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Análise

Os bastidores das mudanças na equipe do governo Casagrande

Trocado por Gilson Daniel na Secretaria de Governo, Tyago Hoffmann caiu do núcleo duro e decisório, mas ele mesmo preparou sua cama elástica: uma supersecretaria que pode levá-lo a subir ainda mais alto

Públicado em 

28 fev 2021 às 02:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

A dança das cadeiras no governo Casagrande
A dança das cadeiras no governo Casagrande Crédito: Amarildo
Tyago Hoffmann (PSB) saiu da Secretaria de Estado de Governo (SEG) por decisão do governador Renato Casagrande (PSB), não porque quis. Com isso, foi retirado do núcleo mais político do governo. Mas foi o próprio Hoffmann quem idealizou e formatou a nova “supersecretaria” para a qual foi deslocado (Desenvolvimento com Ciência e Tecnologia), deixando-a à sua feição, bem do jeito que queria. Sabendo que não poderia mais seguir na SEG, Hoffmann tratou de armar a própria cama – ou quiçá sua “cama elástica”, para cair, “quicar” e voltar a subir ainda mais alto dentro da hierarquia do governo. “Cair para cima”, enfim. Só não se sabe se o plano dará certo.
Pouco antes do carnaval, Casagrande convidou Gilson Daniel para assumir a SEG (o domínio de Hoffmann desde o início do atual mandato, em 2019). Gilson topou na hora. É óbvio. Quem não toparia? Ele assim entra no Palácio Anchieta pela porta da frente, com tapete vermelho estendido pelo próprio governador, seguindo diretamente para o coração político do governo: o núcleo duro e decisório (onde também se encontram Flávia Mignone, Davi Diniz e Valésia Perozini, respectivamente a secretária de Comunicação, o chefe da Casa Civil e a chefe de gabinete de Casagrande).
Todo soldado faz a própria cama.

A CAMA ARMADA POR HOFFMANN

Casagrande pensou então na Secretaria de Ciência e Tecnologia, pasta à qual o governo já vinha querendo dar mais peso a partir de outro perfil, que mescle a atuação técnica com uma cara mais política e que dê maior projeção às ações da secretaria.
A até então secretária de Ciência e Tecnologia, Cristina Engel Alvarez, tem o trabalho respeitado no governo, porém é consenso que, como pesquisadora que é, seu perfil é muito mais acadêmico. Ela faz muito bem a interlocução para dentro da academia, mas não estabelece muitas conexões com os meios político e empresarial.
Hoffmann, por sua vez, é um típico “híbrido”: além de economista, é treinado na articulação política (tanto agora, na SEG, como no governo passado de Casagrande, quando esteve à frente da Casa Civil). Isso sem falar que é dirigente estadual do PSB e há quem diga que pode ser candidato a deputado estadual em 2022. Assim, pode dialogar mais para fora, com outros setores.
O governador conversou com Hoffmann sobre essa possibilidade e deu-lhe um tempo para pensar. O secretário usou bem esse tempo. Pegou caneta, caderno e agenda telefônica. Fez as suas pesquisas. Ligou para os seus contatos no governo de São Paulo, modelo que lhe serviu de inspiração. E, após o “carnaval sem carnaval”, voltou a Casagrande não exatamente com uma “contraproposta” (pois teria ido para a Secti de qualquer maneira), mas com um “projeto de expansão” já todo idealizado e formatado por ele mesmo para a pasta que seria seu destino.
Apresentou, então, ao governador o esboço de uma nova Secretaria de Ciência e Tecnologia, versão 2021, muito mais robusta e encorpada, anexando outra secretaria: a de Desenvolvimento (Sedes).
Em outras palavras, Hoffmann deu um jeito de tornar mais vistoso e atraente o seu próximo destino no governo antes mesmo de lá firmar pé. É como se alguém, estando no Brasil, soubesse de repente que terá que ir morar no México, mas tratasse de anexar os Estados Unidos primeiro. Ou como se alguém que paga aluguel, ao receber do proprietário o aviso de que deve deixar o imóvel, tratasse de garantir que a nova morada, em vez de um quitinete político, transforme-se num apartamento duplex antes mesmo de se mudar para lá.
Casagrande topou de pronto a proposta levada por Hoffmann. Não só para prestigiar e “compensar” seu até então braço-direito no governo após a perda da SEG e, consequentemente, de influência política que isso representa para o secretário. Mas também porque, na realidade, a fusão da Secti com a Sedes vai ao encontro de um ideal cultivado por Casagrande desde o início do atual governo: dar prioridade e centralidade à inovação tecnológica como alavanca para o crescimento econômico.
O cerne da proposta dessa nova secretaria será fomentar a pesquisa científica voltada para o desenvolvimento econômico do Estado e ajudar a desenvolver novas tecnologias também direcionadas a esse fim; integrar a produção acadêmica ao mundo dos negócios (sobretudo, o dos novos negócios).
Assim como Cristina Engel na Secti, o até então titular da Sedes, Márcio Kneip Navarro, tem trabalho bem avaliado por seu setor e por Casagrande, mas perfil 100% técnico. É considerado muito dinâmico, mas não projeta a pasta para a sociedade como o governo deseja (mais ainda agora, em ano pré-eleitoral).
Nestes dois últimos anos de governo, visando à reeleição de Casagrande em 2022, o governo também quer dar maior visibilidade às ações da Sedes (o que na prática também significa “politizar” mais essa pasta). Ao incorporar esse enorme território do governo aos seus novos domínios, Hoffmann também deve preencher essa lacuna identificada em avaliações da cúpula palaciana.
Em conformidade com os respectivos perfis, Kneip assumirá uma diretoria no Bandes focada no que ele faz melhor (atração de novos projetos e negócios), enquanto Cristina Engel ficará como diretora-presidente da Fapes, a fundação estadual de fomento à pesquisa científica e tecnológica –, por exemplo, com editais de bolsas de estudos bancadas pelo governo do Estado.
Não só eles como muita gente vai passar a estar subordinada a Hoffmann e a responder diretamente a esse “soldado” de Casagrande (de patente não tão baixa assim na equipe...). A Fapes, o Bandes e outras estruturas estratégicas do Estado, como a Aderes, a Agência Reguladora e a ES Gás… tudo isso e mais um pouco estará vinculado agora a essa superestrutura criada por Hoffmann (para ele mesmo comandar) e avalizada por Casagrande.

