Esta primeira quinzena de março foi marcada por alguns movimentos, diretos ou indiretos, no xadrez político-eleitoral do Espírito Santo visando à disputa estadual de 2022. Um deles foi o ingresso definitivo do deputado federal Evair de Melo (PP) nesse jogo, numa linha de oposição ao governador Renato Casagrande (PSB), conforme analisamos aqui nesta segunda-feira (15). A seguir, analisamos outros três lances que podem impactar na próxima eleição ao governo do Espírito Santo.
Em paralelo ao movimento de Evair, alguns partidos políticos e outros jogadores começam a mover as suas peças. Um deles é o deputado federal Felipe Rigoni (PSB), que também acaba de entrar nesse jogo.
Rigoni já moveu seu primeiro peão. Em entrevista à coluna, admitiu que quer ser candidato a governador "um dia" e não excluiu a hipótese de postular o cargo já em 2022. E seu primeiro movimento no tabuleiro é, literalmente, o de “fazer um movimento”. O deputado está reunindo peças e montando o seu próprio exército. Como ele mesmo explica, está a formar um novo grupo político, com aspirantes à vida pública tão jovens quanto ele e ainda menos testados nas urnas, que comunguem de seus princípios liberais na economia e nas mais diversas áreas. Na definição do próprio deputado, o grupo, do ponto de vista ideológico, será uma mistura de liberais com progressistas, reunidos em torno de uma mesma agenda.
Segundo Rigoni, o ponto fulcral é a convicção de que o Estado precisa parar de atrapalhar a ação empreendedora do setor produtivo, que é quem realmente gera emprego, renda e desenvolvimento econômico para o país. O Estado, defende o deputado, deve limitar-se a atuar nas áreas que realmente demandam a sua atuação direta (saúde, segurança, educação) e, “obviamente, correções de distorções na pobreza etc.”.
O deputado diz-se parceiro de Renato Casagrande. Apesar da reafirmação da parceria, também busca demarcar diferenças em relação a ele. Enfatiza que não é de esquerda como o governador e pontua algumas críticas a seu governo, por exemplo na área da agricultura e no que chama de “falta de visão de futuro clara para o nosso Estado”.
Para abrigar a si mesmo e o seu grupo, Rigoni terá que se juntar a algum partido. O deputado é defensor da liberação de candidaturas avulsas no Brasil, mas afirma que ele mesmo não seria candidato sem estar filiado a uma legenda, pois entende que a atividade política deve se dar por intermédio de partidos políticos fortes e realmente programáticos.
Determinado a sair do PSB (sua ação de reconhecimento de desfiliação por justa causa continua parada no TSE, por um pedido de vista do ministro Barroso), Rigoni chegou à conclusão de que, para crescer de fato na política, tem que estar filiado a um partido no qual ele possa no mínimo influenciar pessoalmente as decisões internas, se não puder ter ele mesmo o comando estadual da sigla.
Com convite de dezenas de partidos, o deputado diz ter conversas mais evoluídas com o Podemos e o PSDB, presididos no Espírito Santo, respectivamente, pelo secretário estadual de Governo, Gilson Daniel, e pelo deputado estadual Vandinho Leite. Rigoni conta que já conversou com ambos e também com os respectivos dirigentes nacionais. De todos, segundo ele, obteve garantias plenas de poder exercer essa pretendida influência interna. Nada definido, porém, sobre nova filiação. E, enquanto seu processo se arrasta no TSE, ele só precisa definir sua nova casa entre março e abril do ano que vem.
PT: PALANQUE PARA LULA, MAIS VIVO QUE NUNCA
Paralelamente, a entrada definitiva de Lula na corrida presidencial fortalece muito a probabilidade, que já não era nem um pouco desprezível, de o PT lançar candidato próprio ao governo do Espírito Santo em 2022. A esta altura do processo, as apostas de nomes mais prováveis recaem sobre a atual presidente estadual, Jackeline Rocha (candidata da sigla ao governo em 2018), o ex-prefeito de Vitória João Coser e, acima de todos, o deputado federal Helder Salomão, petista do Espírito Santo com mandato mais proeminente desde 2018.
A se manter esse cenário, é possível que, em 2022, Casagrande tenha que ser aquele enxadrista que joga partidas simultâneas, enfrentando ao mesmo tempo dois ou mais adversários (com estilos de jogo bem diferentes entre si). De um lado, o adversário bolsonarista (que poderá ser Evair ou outro nome); do outro, o desafiante petista.
É interessante notar que o núcleo político de Casagrande já contava com isso. Antes mesmo da liberação de Lula, o objetivo tático do governador e dos seus estrategistas já era, e segue sendo, formar no Estado no ano que vem um chapão o mais amplo possível, que vá da centro-esquerda à centro-direita, isolando, nos extremos, o petismo e o bolsonarismo.
SE CASAGRANDE SAIR DO JOGO, ABRE UM VÁCUO
Enquanto isso, como quarto movimento, tivemos o possível “salto” de Casagrande para outra partida, jogada em outra divisão (a dos “grandes mestres do xadrez”), isto é, seu “pré-lançamento” à Presidência da República pelo PSB.
Ok, o ímpeto desse movimento parece ter arrefecido mais rapidamente do que nasceu. A anulação das sentenças de Lula deixou as forças de centro-esquerda ainda mais confusas e dispersas, mas o ex-presidente já acenou para elas, admitindo a formação de uma frente de centro-esquerda (desde que liderada por ele mesmo, naturalmente).
A volta do líder petista a esse jogo pode ter matado de vez, no nascedouro, a ideia do PSB de lançar Casagrande. Mas o próprio governador confirmou o convite feito a ele pelo presidente nacional da sigla, Carlos Siqueira, então... mesmo que remota, essa possibilidade existe. E aí é o seguinte:
Supondo que Casagrande, por um alinhamento de astros, venha mesmo a ser candidato à Presidência, o governador terá que se desincompatibilizar em abril do ano que vem e terá que começar a preparar um sucessor antes disso, o que, além de fragmentar a sua hoje ampla e bem amarrada base, pode deflagrar uma corrida entre aliados pela condição de candidato à sucessão de Casagrande com o selo do atual governador. Nesse caso, quem poderá preencher esse vazio?