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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Davi Esmael será o presidente da Câmara de Vitória. Saiba por quê

Além de aliado político, Davi é amigo pessoal de Lorenzo Pazolini desde os tempos do curso de Direito e, a partir do dia 1°, será o mais longevo vereador em atividade

Publicado em 16/12/2020 às 04h01
Atualizado em 16/12/2020 às 12h41
Davi Esmael é amigo de Lorenzo Pazolini
Davi Esmael é amigo de Lorenzo Pazolini. Crédito: Amarildo

Ninguém tem a menor dúvida: o próximo presidente da Câmara de Vitória será o vereador Davi Esmael (PSD). Marcada para 1º de janeiro, logo após a posse dos 15 eleitos, a escolha do presidente que comandará a Casa de Leis no biênio 2021/22 tende a ser mera formalidade. A questão que resta é saber se ele conseguirá ser eleito à frente de uma chapa de consenso e por unanimidade dos votos.

Assim, o prefeito eleito Lorenzo Pazolini (Republicanos) terá “sentado ao seu lado”, no comando do Legislativo municipal, um velho aliado e amigo pessoal. Literalmente “ao seu lado”, já que a sede da Câmara fica colada à da Prefeitura de Vitória. Mas a situação não será nova para os dois. Davi e Pazolini foram colegas de turma no curso de Direito da FDV, daqueles que costumavam se sentar lado a lado mesmo.

A amizade dos tempos de faculdade evoluiu para a parceria política. Presidente municipal do PSD, Davi levou o seu partido a apoiar oficialmente o candidato do Republicanos no 2º turno da eleição em Vitória, em novembro. No 1º, o PSD concorreu com candidato próprio, o também vereador Mazinho dos Anjos (por sinal, também colega de ambos na faculdade de Direito da FDV). Os três se formaram no mesmo ano.

Essa proximidade política e pessoal de Davi com o prefeito eleito é um dos principais fatores, mas não o único, que explicam todo esse favoritismo do vereador evangélico e de direita. Como Davi é um parlamentar de sua absoluta confiança, é claro que Pazolini prefere ter o amigo na presidência do Legislativo durante seu primeiro biênio à frente do Executivo municipal. Ter um parceiro ocupando o cargo estratégico facilitará bastante o relacionamento entre os Poderes e a tramitação dos projetos da prefeitura na primeira metade de sua administração. Afinal, é o presidente quem define a pauta de votação do plenário.

Dependendo de quem estiver guardando o lugar tão estratégico, o presidente da Câmara pode tanto facilitar bastante a vida do prefeito como tornar-se um problema para ele. Basta mirar o exemplo atual: com a eleição de Clebinho (DEM) para a presidência em 2018 (diga-se de passagem, em movimento orquestrado por Davi), quebrou-se uma longa tradição em que o presidente da Casa era sempre aliado do prefeito da vez. E a relação da Câmara com a prefeitura e com a base do prefeito Luciano Rezende (Cidadania) foi permeada por tensão nos últimos dois anos.

Informações de bastidores dão conta de que Pazolini já tem recebido alguns vereadores eleitos. E reservadamente, de modo muito lacônico, manifesta apoio à eleição de Davi para a presidência. Ele tem sido muito discreto para tratar do tema, mas não precisa fazer movimentos ostensivos. A atração da seta dos vereadores eleitos para o “norte de Davi” neste momento é um movimento quase natural e magnético.

Muitos dos vereadores que tomarão posse em 1º de janeiro não se elegeram pela coligação de Pazolini. Vereadores, como é sabido por todos, na “vida como ela é” da política, dependem imensamente da prefeitura, com indicações para provimento de cargos comissionados, pequenos serviços nos bairros que representam etc.

Para quem não esteve com Pazolini desde o início da caminhada dele à prefeitura, votar no “candidato do prefeito” para a presidência da Câmara é uma maneira de começar a conquistar a confiança de Pazolini e de estabelecer com o prefeito entrante um relacionamento político de benefício mútuo.

OUTROS FATORES

Mas, como dissemos no início, a proximidade de Davi Esmael com Pazolini não é seu único trunfo nessa transição de mandatos e na presidência. Podemos citar também a sua experiência e a sua longevidade. Com a altíssima rotatividade registrada em Vitória nas últimas duas eleições municipais (em 2016 e agora), Davi, indo para o 3º mandato seguido, já atingiu a condição de decano da Câmara: a partir de 1º de janeiro, será o vereador há mais tempo na Câmara (aonde chegou em 2013), de maneira ininterrupta.

Além disso, Davi foi um dos cinco únicos vereadores da atual legislatura que conseguiram se reeleger – dentre os 11 que tentaram. Isso também lhe confere uma vantagem natural sobre os novatos porque, além de toda a experiência e conhecimento dos ritos da Casa, os novatos basicamente se conhecem muito pouco.

Some-se a isso que, de modo geral, vereadores recém-chegados ou que acabam de voltar à Câmara, como é o caso de dez dos 15 eleitos, ali entram cheios de vontade de mostrar serviço e de hastear bem alto as bandeiras dos seus mandatos. O exercício da presidência dá a seu ocupante muito prestígio e poder, mas pouquíssima margem de atuação em plenário. Abarrotado de obrigações administrativas, o presidente fica muito limitado, atado à Mesa Diretora, sendo chamado à boca miúda de “babá de vereadores”.

