Jair Bolsonaro não gosta de Ciências. Nem de Filosofia, uma das ciências humanas inventadas pelos gregos na Antiguidade Clássica. Em abril de 2019, anunciou que cortaria investimentos do governo em faculdades de Sociologia e de Filosofia. Fez o anúncio por seu meio de comunicação predileto: o Twitter, essa maravilha da tecnologia digital que só é possível, hoje, graças a séculos de evolução das pesquisas científicas mundo afora.
Como não se interessa por Filosofia, o presidente não deve estar familiarizado com o pensamento de Platão. E nunca deve ter ouvido falar do “Mito das Cavernas”.
Contida no livro VII de “A República”, obra mais completa e profunda do discípulo de Sócrates, a alegoria parece escrita para os dias atuais. Tem muito a ver com a nossa atual realidade política e sociológica.
Para Platão, a busca pela verdade e pelo conhecimento humano são características primordiais de um bom governante. Ele defendia a existência de um modo de conhecer, de saber, que seria o mais adequado para um líder político capaz de fazer política com sabedoria e justiça.
Na metáfora cunhada por Platão – inspiração para o filme “Matrix” (1999) –, prisioneiros vivem, desde a infância, acorrentados à parede de uma caverna. Atrás da parede à qual estão presos, há uma fogueira. Atrás dela, pessoas passam com objetos, projetando sombras na parede oposta da caverna, situada em frente aos prisioneiros.
Tudo o que eles podem avistar desde que conseguem se lembrar são essas sombras, tomadas por eles, portanto, como a totalidade do mundo, isto é, como a própria “realidade”. Como tudo o que “conhecem” são essas sombras, esse é todo o “conhecimento” que possuem.
Certo dia um prisioneiro se liberta. Assombrado, descobre a existência da fogueira, das pessoas atrás dela e de todo um mundo desconhecido, exterior à caverna. Percebe que as sombras, que ele tomava por toda a realidade, não são mais que cópias distorcidas e imperfeitas de uma ínfima parcela do mundo real.
Agora, se o prisioneiro liberto voltasse à caverna para libertar os companheiros e contar-lhes o gigantesco engano em que sempre tinham vivido, eles não acreditariam nele e o julgariam louco. Uma vez adaptados à luz, seus olhos ficariam “cegos” em seu retorno à escuridão. Entendendo que sair da caverna é extremamente perigoso, os demais concluiriam que jamais deveriam tentar fugir dali e, se pudessem, matariam qualquer um que buscasse tirá-los da caverna.
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IDADE MÉDIA: MONOPOLIZAÇÃO DO CONHECIMENTO
Aristóteles foi discípulo de Platão e, para muitos, superou o mestre. Uma obra atribuída a ele tem centralidade no romance “O Nome da Rosa” (1980), do escritor e também filósofo italiano Umberto Eco. Na trama, uma série de assassinatos se processa no interior de um mosteiro de uma congregação católica, nos idos do século XIV.
O motivo, como ao fim descobre o frei Guilherme de Baskerville, um “subversivo” adepto das ciências que investiga os crimes: um dos monges não queria que chegasse ao conhecimento de ninguém um livro perdido de Aristóteles em que o grego discorrera sobre o riso e a comédia.
Era o fim da Idade Média, milenar período em que, de fato, a produção e a circulação do conhecimento foram controladas e retidas por religiosos – especificamente, pela Igreja Católica. Para alguns, uma “idade das trevas”, intelectualmente falando. Os gregos antigos foram enterrados nas bibliotecas às quais ninguém mais tinha acesso. O mundo era explicado pela tradição, por crendices populares e pela religião. Os livros não circulavam.
IDADE MODERNA: A REVOLUÇÃO CIENTÍFICA
Isso acaba por volta de 1450, com a invenção da prensa móvel, por Johannes Gutenberg, o mais revolucionário invento (e, quiçá, evento) do segundo milênio depois de Cristo. Com a chegada da imprensa, adeus, Idade Média! Livros agora podem circular em larga escala e, com eles, a informação e a aprendizagem.
A História dá as boas-vindas ao Renascimento. Nas artes e nos mais diversos campos do saber (alô, Da Vinci!), resgatam-se os artistas, pensadores e cientistas da Grécia Antiga, como fonte de inspiração.
Deus, então, não está morto, como enunciaria, quatro séculos mais tarde, o filósofo Nietzsche, mas tem que chegar um pouquinho para o lado para dar espaço à sua criação. O homem é colocado de volta ao centro do pensamento. Mas o planeta em que vivemos, literalmente, sai do centro do universo. A Terra é esférica e não só gira como gira ao redor do Sol.
