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Entrevista explosiva

Evair sobre Casagrande: “Se ficasse com a boca fechada, ia ajudar muito mais”

Em entrevista explosiva, vice-líder de Bolsonaro na Câmara diz que governador joga para a galera, fecha portas, coopta adversários, massacra novas lideranças e só atrapalha o ES com críticas ao governo federal. “Leão aqui, gatinho em Brasília”

Públicado em 

07 mar 2021 às 02:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Evair de Melo bate em Renato Casagrande
Evair de Melo bate em Renato Casagrande Crédito: Amarildo
No atual cenário de escassez de oposição estabelecida ao governo Casagrande no Espírito Santo, o deputado federal Evair de Melo (PP) tem chamado a atenção. Entre os capixabas atualmente investidos de mandato eletivo, ele tem se consolidado como a voz mais crítica ao governador do Estado. Vice-líder do governo Bolsonaro na Câmara Federal (função também exercida por outros 13 deputados), o capixaba de Venda Nova do Imigrante é apoiador incondicional do presidente e do governo federal, diferentemente de Casagrande.
Em suas redes sociais, Evair tem criticado medidas e declarações do governo estadual, do qual seu partido, PP, é aliado. Mais especificamente, tem “criticado as críticas” feitas regularmente por Casagrande ao governo Bolsonaro – “um italianão raça pura”, segundo a definição do deputado. Em um post recente, Evair chegou a falar em “esperneio” para referir-se a Casagrande e sua equipe.
No domingo passado (28), Bolsonaro e aliados publicaram no Twiter as cifras que teriam sido repassadas pela União para ajudar os Estados durante a pandemia. Evair foi um dos que republicou os valores. Os dados foram duramente contestados por Casagrande, para quem Bolsonaro “torturou os números”, com o intuito de superestimar os repasses.
Evair não se define como opositor de Casagrande. Mas nem precisa. Se ainda restava alguma dúvida sobre isso, a entrevista do deputado à coluna, que você confere a seguir, trata de dissipá-la. É, possivelmente, a mais contundente reunião de declarações de um político capixaba sobre Casagrande desde o início do presente governo.
Segundo Evair, para abafar todo foco de oposição, o governador pratica um modelo de “cooptação política”. Para ele, Casagrande fica o tempo todo “jogando para a galera”, “fecha portas” com seu comportamento e, “se ficasse com a boca fechada, ia ajudar muito mais”: “Ele tem um comportamento que não ajuda o Espírito Santo. Fica bonito com seus eleitores, fica bonito com seu partido, mas fecha portas”.
Na visão do deputado, o governador não reconhece a ajuda do governo federal ao Espírito Santo; ao mesmo tempo, faz críticas “ideológicas”, “meramente políticas” e que só atrapalham o Estado. “Aqui ruge como um leão, mas em Brasília não passa de um gatinho.” Ainda de acordo com Evair, falta não só reconhecimento, mas humildade ao governador. Em contrapartida, sobraria ciúme de capixabas que ocupam espaços importantes em Brasília.
Para ele, o atual governador e seu antecessor no cargo, Paulo Hartung, “massacraram” qualquer nova liderança com potencial de ascender no plano político nacional ao longo das últimas décadas. E, se hoje temos bem poucos capixabas ocupando espaços de poder e influência na capital federal, é porque muitos dos que “botaram as asinhas de fora” foram “matados (sic) no ninho”.
A entrevista de Evair foi concedida à coluna na última segunda-feira (1º). Confira-a abaixo, na íntegra.

No atual cenário político estadual, temos observado certa escassez de oposição mais sólida ao governo Casagrande. Mesmo os poucos focos de oposição que havia ao governo dele agora parecem um pouco amortecidos. O senhor, no entanto, tem chamado a atenção por manter e até publicar em suas redes sociais alguns posicionamentos mais críticos em relação a medidas e declarações do governador. Como o senhor se define hoje em relação ao governo Casagrande? É um deputado de oposição?

O governo Casagrande opera no modelo da política antiga, que é a cooptação. É claro que esse movimento de cooptação é legítimo, mas é preciso entender que, se fosse no futebol, chamaríamos de “abafa”. Quando surge algum tipo de movimento, faz-se uma operação de “abafa”, tendo em vista imaginar uma unanimidade de acordos políticos no Estado. Não comungo com isso. Acho isso muito ruim para o Estado. E tenho feito, na realidade, uma defesa do Espírito Santo em Brasília. O Espírito Santo, ao longo dos últimos anos, perdeu espaço em Brasília. Não ocupou espaços em Brasília. E a atual postura do governador, quanto às críticas ideológicas que ele faz ao governo federal, em nada ajudam o Espírito Santo.

