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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

PTB de Jefferson simboliza incoerência e oportunismo político no país

O presidente nacional do PTB não é direita. Não é esquerda tampouco. Não é “conservador” nem “progressista”. Amigo do poder, eis o que é. Pouco importa quem esteja no poder. Apoiou Collor, Lula, Temer... Agora apoia Bolsonaro e abriga os candidatos bolsonaristas nas eleições municipais

Publicado em 10/09/2020 às 05h04
Jefferson já rezou para Lula. Agora reza para Bolsonaro.
Jefferson já rezou para Lula. Agora reza para Bolsonaro. Crédito: Amarildo

Sob o comando do ex-deputado federal Roberto Jefferson, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) é hoje um dos símbolos acabados de incoerência política e de oportunismo eleitoral no Brasil. Para sustentarmos essa afirmação, façamos um brevíssimo resgate da história do partido.

O PTB já foi o maior representante do “trabalhismo” no Brasil. Até a fundação do PT, em 1980, poderia tranquilamente ser considerado o mais importante partido de representação da classe trabalhadora no país. Foi a agremiação política onde Leonel Brizola iniciou sua trajetória. E Brizola é presença obrigatória em qualquer lista de cinco políticos de esquerda brasileiros mais relevantes do século XX – assim como Lula e Luís Carlos Prestes.

De 1945 a 1965, o PTB foi o partido de João Goulart. Foi o partido, portanto, pelo qual Jango governou o Brasil, até ser deposto pelo golpe militar de 1964, justificado sob a alegada necessidade de salvar o país da “ameaça comunista”. No ano seguinte, o PTB foi extinto pelo governo militar. No início dos anos 1980, com o fim do bipartidarismo, a sigla foi “refundada”.

Desde 2003, com alguns hiatos (sendo um deles o seu tempo de prisão), o partido é presidido e controlado nacionalmente pelo ex-deputado federal Roberto Jefferson. Como deputado, no primeiro governo Lula (2003/2006), Jefferson participou do mensalão e, em 2005, denunciou o esquema que derrubou o então ministro-chefe da Casa Civil e sucessor natural de Lula, José Dirceu (PT). Condenado em 2012 pelo STF, cumpriu pena de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Livre, aproximou-se do governo Temer e, agora, do governo Bolsonaro. Conduzida por Jefferson, a guinada do PTB ao “conservadorismo de direita” se radicaliza agora, mas já vem se desenhando há alguns anos. No governo Temer (2016/2018), a então deputada federal pelo Rio de Janeiro Cristiane Brasil, filha de Jefferson, simbolizou ataques à legislação trabalhista e à Justiça do Trabalho. Isso na condição de “quase ministra do Trabalho”. No início de 2018, chegou a ser nomeada para o cargo, mas teve a posse suspensa pela Justiça Federal.

Há muitos anos, o PTB é um dos sustentáculos do Centrão no Congresso. O Centrão vem a ser justamente aquele aglomerado de siglas ideologicamente amorfas que, no conjunto, definem votações na Câmara e no Senado. Não são direita nem esquerda; não são nada, efetivamente, no campo da defesa de ideias. Ávidas por cargos e por espaços no governo, eis o que são. Ficam ali, no “centro”, oscilando para cá e para lá conforme o movimento do pêndulo de poder no país. Estão ali, sempre atentas, sempre prontas a aderir a quem quer que esteja no poder.

Nos governos do PT, estiveram com Lula e Dilma. Pressentindo o naufrágio do segundo governo da petista, trataram logo de pular para a embarcação de Temer. Por sua força numérica, seu apoio é muito importante para dar sustentação e governabilidade a qualquer governo no Congresso. Cientes disso, costumam vender caro esse apoio.

Agora é a vez de Bolsonaro, o mesmo que, na eleição de 2018, jurou que não sucumbiria ao velho “toma lá, dá cá” e que jamais se curvaria às “velhas práticas políticas” de seus antecessores na Presidência, como negociar apoio no Congresso com os dirigentes partidários. É exatamente o que está fazendo desde meados do primeiro semestre, quando sua popularidade atingiu os seus piores índices e os pedidos de impeachment começaram a se multiplicar e a se acumular no escaninho de Rodrigo Maia.

