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Educação e economia

Capital humano: a próxima fronteira do Espírito Santo

Com novos investimentos e uma economia mais complexa, o Espírito Santo precisa transformar educação, qualificação e oportunidades em uma estratégia de desenvolvimento

Publicado em 02 de Setembro de 2026 às 08:16

Públicado em 

02 set 2026 às 08:16
Felipe Storch

Colunista

Felipe Storch Felipe Storch

O Espírito Santo chega aos próximos anos com ativos que poucos estados brasileiros reúnem ao mesmo tempo: estabilidade institucional, posição logística estratégica, expansão industrial, infraestrutura portuária, diversificação econômica e uma agenda de investimentos que alcança energia, logística, petróleo e gás, siderurgia, serviços e tecnologia. Mas há uma condição para que esse impulso se converta em desenvolvimento duradouro: formar pessoas capazes de sustentar uma economia mais complexa, produtiva e inovadora.


É por isso que um plano de governo sério precisa tratar o capital humano como eixo central de desenvolvimento. Não basta incluir educação entre outras prioridades. É necessário conectá-la às políticas de trabalho, inovação, saúde, mobilidade, segurança e desenvolvimento produtivo. A qualidade da mão de obra não nasce apenas dentro da escola; ela resulta de um sistema que permite aprender, trabalhar, se qualificar e progredir.


O debate público, com frequência, reduz o problema educacional a duas medidas: construir escolas e valorizar professores. São condições necessárias, mas não suficientes. Uma escola bem equipada não garante aprendizagem se o currículo não desenvolve as competências adequadas, se o professor não dispõe de tempo protegido para aperfeiçoar sua prática e se o aluno chega à sala de aula exausto, inseguro ou se ausenta por dificuldades de transporte, saúde ou violência.

Cursos técnico, como o de Informática, estão no Recall 2026
A formação técnica é um dos caminhos para preparar jovens para as novas demandas do mercado de trabalho Shutterstock

O ponto de partida deve ser uma pergunta mais exigente: o que, de fato, os estudantes estão aprendendo e como isso os prepara para a vida produtiva e cidadã? O Espírito Santo precisa avançar em uma reforma curricular que dê centralidade à ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática — as habilidades STEAM. Não se trata de transformar toda formação em treinamento técnico. Trata-se de assegurar que os jovens dominem raciocínio lógico, leitura e comunicação, resolução de problemas, criatividade, cultura digital, colaboração e capacidade de aprender continuamente.


Essa transformação passa, inevitavelmente, pelos docentes. A política de formação continuada precisa deixar de ser uma sequência de cursos isolados, sem ligação clara com a sala de aula. O professor precisa de períodos regulares para treinamento, planejamento, observação de práticas eficazes e acompanhamento pedagógico. Isso exige reorganizar a carga horária e proteger um tempo de qualidade para o desenvolvimento profissional, em vez de concentrar toda a energia na administração da rotina.


Também é preciso avaliar se a formação está produzindo resultado. O treinamento deve ser seguido por métricas de aprendizagem, observação pedagógica e apoio direcionado onde houver dificuldade. Ao mesmo tempo, deve ser uma oportunidade de reconhecer quem entrega bons resultados e de identificar profissionais que necessitam de suporte adicional. Avaliar não significa punir automaticamente; significa criar responsabilidade, corrigir trajetórias e fazer com que o investimento público chegue ao aluno em forma de aprendizagem real.


Uma estratégia de capital humano, porém, não pode se limitar aos jovens que ainda estão na escola. O Estado precisará lidar com a transição de trabalhadores já inseridos no mercado, especialmente diante da automação de tarefas rotineiras. A resposta equivocada seria tentar impedir a tecnologia de avançar para preservar ocupações que podem desaparecer. A resposta inteligente é usar esse avanço para elevar produtividade e abrir espaço para funções melhor remuneradas.


Linhas de crédito voltadas à automação podem cumprir papel relevante se forem desenhadas com contrapartidas. Empresas que financiarem equipamentos, softwares ou inteligência artificial para automatizar rotinas poderiam apresentar planos de qualificação e realocação de trabalhadores. Em vez de trocar pessoas por máquinas, o objetivo seria deslocar trabalhadores de tarefas repetitivas para atividades de análise, relacionamento, manutenção, controle de qualidade, supervisão, vendas ou gestão. A tecnologia deve libertar tempo humano para funções em que julgamento, criatividade e interação fazem diferença.

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Fim da escala 6x1 exige aumento de produtividade para ser sustentável

Essa agenda exige coordenação entre governo, empresas, escolas técnicas, universidades, Sistema S e municípios. O setor produtivo precisa sinalizar quais competências serão demandadas; as instituições formadoras precisam responder com agilidade; e o governo deve reduzir a distância entre qualificação oferecida e emprego disponível. Não basta contar matrículas ou certificados. É preciso acompanhar inserção profissional, evolução salarial, permanência no emprego e aderência entre formação e ocupação.


Há ainda uma dimensão muitas vezes negligenciada: a eficácia do ensino depende das condições de vida. Saúde, trânsito e segurança são políticas educacionais indiretas, mas decisivas. Crianças e adolescentes que perdem aulas por problemas de saúde aprendem menos. Famílias submetidas a trajetos longos e imprevisíveis enfrentam mais atrasos e evasão. Escolas inseridas em ambientes inseguros têm dificuldade de reter alunos, professores e equipes. Uma política de capital humano precisa enxergar essa cadeia inteira.


O Estado já demonstrou que planejamento, cooperação institucional e continuidade administrativa podem produzir resultados. O próximo passo é transformar essas capacidades em uma agenda de longo prazo para formar talentos e ampliar oportunidades. Atrair investimentos é importante; garantir que os capixabas possam ocupar os melhores postos gerados por esses investimentos é ainda mais.


O desenvolvimento sustentável não será medido somente por obras, plantas industriais ou cifras anunciadas. Ele será medido pela capacidade de criar uma geração mais preparada, trabalhadores mais produtivos e empresas mais inovadoras. O Espírito Santo tem a chance de fazer do capital humano sua principal infraestrutura: aquela que não se esgota, aumenta a renda e permite que o crescimento seja compartilhado ao longo do tempo.

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Felipe Storch

Felipe Storch Felipe Storch

Felipe Storch Damasceno e economista com mestrado e doutorado em Administracao e Contabilidade. E professor de Economia e pesquisador dos impactos sociais e economicos de politicas publicas. Tambem e consultor, palestrante e comentarista na CBN Vitoria

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