Por quê?

Nós temos desafios estruturantes no Estado. Sabemos que, ao longo da história, a União prestigiou muito pouco o nosso Estado. Isso custou muito caro para os capixabas. Ao longo da história, tivemos muita gente que foi “herói” só aqui. Aqui ruge como um leão, mas em Brasília não passa de um gatinho. Para a imprensa capixaba, contava as historinhas, e em Brasília não passava de um gatinho. Você tem que construir relações. Brasília não é a perfeição do mundo que a gente gostaria, mas tem regras e princípios, que são democráticos e republicanos e que estão postos aí. Um deles é o bom relacionamento, mesmo no contraditório. E muitos dos desafios que estão custando muito caro para nós, principalmente na área de infraestrutura, o Estado é carente por termos fracos relacionamentos em Brasília. O nosso último grande projeto de infraestrtura foi nosso aeroporto. E é mérito pessoal da senadora Rose de Freitas. Foi ela quem construiu, com sua influência na comissão orçamentária, um espaço para que o governo Temer fizesse o aeroporto. Talvez a próxima grande entrega agora será a renovação da concessão da ferrovia Vitória-Minas, que está consolidada com a Vale, e a construção da ferrovia até Anchieta e o projeto até Açu. Então, o Espírito Santo tem lidado muito mal com Brasília. E o governador, por ideologia diferente do governo federal, que é legítimo, ao meu modo de ver, tem um comportamento que não ajuda o Espírito Santo. Ele fica bonito com seus eleitores, fica bonito com seu partido, mas fecha portas.

Acaba atrapalhando o próprio Estado, a seu ver?

Atrapalha. Principalmente porque, em algumas ações específicas, ele não entregou o que prometeu.

Por exemplo?

Na nova lei da cabotagem, havia um acordo para se reduzir o ICMS da cabotagem para 4,5%. O Espírito Santo é um dos Estados que mais poderia se beneficiar com isso. O ministro da Infraestrutura veio ao Espírito Santo. O governador em público prometeu votar a favor da redução para 4,5%. Na reunião do Confaz no dia seguinte, o Espírito Santo é o primeiro Estado a votar e vota contra. Quer dizer, perdeu completamente a credibilidade, o prestígio e a moral. Agora está aí fazendo discurso meio demagógico, ou seja, está jogando pétalas de rosa em cima de uma sepultura que ele mesmo abriu. Isso é muito ruim para o Espírito Santo. Do mesmo modo, quando o governo estadual omite as ações do governo federal para o Espírito Santo... Pode ter crítica? Pode. Mas você não pode omitir aquilo que é feito. Os recursos repassados, os contratos honrados, os repasses para a saúde... ou seja, o governo do Estado, até o dia de hoje, omite em 100% as entregas e o esforço do governo federal para socorrer principalmente Estados e municípios na questão econômica. Foi o maior repasse de recursos da história.

Boa parte desses repasses não são obrigações constitucionais que a União deve cumprir?

É obrigação? É. Mas outros não faziam. E há também os repasses voluntários. Mas o governo Casagrande insiste em negligenciar e omitir o que o governo federal faz. Isso é muito ruim.

A falta de reconhecimento?

A falta de humildade. Isso é falta de humildade. Humildade e reconhecimento fazem bem para todo mundo. Eu sou muito crítico a isso. Acho que isso é muito ruim. E eu sinto as consequências disso em Brasília.

De que maneira?

Eu tenho que ficar o tempo todo tentando justificar a omissão e as negativas do governo do Estado.

As críticas do governador ecoam lá, na cúpula do governo Bolsonaro e na própria base do governo federal no Congresso?

E muito.

Como isso é visto lá?

Isso é visto como um governador que não cumpre o que fala e que, a todo momento que tem, fica jogando para a galera. Ele não perde uma oportunidade de querer fazer discurso. Não estou entrando no mérito, mas é desproporcional ao tamanho do Estado.

Politicamente, então, o senhor acha que não é muito estratégico ficar batendo num governo que está acima dele e do Espírito Santo e do qual dependem não só o governo dele mas também a população capixaba?

Não há problemas em fazer críticas ao governo federal. O maior pecado que se comete hoje é o da omissão ao governo federal. As coisas estão acontecendo no Espírito Santo: em repasses financeiros, em obras, em andamento, em esforço. A maior reclamação que eu vejo é quanto à omissão do governo do Estado.