CAUTELA, MAS AMBIÇÃO

Cioso de sua imagem e ciente de que admiti-lo poderia transmitir arrogância, o secretário, na entrevista à coluna publicada neste sábado, evitou falar em “supersecretaria”. Mas na prática é exatamente disso que se trata. Além dos órgãos e autarquias citados acima (já vinculados à Secti e à Sedes), Hoffmann vai levar para lá a administração do Fundo Soberano (hoje com ele na SEG) e o conselho do programa de parcerias público-privadas (PPPs) do Espírito Santo, também atrelado à SEG atualmente.
Se por um lado ele perde muito poder (na forma de influência política sobre as decisões da cúpula), por outro também ganha muito: um poder de outro tipo e incrivelmente centralizado nas mãos de um só secretário. Em suma: perde muito por um lado, mas ganha muito por outro. Vamos ver daqui a alguns meses como é que ficará essa gangorra, ou melhor, esse trapézio. E se a cama armada por Hoffmann será mesmo uma cama elástica ou se será uma cama de palha.
Ele mesmo deixa escapar uma pista sobre a ambição do que pretende: “Acho que essa mudança vai ser muito boa para mim pessoalmente e confesso a você que acho que essa é a mudança mais importante que já aconteceu no desenvolvimento econômico do Espírito Santo nos últimos 50 anos”.
Só isso.

Com os brios feridos, Hoffmann vai querer dar a resposta

Em entrevista à coluna, Tyago Hoffmann não expressou ressentimento nem abatimento algum, mas, por mais que procure disfarçar, é natural que ele esteja ferido no ego em algum grau. Além de relativamente vaidoso, o secretário é autoconfiante, muito dedicado ao trabalho, veste mesmo a camisa do governo e, na definição de um colega, é “naturalmente muito entusiasmado em tudo o que pega para fazer”.

Pois bem: o projeto pessoal de Hoffmann neste ano será conferir protagonismo ao seu novo quinhão (e que quinhão!) no território do governo. Fará de tudo para transformar numa “promoção” o que, a priori, pode ser encarado como um "rebaixamento" na hierarquia governamental.

Em alguns meses descobriremos se o plano deu certo, quando soubermos o que terá virado de fato essa nova secretaria... como ele mesmo, aliás, sugeriu, quando lhe perguntei diretamente se cresceu ou encolheu politicamente com essa mudança: “Acho que o tempo dirá um pouco isso que você está me perguntando”.

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Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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