O que explica o crescimento de Pazolini no Ibope em Vitória?
Eleições 2020
O que explica o crescimento de Pazolini no Ibope em Vitória?
Entre os possíveis fatores, podemos destacar uma campanha forte, com injeção maciça de recursos, e a estratégia de se firmar como contraponto à gestão de Luciano, além do componente ideológico
Delegado Lorenzo Pazolini, deputado estadual pelo RepublicanosCrédito: Lissa de Paula
O dado mais chamativo da nova pesquisa Ibope/Rede Gazeta sobre a corrida rumo à Prefeitura de Vitória, publicada na noite desta terça-feira (3), é o crescimento do candidato Lorenzo Pazolini (Republicanos) em relação ao levantamento anterior da série, divulgado no dia 13 de outubro. De uma sondagem para a outra, o deputado estadual subiu de 10% para 18% na intenção estimulada de voto, aproximando-se perigosamente dos líderes, João Coser (PT), com 26%, e Fabrício Gandini (Cidadania), com 24%. No limite da margem de erro, os três estão tecnicamente empatados. Cabe, então, a pergunta: o que explica essa evolução de Pazolini?
Não temos aqui respostas prontas, mas oferecemos algumas hipóteses. A primeira delas é que, perceptivelmente, a campanha de Pazolini está forte e espalhada nas ruas, sustentada por infraestrutura e, principalmente, por recursos financeiros para bancar publicidade maciça.
Desde a primeira pesquisa Ibope/Rede Gazeta em Vitória, a campanha do candidato do Republicanos ganhou força, não por coincidência, a partir do momento em que passou a receber uma grande injeção de recursos por parte da direção partidária. No dia 16 de outubro (três dias após a primeira pesquisa), a Executiva Nacional do Republicanos transferiu R$ 740 mil para a conta de campanha de Pazolini. É evidente que as duas coisas estão diretamente relacionadas.
Até o último domingo (1º), quando fizemos o levantamento, a quantia de R$ 1,240 milhão correspondia a quase R$ 5,00 para gastar por eleitor de Vitória – superando muito, por exemplo, os cerca de R$ 0,40 para Marcelo Crivella, estrela nacional do partido e prefeito que disputa a reeleição, gastar por eleitor da cidade do Rio de Janeiro.
Noutras palavras, a cúpula nacional parece estar acreditando e, por isso, investindo fortemente em seu candidato na capital capixaba. Quanto à cúpula estadual (leia-se Roberto Carneiro e Erick Musso), parece ter decidido apostar tudo num cavalo só, já que Amaro Neto desistiu de ser candidato na Serra, Sérgio Meneguelli fez o mesmo em Colatina e outros candidatos realmente lançados, como Hudson Leal em Vila Velha, não chegaram a deslanchar – pelo menos não na primeira pesquisa Ibope/Rede Gazeta.
Outro ponto que pode ajudar a explicar esse crescimento de Pazolini é sua estratégia de campanha: o deputado não deixa de apresentar propostas, mas está batendo fixamente, desde o início, na atual administração, assim atraindo os votos dos insatisfeitos com o governo de Luciano Rezende (Cidadania). Na verdade, muitos outros estão fazendo isso, como Mazinho (PSD), Nylton Rodrigues (Novo), Neuzinha de Oliveira (PSDB) e Halpher Luiggi (PL), mas, com a segunda maior coligação (atrás somente de Gandini), Pazolini tem mais tempo de rádio e TV, além de mais inserções, para colocar em prática essa estratégia de maneira sistemática.
No cruzamento de dados da sondagem, nota-se que Pazolini cresce ainda mais e atinge 22% da intenção estimulada entre os entrevistados que avaliam a gestão de Luciano como ruim ou péssima. Nesse grupo, porém, quem mais se destaca é Coser (que nem está batendo tanto na atual gestão), com 34% da preferência.
O COMPONENTE IDEOLÓGICO
Um último fator não pode ser de todo descartado, ainda que possa ter peso menor – em uma eleição que, contra muitas avaliações, está passando bem mais ao largo de disputas ideológicas do que a de 2018. Pazolini apresenta-se como um político de direita e é muito mais identificado com esse campo. Quando olhamos os gráficos e tabelas do Ibope, percebemos que, dos outros candidatos inseridos nesse campo político-ideológico, nenhum deles deslanchou, pelo menos até aqui: Capitão Assumção (Patriota) e Mazinho têm 5% cada um; Nylton Rodrigues, 1%; Halpher Luiggi nem pontua.
Diante de tais números, é possível que o voto ideológico mais enraizado daquele eleitor de direita que não vota de jeito nenhum em Coser e não se vê representado por Gandini tenha afluído para Pazolini, encarado como um candidato mais competitivo que os demais representantes desse campo.
Nessa subseção da nossa análise, merece destaque o desempenho parcial de Assumção, bastante tímido até o momento. Com uma campanha muito modesta e carente de recursos financeiros, além de pouquíssimo tempo de rádio e TV, o deputado de extrema-direita estagnou em 5% da intenção estimulada.
Chama a atenção também, por assim dizer, o personagem que ele resolveu vestir nessa campanha eleitoral, nos meios de comunicação de massa: propositivo, tranquilão, sem frases de efeito... nada a ver, por exemplo, com o deputado que vemos na Assembleia e com o estilo que o tornou popular em determinado nicho de eleitores (os da direita para a extrema-direita).
Quanto ao figurino do personagem, a bandeira do Brasil foi desfraldada, mas o próprio Assumção foi “desfardado”: proibido pela Justiça Eleitoral de envergar a farda da Polícia Militar desde a semana um de campanha oficial, já que a legislação eleitoral não o permite. A camisa amarela entrou em campo, mas o candidato parece até despido.
Um último dado interessante comprova as limitações de Assumção até aqui: seu desempenho na intenção espontânea de voto (4%) é quase idêntico à sua performance na estimulada (5%). Isso é algo raro a esta altura do processo. Significa que ele só tem os votos daquele nicho mesmo, o dos já convertidos, mas não consegue ir além desse nicho até este ponto da campanha. É um voto de bolha.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.