Então são duas coisas diferentes. Em primeiro lugar, o senhor vê um governo Casagrande que faz críticas desnecessárias e que atrapalham o próprio Estado do Espírito Santo. Em segundo lugar, um governo que só sabe fazer críticas e não é capaz de reconhecer as coisas boas que o governo federal faz para o Estado.

Quando fui convidado para ser vice-líder do governo Bolsonaro, liguei para o governador. Falei que tinha recebido o convite do presidente da República para ser vice-líder do governo, um espaço importante, que eu queria usar esse espaço para abrir portas para o Espírito Santo e que, portanto, queria ajudá-lo nos pleitos do Estado em Brasília. Nunca fui procurado.

O senhor sente um pouco falta desse reconhecimento do governador não só a ações do governo Bolsonaro para o Espírito Santo, mas também ao trabalho do senhor como vice-líder?

Nós temos alguns capixabas que ocupam espaços em Brasília. Temos, por exemplo, o secretário nacional do Tesouro, que é o Bruno Funchal. Isso é uma joia nossa. Uma vez que temos oportunidade de ter um capixaba num cargo importante como esse, precisamos aqui, internamente, parar de achar que os capixabas que ocupam um espaço em Brasília são um problema ou que são concorrentes aqui para o Estado. Isso nos fez muito mal ao longo da nossa história. Eu sempre cito isso. Nós precisamos ocupar espaços. Toda janela de oportunidade em Brasília é extremamente importante para nós. E às vezes eu percebo que tem um ciúme, como se eu usasse esse cargo para querer outro aqui. Isso é muito ruim. Não. O Espírito Santo precisa se qualificar ainda mais em Brasília. Por exemplo, o aeroporto de Linhares, a nova lei do gás, a nova modelagem do contrato da BR 101, da BR 262, o Contorno do Mestre Álvaro... Ou seja, as críticas que o governador faz são ideológicas. Não são pragmáticas. São manifestações meramente políticas, que em nada contribuem. Se ficasse com a boca fechada, ia ajudar muito mais.

Isso não vale também para o presidente da República, em muitos casos?

Eu acho que não.

Mas Bolsonaro também não acaba sabotando o próprio governo e o próprio país, na medida em que faz algumas declarações não muito bem pensadas?

Eu convivo com o presidente. Ele é um sujeito simples e autêntico. Nada dele é conspiratório. Ele não é aquele perfil que tentaram nos vender do político, que é um gentleman. O presidente Bolsonaro é um italianão raça pura. Ele foge àquele protocolo que nós construímos dos presidentes. Mas eu não percebo nele conspiração, e sim muita objetividade. E abre aspas: é o “presidente da República”. Então, assim, são coisas muito diferentes. Eu cito como exemplo o [governador de Minas Gerais, Romeu] Zema. Para mim, o Zema é hoje o melhor governador, do ponto de vista de relacionamento. Ele deixa muito claro: “Sou governador de Minas Gerais. O meu papel é cuidar de Minas Gerais”. Ele não critica nem elogia, porque ele tem responsabilidade. Uma vez deputado federal, eu tenho responsabilidade. Da mesma forma, como vice-líder do governo.

O senhor destaca a necessidade de o Espírito Santo buscar exercer maior protagonismo no cenário político nacional, ocupando cargos estratégicos em Brasília, no Congresso, no governo federal etc. Hoje a gente de fato não tem isso. Mas nossa bancada também tão está muito tímida não? Não caberia aos próprios membros da bancada capixaba se projetarem mais, sair do “baixo clero” e procurar esse protagonismo?

Nos últimos 30 anos, nós tivemos um verdadeiro massacre de toda e qualquer nova liderança que surgiu aqui no Estado. Isso é nítido.

Como assim? “Massacre” por parte de quem?

Dos modelos adotados. Todo mundo que botou as asinhas de fora, às vezes foi “matado” no próprio ninho. Isso é muito ruim para o Estado. Independentemente de pensamento, a nível nacional, quem aqui do Espírito Santo se projetou nos últimos 30 anos? Eu diria que ninguém.

Mas de novo: “matado” ou “massacrado” por quem? Pelas lideranças que já estavam estabelecidas? Pelos governadores que já estavam no cargo?

É, eu acho que o ambiente político do Espírito Santo nos últimos 30 anos matou ou quase não permitiu que surgiessem novas lideranças. Para os últimos governadores negarem isso, têm que me trazer a lista com os nomes de quem se projetou. Se me mostrarem essa lista, vou pensar diferente. É lamentável isso. É como se fosse um clube que não tem categorias de base e não faz novos jogadores em casa.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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