceno e economista com mestrado e doutorado em Administracao e Contabilidade. E professor de Economia e pesquisador dos impactos sociais e economicos de politicas publicas. Tambem e consultor, palestrante e comentarista na CBN Vitoria

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