Além das pesquisas de Copérnico, Galileu, entre outros, a descoberta é empírica: nas Grandes Navegações, exploradores esbarram em “novos” continentes e conseguem tornar ao ponto de partida circunavegando o mundo.
Surge a Era Moderna, marcada pelo advento da Razão: Newton, Decartes, Pascal, Lineu, Lavoisier, Galileu – o mesmo que viraria personagem de peça homônima de Brecht três séculos após sua morte e afirmaria, no texto: “Infeliz o povo que precisa de ídolos”.
O sistema racional de pensamento e o método científico ganham primazia sobre dogmas e certezas seculares baseadas em superstição e achismo. Todo conhecimento precisa ser validado, toda teoria precisa ser testada, toda hipótese precisa ser provada por meio de experimentos rigorosos, para poder merecer o estatuto de verdade... isto é, de verdade científica. A Ciência sobe ao centro do palco histórico.
Vem o século XVIII e, com ele, o Iluminismo, as Luzes, a Razão, a Enciclopédia... questionamentos sobre o status quo e sobre a ordem sociopolítica vigente, o poder concentrado nas mãos de poucos (o clero, a nobreza, o rei cujo direito de governar supostamente emanava de Deus).
O homem é recolocado agora não só no centro do pensamento, mas das decisões políticas. Temos a declaração de independência dos EUA, a Revolução Francesa... De novo da Grécia Antiga, ressurge o conceito de democracia. Nas artes, brilha o Neoclassicismo. Ascendem na História a burguesia, o capitalismo, a Modernidade.
IDADE CONTEMPORÂNEA: SIM, O PLANETA É REDONDO. MAS FICA CADA VEZ MENOR...
No século XIX, invenções tecnológicas proporcionadas pela Ciência multiplicam exponencialmente a capacidade de produção dos homens: eis a Revolução Industrial, pedindo passagem no desfile da humanidade pela avenida da História.
Nos meios de transporte e de comunicação, surgem a locomotiva, o telefone, o telégrafo, a fotografia... E acende-se um dos maiores achados humanos desde que dominamos o fogo: a eletricidade.
No fim do século, inauguram-se ciências humanas que elevam a um novo patamar a capacidade do homem de pensar sobre como pensamos e sobre como vivemos: a Psicologia, a Sociologia, a Antropologia. E, claro, Charles Darwin, com a teoria da evolução das espécies.
No século XX, conquistas da Medicina maximizam incrivelmente a nossa expectativa de vida: tratamentos, remédios, técnicas cirúrgicas, saneamento básico, mas, acima de tudo, vacinas, que praticamente erradicam certas doenças de cuja letalidade havíamos até nos esquecido (até voltarmos, recentemente, por opção espontânea, a esnobar a eficácia da vacinação em massa).
As duas Guerras Mundiais, por terríveis que tenham sido, proporcionam um incrível salto tecnológico para a humanidade: a energia nuclear, as telecomunicações, os primeiros computadores...
A corrida agora é espacial. O homem vai à Lua, sonda outros planetas e galáxias, enquanto tem gente que ainda perde tempo discutindo se a Terra é plana! Como diriam em inglês, “this ship has sailed, folks!”: esse navio já zarpou, pessoal. Zarpou lá no século XV, com as Grandes Navegações.
E HOJE? REGREDIMOS NA MARCHA DA HISTÓRIA?!?
Nas últimas décadas o boom é digital: a internet, as novas mídias e tecnologias da informação. As mesmas que foram fundamentais para a vitória de Jair Bolsonaro em 2018 (o Twitter, o Whatsapp...). Não é exagero dizer: de certo modo, a chegada de Bolsonaro ao Planalto é resultado direto da evolução da Ciência.
Mas Bolsonaro assume o poder disposto a renegar a Ciência e todo esse acúmulo da civilização humana. E, no momento em que a Ciência é nossa única salvação possível, no qual os governantes mais precisam se fiar nos cientistas e parar humildemente para ouvi-los, o presidente da República Federativa do Brasil prefere ir na contramão do mundo. Não quer buscar a verdade do conhecimento, como pregava Platão, lá no início desta marcha do Ocidente.
Continua fazendo pouco da Ciência, sobrepondo disputas político-ideológicas a orientações de quem entende do assunto. E chega ao cúmulo de confrontar publicamente o seu próprio ministro da Saúde, insinuando que pode demiti-lo no auge da pandemia do coronavírus.
Não por acaso, num emblemático tapa de luva, Mandetta fez menção ao “Mito das Cavernas” em seu pronunciamento à imprensa na última segunda-feira (6). “Li de novo. Continuo sem entender”, fez-de bobo.
Nós entendemos, ministro. Entendedores entenderam.