Como é notório, Bolsonaro se aproxima cada vez mais do Centrão, o qual não se faz de rogado e se aproxima cada vez mais do governo do ex-deputado do baixo clero. E é aí que volta à cena Jefferson, que acaba de decretar: o PTB é um partido conservador de direita. Por isso, nessas eleições municipais, dirigentes do PTB nas cidades estão proibidos de se coligarem com o DEM, com o PSDB e com partidos pertencentes ao “Foro de São Paulo”, sob pena de expulsão da legenda.

Mas alguém aí, em boa-fé, é realmente capaz de acreditar na sinceridade dessa “conversão ideológica” de Jefferson? O presidente nacional do PTB não é direita. Não é esquerda tampouco. Não é “conservador” nem “progressista”. Amigo do poder, eis o que é. Pouco importa quem esteja no poder. Apoiou Collor, Lula (no início), Temer... Agora apoia Bolsonaro.

Para não deixar nenhuma dúvida quanto a isso, chegou a postar foto em suas redes sociais segurando arma de grosso calibre no melhor (?) estilo Jair Bolsonaro e agora adota, em suas publicações, uma retórica que emula a de Carlos Bolsonaro e a de grupos radicais de apoiadores do presidente no WhatsApp. Um incauto que seja apresentado agora ao metamórfico Jefferson pode até pensar que o presidente do PTB sempre foi isso a vida inteira: um fervoroso bolsonarista, um apaixonado representante do combate à esquerda no país. Balela.

A história do próprio personagem prova que, num cenário completamente inverso, fosse o Brasil hoje governado por um presidente de extrema-esquerda (digamos, a título de exemplo, um partidário da ala mais xiita do PCdoB), o autodeclarado “conservador de direita” não hesitaria em beijar o “Manifesto Comunista”, tirar foto enrolado na bandeira de Cuba, trocar o fuzil por uma foice e um martelo na postagem no Instagram e fazer juras de amor eterno ao MST...

Isso não é só Roberto Jefferson. Isso é a política brasileira.

O QUE REALMENTE IMPORTA AOS DIRIGENTES E AOS CANDIDATOS

Com pouquíssimas exceções, dirigentes partidários brasileiros não estão verdadeiramente preocupados com questões ideológicas. Políticos brasileiros em geral não estão sinceramente interessados em questões ideológicas. Candidatos em geral, para qualquer cargo, não estão nem um pouco preocupados com questões ideológicas.

Nessa eleição municipal, candidatos a prefeito querem saber qual será o partido e a coligação que lhes proporcionarão as melhores condições para se (re)elegerem – o que, no chão do comitê de campanha, significa mais recursos financeiros, mais tempo de TV, mais apoiadores, mais cabos eleitorais trabalhando por eles nas ruas etc...

Questões de fundo ideológico dos respectivos partidos ficam em último plano, isso quando são consideradas. Afinidade ideológica e identidade programática são ignoradas em alianças com outros partidos e outros líderes políticos. Apoio não tem cara nem coloração ideológica. Se querem apoiar, são bem-vindos. Questões pragmáticas falam muito mais alto que questões programáticas.

Por sua vez, candidatos a vereador querem saber basicamente de uma coisa: qual é a chapa que vai lhes oferecer maior comodidade e maior probabilidade de se elegerem ou reelegerem na Câmara Municipal? Às favas com o programa, o ideário e a história da agremiação. Evidência maior disso foi o espetáculo de promiscuidade política que foi a janela para troca legal de partidos por parte dos vereadores em fim de mandato, entre março e abril deste ano – um show que se repete desde 2016 e que se repetirá, com data marcada, a cada dois anos (alternadamente para vereadores e deputados).

Em sua absoluta maioria, agremiações políticas no Brasil são cartórios eleitorais. Ponto. Exemplo cabal disso nesse pleito vem a ser o próprio PTB, que exercerá dessa vez o papel que competiu ao PSL na eleição passada, em 2018: o de barriga de aluguel para candidatos alinhados ao bolsonarismo (em grande parte, militares).

Tudo graças à mais nova metamorfose do camaleão Roberto Jefferson, que está louco para ser recompensado com um belo naco de poder – de preferência, algo assim, polpudo e vistoso, como um belo ministério para o PTB na Esplanada.

Que ninguém se surpreenda se for mesmo.

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