O Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) acaba de mudar de mãos no Espírito Santo. Por interposta pessoa, o subtenente dos Bombeiros Militares Sergio de Assis Lopes, conhecido como Subtenente Assis, assumiu o comando do partido no Estado, no lugar do deputado estadual Adilson Espindula, por ordem expressa do presidente nacional da sigla, o ex-deputado federal Roberto Jefferson.
A mudança já é oficial e já consta no sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na noite desta quarta-feira (16), a troca de guarda na presidência estadual também foi confirmada à coluna pelo próprio Assis e por fontes ligadas a Espindula.
Como ainda é militar da ativa, Assis não pode ser dirigente partidário, mas foi ele quem montou pessoalmente, com carta branca recebida de Jefferson, toda a nova Executiva Estadual do PTB, começando pelo substituto de Espindula na presidência da legenda.
Oficialmente, o novo presidente do PTB no Estado é Willian de Sá Lessa, coronel da reserva dos Bombeiros Militares do Espírito Santo, além de parceiro político e amigo do peito de Assis, como o próprio subtenente confirma:
“O Willian foi uma indicação pessoal minha. Ele me ajudou em todas as minhas campanhas, inclusive na última. Era filiado ao Republicanos e passou para o PTB agora, para assumir a presidência. Eu vou atuar como um conselheiro do partido, até pela nossa experiência política, o alinhamento que a gente tem com a direção nacional e a confiança que o presidente Roberto Jefferson depositou na gente aqui. O Willian é o presidente e ele tem autonomia, mas a gente vai estar sempre ajudando.”
A nova Executiva Estadual do PTB é provisória e vale, inicialmente, até maio de 2021. O órgão é formado por outros sete membros além do presidente, todos escolhidos a dedo por Assis.
Assis disputou a última eleição a prefeito de Cariacica pelo PTB, onde ingressou após a guinada dada ao partido por Jefferson em direção a Jair Bolsonaro, com quem Assis é extremamente alinhado. Na prática, desde as últimas eleições municipais, o PTB virou um partido bolsonarista, a ponto de Jefferson ter proibido coligações com o PSDB, o DEM e partidos de esquerda nas cidades.
Na disputa à Prefeitura de Cariacica, o Subtenente Assis foi o 3º candidato mais votado, atrás de Euclério Sampaio (DEM) e Célia Tavares (PT), não passando, assim, para o 2º turno. Ele teve 11,48% dos votos válidos.
Por ser militar da ativa, Assis não pode permanecer filiado a nenhuma sigla fora do período eleitoral. Mas, por sua filiação ao bolsonarismo, caiu nas graças de Jefferson, que decidiu delegar a ele a montagem da nova Executiva Estadual e as decisões sobre os rumos do PTB no Espírito Santo.
Foi o próprio Jefferson, condenado pelo STF e preso por participação no escândalo do mensalão, quem antecipou a mudança na presidência, em uma live vista por poucas pessoas (433 visualizações até às 2340 desta quarta), no último domingo (13).
Ao ser questionado por um participante da live sobre fazer uma “depuração” no PTB, o ex-deputado respondeu que já está efetuando trocas na direção do partido em alguns Estados, para pôr nos cargos de comando dirigentes mais identificados com a linha política assumida pelo PTB. Segundo ele, a preferência é para presidentes estaduais “de direita”, “conservadores”, “cristãos”, “patriotas” e “bolsonaristas de raiz”.
Como exemplos de intervenções feitas pessoalmente por ele, Jefferson citou as recentes mudanças dos presidentes do PTB em São Paulo, em Pernambuco, na Bahia e, finalmente, no Espírito Santo: “No Espírito Santo fizemos o mesmo. Nós tínhamos um presidente [Espindula] muito ligado ao PSB, ao governador do PSB lá do Espírito Santo [Renato Casagrande]. E nomeamos o Tenente Assis, de Cariacica, presidente do PTB, e estamos montando uma estrutura bem conservadora no partido”.
“DEMOCRACIA INTERNA”
Na sequência, o ex-deputado deixou claro que o partido tem uma linha (e, acima de tudo, um dono). E deu uma aula de “democracia interna”:
“Onde houver essa resistência, de desobediência, onde o presidente seja mais ligado à esquerda, nós vamos substituí-lo. Nós fizemos uma convenção agora, no dia 18, e abrimos todos os diretórios. Todos os diretórios estaduais e municipais que eram eleitos viraram comissões provisórias, que eu substituo junto com a Executiva Nacional. Então, não quer rezar na cartilha, tá bem, não precisa: um abraço! Tem outros partidos que o cara pode ir: esquerda, mais de centro-esquerda… Nosso partido é de direita e conservador. Ele tem uma linha só”, completou.
ENCONTRO PESSOAL EM BRASÍLIA
Assis conta que a troca no comando estadual foi decidida e comunicada a ele por Jefferson em um encontro pessoal entre eles, em Brasília, durante o 2º turno das últimas eleições, na segunda quinzena de novembro:
“Como a gente teve uma votação expressiva para prefeito de Cariacica, retornei a Brasília, e aí ele [Jefferson] pediu que a gente fizesse esse trabalho de condução do partido. Eu expliquei a ele a minha condição, porque sou militar da ativa, então não poderia. Mas aí ele pediu que a gente montasse uma Executiva que estivesse mais alinhada ao novo posicionamento do partido: um partido de direita e conservador. Então conversei com essas pessoas e convidei elas para formarem a nova Executiva Estadual.”
COMO FICA A SITUAÇÃO DE ESPINDULA
Destituído agora da presidência estadual por Jefferson (uma pedra cantada, inclusive aqui), Adilson Espindula não é propriamente um deputado de esquerda. Longe disso, na verdade. É certo que ele é um aliado do governador Renato Casagrande (PSB), como o são quase todos os deputados estaduais. Mas não tem posicionamentos de esquerda e, em entrevista à coluna, já se declarou um político conservador.
Além disso, o deputado de Santa Maria de Jetibá está muito ligado ao prefeito eleito de Castelo, João Paulo Nali (PTB), por sua vez aliado do ex-deputado federal Carlos Manato – bolsonarista e aliado do Subtenente Assis.
Agora, porém, com a intervenção nacional, Espindula fica sem nenhum lugar na Executiva Estadual do PTB. Como deputado pelo partido, ele continua tendo direito a assento no Diretório Estadual.
A DEMISSÃO DA FILHA DE TONINHO
No dia 3 de setembro, pouco antes do início da última campanha eleitoral, faleceu o então presidente do PTB em Vila Velha, Toninho Magalhães, após complicações causadas pela Covid-19. Dois filhos dele, então, passaram a tocar o partido provisoriamente na cidade: Mateus e Mariana Magalhães.
Em licença médica, Mariana ocupava um cargo comissionado na Assembleia Legislativa, na cota de Adilson Espindula. Já Mateus foi escolhido por Assis para compor a nova Executiva Estadual do PTB, no cargo de 1º secretário-geral. Em consequência disso, Espindula pediu o cargo à irmã de Mateus. Mariana será exonerada quando retornar de sua licença. Ninguém o comenta em voz alta, mas, à boca pequena, a demissão da moça está sendo considerada um ato de revanchismo.