Ademais, no seleto grupo de cinco reeleitos, nenhum deles apoiou Pazolini desde o 1º turno, o que nos remete de volta ao primeiro ponto: a proximidade política de Davi com Pazolini lhe dá uma vantagem inclusive sobre os outros quatro membros desse quinteto.

Dalto Neves (PDT), Luiz Emanuel (Cidadania) e Denninho Silva (Cidadania) até apoiaram o delegado no 2º turno, mas os três, assim como Luiz Paulo Amorim (PV), estiveram com Fabrício Gandini (Cidadania) no 1º turno. Formalmente, Davi também só se juntou a Pazolini no 2º tempo, mas, de novo: sua relação com ele está em outro patamar.

Por fim, Davi será eleito presidente da Câmara de Vitória no dia 1º até por falta de concorrência. Basicamente, ele é apontado como o único interessado no cargo com reais condições de chegar lá. E, silenciosamente, tem se articulado nesse sentido. Por ter sido de longe o vereador mais votado, Denninho talvez pudesse esboçar uma movimentação visando à presidência, mas não fez nem menção de concorrer.

Talvez um dos motivos disso seja bastante prático: pelo menos desde Reinaldo Bolão (PT), chefe do Legislativo de 2011 a 2012, todos os presidentes da Câmara de Vitória viram sua votação encolher na eleição municipal imediatamente seguinte ao exercício da presidência. Na de 2012, Bolão não conseguiu se reeleger vereador. Mesmo destino teve Namy Chequer (PCdoB) na de 2016. Na deste ano, Vinicius Simões (Cidadania) e Clebinho também não conseguiram se reeleger.

Presidente em 2013/14, Gandini conseguiu se reeleger em 2016, como o vereador mais votado, tal como no pleito de 2012. Mas sua votação diminuiu.

Em suma, ser presidente é quase uma “maldição eleitoral”: dá poder, mas tira votos do sujeito.

CARGOS COMISSIONADOS

Dá poder e também dá muitos cargos. O próximo presidente terá nada menos que 92 cargos comissionados, de livre indicação política e vinculados à Mesa Diretora, para distribuir entre aliados. É um ativo que será ainda mais valioso se confirmada, até o fim do ano, a resolução que diminui de até 15 para até 8 o número máximo de assessores de gabinete que cada vereador poderá indicar a partir de 2021.

CLEBINHO SE REÚNE COM NOVATOS

Nesta quarta-feira, às 9 horas, Clebinho recebe em seu gabinete na Câmara os dez vereadores que chegam ou retornam à Casa, para tirar suas dúvidas e ajudá-los na transição. Também participarão o procurador-geral, a secretária-geral da Mesa, a diretora de RH e a diretora-geral da Câmara.

Um dos temas abordados será a distribuição dos gabinetes. Se todos optarem pelo sorteio, assim será feito. Mas alguns vereadores já acertaram a troca entre si: o de Clebinho ficará com Gilvan (Patriota). Armando Fontoura (Podemos) herdará o de Neuzinha de Oliveira (PSDB), enquanto o de Max da Mata (Avante) irá para André Brandino (PSC).

DAVI MERGULHOU

Deve ser para não estragar o que já é certo, mas Davi Esmael mergulhou. Não está atendendo a imprensa e nem com Clebinho tem se falado. Ao atual presidente, não chegou a pedir nenhuma informação… pelo menos por enquanto.

PADRÕES E TRADIÇÕES

Clebinho foi eleito presidente no meio da atual legislatura, para o biênio que se encerra agora (2019/20). Mas, no início desse mandato, logo após a eleição municipal de 2016, quem se elegeu presidente, para o biênio 2017/18, foi o vereador Vinicius Simões, grande aliado de Luciano Rezende, que havia acabado de se reeleger prefeito. E essa é outra longa tradição, que deve se repetir agora.

Na eleição da Mesa que marca o início de cada legislatura, o prefeito que acabou de ser eleito, esbanjando capital político, sempre tem enorme influência no processo e sempre consegue emplacar um aliado no cargo de presidente da Câmara. Foi assim com João Coser (PT), por exemplo. Logo após ele se eleger prefeito pela primeira vez, em outubro de 2004, seu aliado Alexandre Passos (PT) foi eleito presidente da Câmara para o biênio 2005/06. Quando Coser se reelegeu em 2008, Passos foi reconduzido à presidência da Casa para o biênio 2009/10.

Com Luciano Rezende deu-se o mesmo. Após a sua primeira vitória na eleição para prefeito em 2012, seu então maior aliado na Câmara, Fabrício Gandini, foi eleito para comandar a Casa no biênio seguinte (2013/14). Quando Luciano se reelegeu em 2016, foi a vez de Vinicius Simões, seu então maior aliado na Câmara, chegar ao cargo de presidente, exercido por ele nos dois anos seguintes. É um padrão, que agora vai se reeditar.

Correção

16 de Dezembro de 2020 às 09:35

Na primeira versão deste texto, o partido do prefeito eleito de Vitória, Lorenzo Pazolini, estava incorreto. Pazolini não é filiado ao PSD, e sim ao Republicanos. A informação foi corrigida. 

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