O dado mais chamativo da nova pesquisa Ibope/Rede Gazeta sobre a corrida rumo à Prefeitura de Vitória, publicada na noite desta terça-feira (3), é o crescimento do candidato Lorenzo Pazolini (Republicanos) em relação ao levantamento anterior da série, divulgado no dia 13 de outubro. De uma sondagem para a outra, o deputado estadual subiu de 10% para 18% na intenção estimulada de voto, aproximando-se perigosamente dos líderes, João Coser (PT), com 26%, e Fabrício Gandini (Cidadania), com 24%. No limite da margem de erro, os três estão tecnicamente empatados. Cabe, então, a pergunta: o que explica essa evolução de Pazolini?
Não temos aqui respostas prontas, mas oferecemos algumas hipóteses. A primeira delas é que, perceptivelmente, a campanha de Pazolini está forte e espalhada nas ruas, sustentada por infraestrutura e, principalmente, por recursos financeiros para bancar publicidade maciça.
Desde a primeira pesquisa Ibope/Rede Gazeta em Vitória, a campanha do candidato do Republicanos ganhou força, não por coincidência, a partir do momento em que passou a receber uma grande injeção de recursos por parte da direção partidária. No dia 16 de outubro (três dias após a primeira pesquisa), a Executiva Nacional do Republicanos transferiu R$ 740 mil para a conta de campanha de Pazolini. É evidente que as duas coisas estão diretamente relacionadas.
O Republicanos tem candidato próprio a prefeito em dez capitais do país, incluindo todas as da região Sudeste. Conforme demonstramos aqui na última segunda-feira (2), Pazolini é, nas dez capitais, o candidato em quem a cúpula do partido está injetando mais dinheiro do Fundo Eleitoral, proporcionalmente ao número de eleitores das respectivas cidades.
Até o último domingo (1º), quando fizemos o levantamento, a quantia de R$ 1,240 milhão correspondia a quase R$ 5,00 para gastar por eleitor de Vitória – superando muito, por exemplo, os cerca de R$ 0,40 para Marcelo Crivella, estrela nacional do partido e prefeito que disputa a reeleição, gastar por eleitor da cidade do Rio de Janeiro.
Noutras palavras, a cúpula nacional parece estar acreditando e, por isso, investindo fortemente em seu candidato na capital capixaba. Quanto à cúpula estadual (leia-se Roberto Carneiro e Erick Musso), parece ter decidido apostar tudo num cavalo só, já que Amaro Neto desistiu de ser candidato na Serra, Sérgio Meneguelli fez o mesmo em Colatina e outros candidatos realmente lançados, como Hudson Leal em Vila Velha, não chegaram a deslanchar – pelo menos não na primeira pesquisa Ibope/Rede Gazeta.
A POLARIZAÇÃO COM GANDINI/LUCIANO
Outro ponto que pode ajudar a explicar esse crescimento de Pazolini é sua estratégia de campanha: o deputado não deixa de apresentar propostas, mas está batendo fixamente, desde o início, na atual administração, assim atraindo os votos dos insatisfeitos com o governo de Luciano Rezende (Cidadania). Na verdade, muitos outros estão fazendo isso, como Mazinho (PSD), Nylton Rodrigues (Novo), Neuzinha de Oliveira (PSDB) e Halpher Luiggi (PL), mas, com a segunda maior coligação (atrás somente de Gandini), Pazolini tem mais tempo de rádio e TV, além de mais inserções, para colocar em prática essa estratégia de maneira sistemática.
No cruzamento de dados da sondagem, nota-se que Pazolini cresce ainda mais e atinge 22% da intenção estimulada entre os entrevistados que avaliam a gestão de Luciano como ruim ou péssima. Nesse grupo, porém, quem mais se destaca é Coser (que nem está batendo tanto na atual gestão), com 34% da preferência.
O COMPONENTE IDEOLÓGICO
Um último fator não pode ser de todo descartado, ainda que possa ter peso menor – em uma eleição que, contra muitas avaliações, está passando bem mais ao largo de disputas ideológicas do que a de 2018. Pazolini apresenta-se como um político de direita e é muito mais identificado com esse campo. Quando olhamos os gráficos e tabelas do Ibope, percebemos que, dos outros candidatos inseridos nesse campo político-ideológico, nenhum deles deslanchou, pelo menos até aqui: Capitão Assumção (Patriota) e Mazinho têm 5% cada um; Nylton Rodrigues, 1%; Halpher Luiggi nem pontua.
Diante de tais números, é possível que o voto ideológico mais enraizado daquele eleitor de direita que não vota de jeito nenhum em Coser e não se vê representado por Gandini tenha afluído para Pazolini, encarado como um candidato mais competitivo que os demais representantes desse campo.
ASSUMÇÃO SEM ASCENSÃO
Nessa subseção da nossa análise, merece destaque o desempenho parcial de Assumção, bastante tímido até o momento. Com uma campanha muito modesta e carente de recursos financeiros, além de pouquíssimo tempo de rádio e TV, o deputado de extrema-direita estagnou em 5% da intenção estimulada.
Chama a atenção também, por assim dizer, o personagem que ele resolveu vestir nessa campanha eleitoral, nos meios de comunicação de massa: propositivo, tranquilão, sem frases de efeito... nada a ver, por exemplo, com o deputado que vemos na Assembleia e com o estilo que o tornou popular em determinado nicho de eleitores (os da direita para a extrema-direita).
Quanto ao figurino do personagem, a bandeira do Brasil foi desfraldada, mas o próprio Assumção foi “desfardado”: proibido pela Justiça Eleitoral de envergar a farda da Polícia Militar desde a semana um de campanha oficial, já que a legislação eleitoral não o permite. A camisa amarela entrou em campo, mas o candidato parece até despido.
Um último dado interessante comprova as limitações de Assumção até aqui: seu desempenho na intenção espontânea de voto (4%) é quase idêntico à sua performance na estimulada (5%). Isso é algo raro a esta altura do processo. Significa que ele só tem os votos daquele nicho mesmo, o dos já convertidos, mas não consegue ir além desse nicho até este ponto da campanha. É um voto de bolha.