Os últimos dias foram marcados por cinco movimentos importantes no tabuleiro de xadrez político-eleitoral do Espírito Santo, aos quais é preciso prestar muita atenção, tendo em vista a próxima disputa pelo governo estadual, em 2022. É preciso partir do pressuposto de que o governador Renato Casagrande (PSB), embora não fale e tão cedo não vá falar em “reeleição”, é candidato natural à renovação do mandato. Mas outros jogadores começam a fazer seus lances nesse tabuleiro.
Jogando com as brancas, o deputado federal Evair de Melo (PP) encarregou-se de iniciar a partida. Seu movimento de abertura foi a entrevista concedida à coluna e publicada aqui no último dia 7. Um dos 14 vice-líderes do presidente Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados e absolutamente alinhado ao governo federal, Evair já vinha se estabelecendo como um crítico ácido e assíduo ao governo Casagrande, em uma série de postagens em suas redes sociais. Mas, na citada entrevista, levou o seu discurso a outro nível, pelo tom e pelo teor das críticas, de direta e irrefutável hostilidade à pessoa do governador.
Ex-aliado de Casagrande, Evair tomou conscientemente um caminho sem volta. Depois de dar declarações como “de boca fechada, [Casagrande] ajudaria mais o Estado”, não haverá retratação ou reconciliação possível. O que o deputado busca, assim, é o contrário: afastar-se em definitivo de Casagrande, marcar posição contra ele e consolidar-se como uma nova referência da oposição ao governador pelo flanco direito, dentro do campo bolsonarista no Estado.
Evair desponta como alguém que pode articular e quiçá liderar um movimento eleitoral de direita, 100% alinhado a Bolsonaro e ao bolsonarismo, que desafie o governador de centro-esquerda no Espírito Santo em 2022. O deputado não admite isso. Diz que hoje é pré-candidato a deputado federal, em busca do 3º mandato consecutivo. Ou seja, Evair não “abre o jogo” sobre candidatura ao governo. De qualquer modo, como dito acima, abriu esse jogo de xadrez com sua entrevista.
Sem entrar no mérito das críticas do vice-líder de Bolsonaro, seu movimento neste momento tem bastante lógica do ponto de vista estratégico. No Espírito Santo, esse campo bolsonarista encontra-se hoje disperso e carente de uma liderança que agregue as forças simpáticas ao governo federal e insatisfeitas com o governo Casagrande.
O ex-deputado federal Carlos Manato, como já analisado aqui, perdeu espaço político recentemente e, sem mandato e sem partido político, não consegue vocalizar suas críticas muito além de suas redes sociais, ainda que tenha dito à coluna que “está mais vivo que nunca”, além de ter-se declarado "candidatíssimo" ao governo novamente em 2022, pelo partido ao qual Bolsonaro vier a se filiar.
Quanto a Capitão Assumção (PSL), mantém-se como a voz mais áspera de oposição bolsonarista a Casagrande na Assembleia (na verdade, a única voz agora). Mas o tamanho real do deputado foi determinado pela última eleição a prefeito de Vitória, na qual ele não passou de 7,2% dos votos válidos.
Assim, corretamente, Evair parece ter identificado o atual vácuo de líderes políticos com maior musculatura dentro desse campo. Com mandato mesmo, tirando Assumção na Assembleia, hoje o único bolsonarista capixaba que “bate” de verdade em Casagrande é Evair. É possível, então, que ele se empenhe doravante em preencher esse vácuo deixado por Manato desde o pleito de 2018, para liderar um movimento bolsonarista contra o governador do PSB no ano que vem.
Nesse sentido, o ex-presidente do Incaper parece ter usado a mencionada entrevista à coluna como plataforma para lançamento de possível candidatura ao governo em 2022 ou, no mínimo, de um “novo” movimento de direita bolsonarista em oposição a Casagrande no Estado.
Outra possibilidade que não pode ser ignorada é a junção de forças de todos eles (Evair, Manato, Assumção e outros mais que ainda podem se unir) nesse palanque anti-Casagrande, ou quem quer que seja o candidato do governador, no pleito do ano que vem. Nesse caso, Evair pode confirmar-se como o enxadrista desse lado direito do tabuleiro, como o rei desse exército eleitoral bolsonarista em território capixaba, ou revelar-se o peão que só fez o movimento de abertura, em um exército cujo rei e/ou o verdadeiro operador das peças ainda vai aparecer.
Mas que ele é um player eleitoral, não resta dúvida. Passa a ser player importante nesse jogo, ao qual ainda deverão se juntar outras peças e outros jogadores contra a tropa de Casagrande até o ano que vem. E o fortalecimento ou não desse movimento dependerá, fundamentalmente, da recuperação ou da debacle do governo Bolsonaro até lá.
Nossa análise continua nesta segunda, com os outros quatro movimentos importantes realizados nos últimos dias nesse xadrez político estadual.